Setembro - 2026 - Edição 314
Absurdo Coração
Absurdo Coração (Patuá Editora), nova coletânea do escritor Tanussi Cardoso, celebra suas oito décadas de vida. Versando sobre temas que vão da inexorabilidade do tempo à perenidade da existência e das relações humanas, a edição é aberta com textos de dois importantes poetas: Adriano Spínola e Ricardo Alfaya, que assinam, respectivamente, prefácio e apresentação. Já a orelha coube à poeta Suzana Vargas, que destaca, entre outros aspectos, o rigor do material reunido. A obra é dividida em duas partes: Dentes cravados no tempo e O tempo que nos habita. Na primeira, o poeta expõe sua percepção sobre temas relacionados a finitude e aos infortúnios da existência. Já na segunda parte, predomina a lírica que, como Spínola avalia em seu prefácio, está “voltada para a subjetividade e as vicissitudes do eu”. Formado em Jornalismo pela PUC-Rio, e em Língua Inglesa pelo British Brazilian Course do Rio de Janeiro, Tanussi Cardoso trabalhou como Técnico-Judiciário do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Em 2000, formou-se em Direito, na Faculdade Bennett, no Rio de Janeiro. Como jornalista, trabalhou como repórter na Rádio JB, no Jornal Rio Letras e no jornal O Fluminense. É autor de vários livros, entre eles, Desintegração (1979) e Boca Maldita (1982).
Apenas um Olhar pelo Brasil
Apenas um Olhar pelo Brasil – Região Sudeste (Ipsis Gráfica e Editora, 2026) é o primeiro livro de uma coleção que pretende percorrer as cinco regiões brasileiras através da mesa posta. Em caprichadíssima edição de capa dura, com 304 páginas, a obra se tornou realidade graças ao talento e à dedicação de uma equipe capitaneada por Fabienne Bezerra, autora e idealizadora do projeto, responsável pela concepção artística e pela produção das mesas. Um trabalho coletivo que transforma pesquisa, arte, fotografia e design em uma celebração da cultura brasileira e do encontro em torno da mesa. Ao seu lado estão Isabel Corção, fotógrafa responsável pelas belíssimas imagens; Ana Maria Roldão, historiadora que reúne e pesquisa os conteúdos sobre história, folclore, fauna e flora; e Priscila Bodin, diretora criativa e fundadora da Mancha Gráfica, estúdio responsável pelo projeto gráfico, pela edição e pela diagramação. Fabienne Bezerra é economista e iniciou sua carreira, em 1980, no Grupo Jardim da Saudade, tornando-se CEO do grupo em 2005, função que exerce até hoje. Em 2018, lançou seu primeiro livro, Apenas um Olhar, dando início a uma trajetória que une sua experiência profissional à paixão pela arte de receber e pela celebração dos encontros à mesa.
O Não Me Deixes
A Editora José Olympio lançou uma nova edição de O Não Me Deixes. A edição conta com a colaboração de Maria Luíza de Queiroz, irmã caçula de Rachel. A apresentação é de Flávio de Queiroz Salek, neto da escritora. O livro traz memórias da imortal Rachel de Queiroz sobre seu refúgio preferido, com receitas culinárias afetivas. A autora traz a público suas lembranças sobre a fazenda “Não Me Deixes”, (localizada em Quixadá, no sertão do Ceará), que herdou do avô e onde construiu seu refúgio, e apresenta as receitas que preparava para a família e os amigos. Primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, sem fugir de seu tema preferido – o Nordeste brasileiro –, Rachel resgata memórias afetivas vividas em sua fazenda, com destaque para a cozinha. Ao mesmo tempo, ela comenta a culinária sertaneja e toda a sofisticação da gastronomia nordestina, com influência dos povos originários, dos negros escravizados e dos colonizadores portugueses. Rachel de Queiroz (1910- 2003) ainda não tinha 20 anos completos quando publicou O Quinze, seu primeiro romance. Tal era a força de seu talento que o livro despertou imediata atenção da crítica em todo o Brasil. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 92 anos.
Como Navegar o Abismo
Como Navegar o Abismo é o terceiro romance de Paula Gicovate, que marca também sua estreia na Editora Record. Reconhecida por explorar os afetos, os desejos e as zonas mais delicadas dos relacionamentos amorosos pela ótica feminina, a autora apresenta, agora, uma narrativa sobre perda, reconstrução e a difícil tarefa de voltar à vida quando tudo aquilo que parecia sólido deixa de existir. A obra parte da experiência pessoal da autora, que perdeu a mãe em 2022, mas envereda pela ficcionalização de si e da experiência vivida do luto. Mais do que um romance sobre o luto, porém, trata-se de uma narrativa sobre reinvenção. A reflexão se amplia para uma questão recorrente na experiência feminina: a responsabilidade pelo cuidado. Numa terceira camada, o livro aborda, ainda, a maternidade sob uma perspectiva realista, onde o amor convive com o fardo. O desejo, o amor, o sexo, o trabalho e a criação aparecem no romance como forças capazes de devolver movimento à existência quando tudo parece paralisado. Paula Gicovate nasceu em Campos dos Goytacazes, em 1985. É autora dos romances Notas sobre a impermanência, semifinalista do Prêmio Oceanos 2022 e publicado em Portugal, e Este é um livro sobre amor, lançado também na Espanha.
Kikando com os homens maduros
O Que Eles Dizem: Kikando com os homens maduros (Ed. Lacre) é o terceiro livro de Kika Gama Lobo. Partindo de uma escuta afiada, o texto desloca o eixo da fala para iluminar um território pouco frequentado: o da experiência masculina madura em sua dimensão mais íntima. O livro, derivado do podcast PodPau, organiza depoimentos de homens 55+ que, sem verniz, abordam temas historicamente interditados ao masculino. Há, no projeto, uma busca de atrito produtivo: tensionar o machismo estrutural ao mesmo tempo em que se escuta o indivíduo capturado por ele. Homens que foram socializados para o silêncio agora ensaiam a palavra. O mérito central da obra está na curadoria da escuta. O livro evidencia não apenas fragilidades individuais, mas um colapso de referências. Sem concessões retóricas, a autora assume sua própria tensão – “não é ódio ao indivíduo, mas ao sistema”. O resultado é uma obra que convoca o leitor ao desconforto reflexivo. Kika Gama Lobo é carioca, escritora e criadora de conteúdo sobre maturidade na internet. Colunista semanal da Veja Rio sobre longevidade, é sócia da festa Kikando e autora de Kikando na Maturidade (2022) e Crônicas de uma Carioca Grisalha (2024).
A Última Revolução do Trabalho
Há livros que procuram explicar o futuro. A Última Revolução do Trabalho (Ed. Citadel, 2026), de Alexandre Icaza, prefere fazer algo mais incômodo: perguntar se estamos realmente preparados para vivê-lo. Em uma época em que a inteligência artificial deixou os laboratórios e passou a ocupar escritórios, escolas, empresas e profissões, o autor examina, com narrativa fluida e acessível, uma transformação que já não pertence ao campo da ficção científica. O que está em jogo, sustenta Icaza, não é apenas a substituição de determinadas tarefas, mas uma mudança profunda na relação entre conhecimento, trabalho, autonomia e sobrevivência. Com mais de três décadas de atuação no mercado de tecnologia, Alexandre Icaza acompanhou de perto a transformação do ambiente digital. Foi pioneiro do comércio eletrônico brasileiro como um dos sócios da Sack’s, a perfumaria on-line posteriormente adquirida pelo grupo LVMH, e construiu uma trajetória que atravessa empreendedorismo, investimentos e inovação. Hoje, atua também como investidor em startups e transita entre tecnologia, mercado financeiro, impacto social e novas formas de organização. Sua experiência ajuda a dar ao livro uma perspectiva particularmente interessante: a de quem não observa a revolução tecnológica da arquibancada, mas participou de algumas das mudanças que a antecederam.