Julho - 2026 - Edição 313

Milton Hatoum e a consagração da memória: a Amazônia chega à ABL
Eleito para a cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras
(ABL), cujo patrono é o poeta romântico Casimiro de Abreu, Milton
Hatoum passa a integrar uma das linhagens mais simbólicas da instituição – aquela em que a memória, o lirismo e a identidade brasileira
se entrelaçam como matéria literária. Ao suceder o saudoso escritor
e jornalista Cícero Sandroni, falecido em junho de 2025, Hatoum não
apenas ocupa um lugar institucional de prestígio, mas reafirma a permanência de uma obra que há décadas se impõe como uma das mais
densas e refinadas da literatura contemporânea brasileira.
A escolha não surpreendeu o meio literário. A eleição de
Hatoum representa mais do que o reconhecimento de uma trajetória
consolidada: ela projeta, para o centro do cânone, uma escrita que
se constrói a partir das margens – geográficas, afetivas e históricas.
Nascido em Manaus, no coração da Amazônia, em 19 de agosto de
1952, o autor transformou a região em território literário universal,
distanciando-se de exotismos fáceis para construir narrativas em que
o tempo, a memória e os conflitos familiares assumem protagonismo
absoluto.
Ao longo de sua carreira, com sete romances publicados, Milton
Hatoum desenvolveu uma prosa marcada pela contenção e pela precisão, em que cada palavra parece cuidadosamente escolhida para
sustentar uma arquitetura narrativa de grande densidade emocional.
Seus romances são atravessados por temas como o exílio – não apenas
físico, mas também íntimo –, a fragmentação das relações familiares, a
herança cultural e os silêncios que atravessam gerações.
Seu romance de estreia, o premiado Relato de um Certo Oriente
(1989), publicado pela Companhia das Letras, já revelava uma voz
singular, ao articular múltiplas perspectivas narrativas em torno de
uma família de origem libanesa instalada em Manaus. A obra foi
recebida com entusiasmo pela crítica (ganhador do Prêmio Jabuti de
melhor romance) e inaugurou uma trajetória literária marcada pela
consistência estética. Obra-prima da literatura brasileira, amplamente
reconhecida por sua profundidade e complexidade, o livro se tornou
um clássico da literatura brasileira e continua a ser apreciado por sua
análise perspicaz das relações familiares e da formação da identidade
em um contexto multicultural.
Em Dois Irmãos (2000), também pela Companhia das Letras, Hatoum alcança um de seus pontos mais altos
ao narrar o drama de uma família dilacerada
pela rivalidade entre irmãos gêmeos. O romance, amplamente reconhecido como um clássico contemporâneo, também recebeu o Prêmio
Jabuti e foi posteriormente adaptado para diferentes linguagens, ampliando ainda mais a visibilidade. A narrativa não dispõe de uma cronologia linear e apresenta avanços e recuos no
tempo. Assim, as situações vão sendo reveladas
ao leitor conforme a memória do narrador. Além
de contar a história dos protagonistas, outra
questão bastante explorada é a vida social brasileira
Em Cinzas do Norte (Companhia das
Letras, 2005), igualmente vencedor do Prêmio
Jabuti (além do Oceanos – Prêmio de Literatura
em Língua Portuguesa), o autor aprofunda sua
investigação sobre as tensões políticas e afetivas
do Brasil, explorando o impacto da ditadura
militar na formação subjetiva de seus personagens. Trata-se de um romance em que o ambiente histórico não é pano de fundo, mas elemento
estruturante da narrativa.
Na sequência, Hatoum publicou Órfãos
do Eldorado (2008), uma novela que retoma
elementos míticos da Amazônia, combinando oralidade e lirismo em
uma narrativa de forte carga simbólica.
Mais recentemente, o autor se dedicou a um projeto de fôlego,
com a trilogia intitulada O Lugar Mais Sombrio. Os romances entrelaçam o endurecimento do regime da ditadura militar no Brasil com
a formação de um grupo de jovens em busca de liberdade: A Noite da
Espera (2017), Pontos de Fuga (2019) e Dança de Enganos (2025). Nesse
conjunto, Hatoum amplia sua reflexão sobre o exílio e a repressão política, deslocando parte da narrativa para fora do Brasil e aprofundando
o diálogo entre memória individual e história coletiva.
Os livros do novo acadêmico já venderam mais de 400 mil
exemplares no Brasil e foram traduzidos em dezessete países, como
Itália, Estados Unidos, França e Espanha, entre outros.
Em 2018, o amazonense recebeu o Prêmio Roger Callois (Maison
de l’Amérique Latine/PEN
Club-França). Em 2023, foi
agraciado com o título de
Doutor Honoris Causa da
Universidade Federal do
Amazonas. Ao comentar
sua eleição para a Academia
Brasileira de Letras, Hatoum
sintetizou, com a sobriedade
que marca sua obra, o sentido de sua trajetória: “Escrevo
para compreender o que
permanece e o que se perde.
A literatura é uma forma de
escutar o tempo – inclusive
aquilo que ele tenta apagar.”
A chegada do autor à
ABL também foi destacada
pela presidência da instituição como um momento de
renovação qualificada. Em
declaração oficial, o presidente da Academia Merval
Pereira afirmou “A eleição deMilton Hatoum reafirma o
compromisso da Academia
com a grande literatura brasileira. Sua obra, de alcance universal, honra a tradição da casa e projeta novas
possibilidades para o nosso
tempo.”
A presença de Hatoum na cadeira nº 6 reforça, assim, uma continuidade simbólica entre o lirismo de Casimiro de Abreu e a prosa contemporânea que investiga, com rigor e sensibilidade, os territórios da memória. Se no romantismo a evocação do passado era marcada pela idealização, em Hatoum ela se apresenta como campo de tensão – onde lembrança e esquecimento disputam sentido.
Sua literatura não oferece respostas fáceis. Ao contrário, constrói um espaço
em que o leitor é convidado
a habitar as ambiguidades
da experiência humana. Há,
em seus livros, uma recusa deliberada do excesso, uma contenção que
intensifica o impacto emocional e amplia a densidade simbólica de
cada narrativa.
Milton Hatoum pertence a uma tradição de escritores que compreendem a literatura como forma de conhecimento – não apenas
do mundo, mas daquilo que, no mundo, permanece indecifrável. Sua
obra é, nesse sentido, um exercício contínuo de escuta: dos afetos, das
ausências, das vozes que resistem ao apagamento.
Sua eleição para a Academia Brasileira de Letras consagra uma
trajetória que nunca se afastou do rigor estético nem da complexidade
temática. Ao ocupar uma cadeira historicamente associada à memória
e ao lirismo, Hatoum reafirma que a literatura brasileira contemporânea segue viva, pulsante e capaz de reinventar suas próprias tradições.
xx
Biografia
Filho de imigrantes libaneses, o amazonense cresceu entre línguas, culturas e paisagens que mais tarde se transformariam em matéria essencial de sua obra literária. Aos quinze anos, mudou-se para Brasília. Anos mais tarde, foi preso por participar de uma passeata contra o governo. Em 1970, foi morar em São Paulo, onde ingressou, em 1972, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Lá, foi perseguido por participar do movimento estudantil. Em 1978, passou a lecionar História da Arquitetura na Universidade de Taubaté, onde permaneceu até pedir o afastamento por ganhar uma bolsa de estudos para a Europa. Em 1980, viajou para a Espanha como bolsista do Instituto Iberoamericano de Cooperación. Logo depois, mudou-se para a França, onde cursou pós-graduação na Universidade de Paris III.
Carreira
Em 1984, retornou a Manaus, onde
passou a lecionar língua e Literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas.
O premiado Relato de um Certo Oriente foi
publicado em 1989, quando ele tinha 37
anos.
Em 1999, mudou-se para São Paulo,
onde iniciou o doutorado em Teoria
Literária na USP. Em 2000, desligou-se da
Universidade Federal do Amazonas e do
programa de Pós-graduação da USP para
se dedicar exclusivamente à literatura.
Hatoum foi colunista, entre outras publicações, do jornal O Globo e do jornal O Estado
de São Paulo. Vem publicando, também, em
jornais e revistas brasileiras e estrangeiras e dando cursos e palestras
em escolas, universidades e instituições.
Em 2015, Órfãos do Eldorado estreou nos cinemas, com direção de Guilherme Coelho. No mesmo ano, foi lançada a adaptação
em quadrinhos de Dois Irmãos, feita pelos irmãos Gabriel Bá e Fábio
Moon. A história em quadrinho foi publicada em vários países e foi
vencedora do prestigioso Prêmio Eisner, na categoria “Best Adaptation
from Another Medium”.
Em janeiro de 2017, Dois Irmãos estreou em formato de minissérie na TV Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho e com o ator
Cauã Reymond no papel dos irmãos gêmeos radicados em Manaus.
Em 2023, foi a vez de O Rio do Desejo, uma adaptação do conto
O Adeus ao Comandante, com direção de Sergio Machado. Já em 2024,
estreou a adaptação de Relato de um Certo Oriente para o cinema, com
a direção de Marcelo Gomes.
Em agosto de 2025, foi eleito para a Academia Brasileira de
Letras. O escritor tomou posse no dia 24 de abril de 2026. Ao ingressar
na ABL, leva consigo essa rara capacidade de fazer da literatura um
espaço de permanência. Em um mundo cada vez mais veloz, sua escrita resiste – silenciosa, densa e necessária – como quem insiste em lembrar que há histórias que só o tempo é capaz de revelar. Sua presença
na instituição reafirma uma tradição literária que valoriza a profundidade, a sensibilidade e o compromisso com a linguagem. E, assim,
entre rios de memória e palavras que resistem ao tempo, sua escrita
segue como um farol silencioso iluminando as margens da existência.