xxx - 2026 - Edição 313

Museu Judaico: a luz que o tempo não apaga Museu Judaico: a luz que o tempo não apaga
Às vésperas de completar 50 anos, o Museu Judaico do Rio preserva uma história que é, também, parte da memória cultural da cidade.
Há histórias que desaparecem quando ninguém mais se dispõe a
contá-las. E há objetos que parecem silenciosos até que alguém lhes devolva a voz. Uma fotografia, uma carta, um passaporte, uma menorá, um livro
antigo. Cada um deles pode carregar uma vida inteira.
É desse gesto de resgate que nasceu o Museu Judaico do Rio de
Janeiro, que em 24 de novembro de 2027 completará 50 anos. Meio século depois de sua criação, a instituição conserva documentos, objetos,
fotografias, livros e testemunhos que ajudam a reconstruir a trajetória da
comunidade judaica no Rio e, por extensão, uma parte importante da própria formação cultural da cidade.
Uma história que começa pequena
No ano de 1977, três casais da comunidade judaica carioca, Naum e Ester Kosovski, Jorge e Bela Josef e Chaim e Rosa Szwertszarf, deram os primeiros passos para criar uma instituição que reunisse e preservasse os vestígios da presença judaica no Brasil. A iniciativa contou com a participação de outros integrantes da comunidade e nasceu de uma preocupação simples e, ao mesmo tempo, urgente: antes que o tempo apagasse os sinais de uma trajetória construída por sucessivas gerações, era preciso reuni-los. O primeiro objeto foi uma menorá (candelabro de sete braços, um dos principais símbolos do judaísmo), réplica de um candelabro italiano do século XVIII, adquirida do artesão José Feldman, judeu nascido na Rússia e radicado no Rio. A partir dali o acervo cresceu. Vieram fotografias, livros, documentos, cartas, objetos religiosos, periódicos, registros institucionais e materiais trazidos por famílias que perceberam que aquilo que guardavam em casa poderia ter um significado muito maior.
É assim que uma coleção deixa de ser apenas uma reunião de coisas. Passa a ser um retrato. Entre as peças está a coleção de hanukiot, candelabros utilizados durante a festa de Chanuká, formada por 69 exemplares de diferentes procedências. São objetos que atravessaram geografias e gerações, revelando como uma tradição pode permanecer reconhecível mesmo quando muda de lugar, de forma e de contexto.
Judeus do Rio, histórias do Brasil
A presença judaica na cidade é muito anterior ao Museu. Diferentes
ondas migratórias, especialmente nas primeiras décadas do século XX,
trouxeram ao Rio famílias vindas da Europa e de outras partes do mundo.
Algumas fugiam da pobreza e da instabilidade política. Outras escapavam
de perseguições que, em pouco tempo, assumiriam uma dimensão trágica.
Aqui, começaram novamente. Abriram negócios, fundaram escolas, associações e sinagogas, criaram jornais, participaram da vida cultural
e econômica e formaram famílias. Os filhos nasceram brasileiros. Os netos
já pertenciam inteiramente à cidade, embora muitas vezes continuassem
carregando hábitos, histórias e tradições herdadas dos avós.

Expoente
Entre as histórias que ajudam a contar a trajetória da comunidade
judaica no Rio de Janeiro e que integram o acervo de memória do Museu
está a de Regine Feigel, uma mulher extraordinária que, além de sua trajetória pessoal marcada pela imigração e pela perseguição nazista, deixou
uma importante contribuição para a cidade que escolheu como lar.
Nascida em 1897, em uma família judia polonesa, Regine estudou
em Viena e era doutora em Química, com conhecimentos também de
engenharia, economia e finanças. Com o marido, o renomado químico
Fritz Feigel, e o filho, deixou a Europa diante do avanço do nazismo.
Depois de uma trajetória de fuga que passou por diferentes países, a família chegou ao Rio de Janeiro em 1940, como refugiada. Aqui, encontrou
não apenas um lugar para reconstruir a vida, mas também a possibilidade
de transformar conhecimento, coragem e espírito empreendedor em projetos que marcariam a história da cidade.
Regine foi uma empreendedora muito à frente de seu tempo. Em
1944, criou a fábrica de alcaloides ALCA e encontrou uma solução para um
problema provocado pela própria economia brasileira durante a Segunda
Guerra Mundial: o enorme excedente de café que não podia ser exportado.
Com a colaboração do marido e de especialistas, desenvolveu um processo para transformá-lo em cafeína, que chegou a ser fornecida à Coca-Cola
do Brasil.
Mas foi no cenário urbano do Rio que seu nome se tornou especialmente marcante. Regine foi responsável pela construção do Edifício
Avenida Central, na Avenida Rio Branco, inaugurado em 1961. Para a
época, tratava-se de um empreendimento monumental, com mais de mil
salas e cerca de 250 lojas, erguido com uma moderna estrutura de aço pré-
-moldado produzida no Brasil. Regine não apenas venceu a concorrência
para construir o edifício como assumiu o desafio de entregá-lo antes do
prazo e cumpriu o compromisso.
Sua atuação, entretanto, ultrapassava os negócios. Professora e
benemérita da PUC-Rio, Regine também destinou recursos a instituições
como a Pró-Matre, a Orquestra Sinfônica Brasileira e o Museu de Arte
Moderna do Rio. Era uma mulher de grande independência, que atravessou guerras, perdas e recomeços sem abrir mão da própria autonomia.
Morreu no Rio de Janeiro, em 1991, aos 94 anos.
Resgatar a história de Regine Feigel é, portanto, também resgatar
uma parte da própria história do Rio. Sua trajetória reúne em uma mesma
vida a experiência de uma família judaica que encontrou refúgio no Brasil,
a contribuição dos imigrantes para a sociedade carioca e a participação de
uma mulher pioneira na construção da cidade moderna. Ao preservar essa
memória em seu acervo e em suas histórias, o Museu Judaico do Rio de
Janeiro mantém viva uma personagem que, como tantas outras, poderia
ter sido apagada pelo tempo. Regine Feigel, porém, permanece como testemunho de coragem, inteligência, empreendedorismo e pertencimento:
uma mulher judia que chegou ao Rio fugindo da intolerância e ajudou,
com seu trabalho, a transformar a cidade que a acolheu.
Homenagem aos sobreviventes
O Museu dispõe de biblioteca, acervo documental, fotografias, vídeos, periódicos e materiais de pesquisa que permitem reconstruir trajetórias individuais e coletivas. Mantém também um Núcleo de Estudos dedicado à imigração judaica e ao Holocausto e desenvolve projetos de história oral, recolhendo depoimentos de imigrantes e descendentes. A história, nesse caso, não está apenas nos livros. Está também na voz de quem viveu. Uma homenagem aos sobreviventes. Há, porém, uma razão especialmente dolorosa para que o Museu Judaico mantenha vivo o passado europeu. A instituição é também uma homenagem aos sobreviventes do Holocausto, muitos dos quais reconstruíram suas vidas no Brasil e alguns dos quais ainda vivem no Rio. Para essas pessoas, a Shoah não pertence a um passado distante. Ela faz parte de suas biografias. São histórias de famílias interrompidas, cidades abandonadas, parentes que desapareceram, vidas reconstruídas em outro continente. Há quem tenha chegado ao Brasil carregando quase nada além de documentos, fotografias e lembranças. E há quem tenha precisado reconstruir até mesmo a própria ideia de futuro. O Museu dá lugar a essas experiências. Não para transformar a tragédia em espetáculo, mas para impedir que ela seja reduzida a uma data nos livros de História.
O horror materializado
A exposição permanente dedicada ao Holocausto reúne objetos,
fotografias e documentos alusivos à tragédia. Entre eles estão um uniforme de campo de concentração e uma estrela de Davi amarela. A estrela
talvez seja uma das peças mais eloquentes.
Durante o nazismo, os judeus europeus foram obrigados a usar a
estrela de Davi amarela costurada às roupas. Um símbolo de identidade
religiosa foi deliberadamente transformado em marca de identificação,
humilhação e segregação. A lógica era perversa justamente por sua simplicidade: identificar para separar; separar para excluir. O que veio depois
pertence a uma das páginas mais sombrias da história humana. Por isso,
diante daquela pequena estrela, o visitante não está apenas diante de um
objeto. Está diante de uma escolha política transformada em matéria.
O uniforme do campo de concentração produz o mesmo choque
de outra maneira. É a roupa de alguém que existiu. O tecido, as marcas, a
forma, tudo o que resta de uma pessoa reduzida pelo regime nazista a um
número e a uma categoria. Objetos assim têm uma força que não depende
de explicações. Eles estiveram lá.
Uma biblioteca contra o esquecimento
A exposição é apenas uma das formas pelas quais o Museu trabalha o tema. A instituição mantém uma biblioteca com mais de 300 títulos
dedicados ao Holocausto, além de um acervo mais amplo relacionado à
cultura, à história e à literatura judaicas. Possui também uma videoteca
com mais de mil títulos e um núcleo voltado à pesquisa.
Ao longo do ano, realiza mostras periódicas, palestras, encontros e
atividades educativas que procuram ampliar o debate sobre o Holocausto,
a imigração, a intolerância e a experiência judaica. É uma distinção
importante. O Museu não se limita a conservar. Ele interpreta, pesquisa,
provoca perguntas. Uma instituição cultural só permanece viva quando
aquilo que guarda continua capaz de dialogar com o presente.
Durante o mês de agosto, por exemplo, o Museu promoveu um
bate-papo com o imortal Arnaldo Niskier, ex-atleta do América FC, como
parte da exposição “Dentro e fora do campo – judeus no futebol carioca”. Entre as muitas curiosidades da mostra, destacamos: as táticas WM
e 4-2-4 foram introduzidas no futebol brasileiro por técnicos judeus; a
primeira mulher a presidir um grande clube de futebol foi uma carioca
judia (Patrícia Amorim, no Flamengo); o Fluminense, durante a Segunda
Guerra, mobilizou seus sócios para arrecadar dinheiro, comprou um
monomotor e doou às Forças Armadas.
Uma casa no coração do Rio
Desde 1986, o Museu funciona na Rua México, 90, no Centro do Rio.
A atual sede foi cedida em comodato pela Federação Israelita do Estado do
Rio de Janeiro, a FIERJ, e pela Confederação Israelita do Brasil, a CONIB.
O endereço tem uma força simbólica. O Museu está no coração
da cidade, próximo de algumas de suas mais importantes instituições
culturais. Não é uma presença periférica, destinada apenas a um grupo
específico. Está inserido no circuito cultural do Rio.
Isso ajuda a responder a uma pergunta que parece simples, mas é
fundamental: para quem é um museu judaico? Para os judeus, certamente.
Mas não somente. É para quem quer compreender a imigração. Para quem
pesquisa a história do Rio. Para quem se interessa por religião, literatura,
arte e cultura. Para quem quer conhecer a trajetória de uma comunidade
que ajudou a construir a cidade. E também para quem acredita que a convivência começa pelo conhecimento.
Em 2027, o Museu completará 50 anos no dia 24 de novembro.
Uma data como essa merece mais do que uma celebração protocolar. O
cinquentenário é uma oportunidade para ampliar o alcance da instituição.
Uma história que pertence a todos
Preservar a experiência de uma comunidade não significa fechá-la
dentro de si mesma. Ao contrário. Significa oferecê-la à cidade.
A história judaica brasileira é feita de imigração, reconstrução,
trabalho, cultura, religião, literatura, arte, perdas e reinvenções. É uma
história particular, mas também é parte da experiência brasileira de receber, acolher, transformar e ser transformada. Por isso, o Museu pode ser
entendido como uma espécie de espelho. Ao olhar para a trajetória judaica
no Rio, a cidade também enxerga sua própria vocação plural.
E talvez seja esse o papel mais sofisticado de um museu de comunidade: não dizer apenas “esta é a nossa história”, mas provocar a pergunta
“o que essa história revela sobre todos nós?”
A luz que permanece
Talvez não seja por acaso que o Museu tenha começado com uma
menorá. A luz, na tradição judaica, é símbolo de continuidade. No Museu,
ela adquire também outro significado: a possibilidade de iluminar aquilo
que o tempo gostaria de deixar na sombra. Uma fotografia. Um livro. Um
passaporte. Uma carta. Uma chanukiá. Uma voz. Uma estrela amarela. Um
uniforme. Um nome. Pequenos vestígios que, juntos, recompõem uma
existência.
Cinquenta anos é tempo suficiente para que uma instituição deixe
de ser apenas um projeto de seus fundadores e se transforme em patrimônio. Mas talvez seja também o momento de lembrar que preservar não é
apenas olhar para trás. É decidir o que merece continuar sendo visto.
E, num mundo em que o esquecimento pode ser tão veloz quanto
à informação, manter uma luz acesa talvez seja uma das formas mais discretas e mais necessárias de resistência.
O aniversário será do Museu. Mas a história que ele se encarregou
de preservar é de todos nós
Serviço:
Horário de visitação: segunda
a quinta-feira, de 10 às 16
horas; sexta-feira, de 10 às 14
horas.
Visitas guiadas para escolas
devem ser agendadas pelo
telefone 2240-1598 e 2524-
6451. Entrada franca.
Rua México 90 - 1º. Andar –
Telefone: (21)2524-6451.