Março - 2026 - Edição 311

Diálogo imortal
Há livros que informam. Outros
que interpretam. E há aqueles, mais
raros, que conversam com o tempo –
não apenas com o passado, mas também com o futuro. Arnaldo Niskier e
Machado de Assis – Diálogos (Tinta
Negra, 2025) pertence a essa última
categoria: uma obra que estabelece uma
ponte entre dois imortais da Academia
Brasileira de Letras, separados por mais
de um século, mas unidos por afinidades profundas – intelectuais, éticas,
educacionais e humanas.
Machado de Assis é um escritor vivo porque escreveu sobre aquilo
que não envelhece: a alma humana.
Reunindo 55 textos escritos entre 1984
e 2024, selecionados a partir de citações
do “Bruxo do Cosme Velho”, o diálogo proposto pelo professor, pedagogo,
filósofo, jornalista e segundo decano
da ABL Arnaldo Niskier não se limita a revisitar Machado; ele o projeta para
adiante. Porque, como o próprio Machado ensinava, “em meio às dificuldades da vida é preciso olhar para o futuro” – não como fuga, mas como
horizonte de lucidez. Essa visão atravessa o livro e o transforma em algo vivo,
atual e necessário.
“Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de
os corrigir.” (Machado de Assis, Correspondência para Lúcio de
Mendonça, 24 de janeiro de 1872.)

Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839, em um Brasil ainda escravocrata, desigual e em formação. Autodidata, superou limitações sociais e físicas para construir uma obra que permanece contemporânea. Sua literatura nunca foi prisioneira do tempo histórico em que viveu. Pelo contrário: antecipou dilemas morais, sociais e psicológicos que ainda hoje nos interpelam.
Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado pensou a instituição como um espaço de permanência, mas também de renovação. Sua escrita, marcada por ironia e sutileza, projetou um olhar voltado para o que viria depois – carregando a certeza de que a literatura verdadeira atravessa gerações.
Arnaldo Niskier, nascido em 1935, construiu trajetória igualmente marcada pelo compromisso com o futuro. Professor, educador, gestor público, acadêmico, secretário Estadual de Ciência e Tecnologia (1968-1971) e secretário de Educação e Cultura do Rio de Janeiro (1979-1983), desde sempre compreendeu o saber como instrumento de transformação. Sua obra ensaística e reflexiva, com mais de 100 títulos lançados, incluindo o público infantil e a composição musical e poética, acompanha as mudanças do mundo, sem perder de vista os valores essenciais.
Se Machado viveu a transição do Império para a República, Niskier atravessou o século XX e entrou no XXI atento às transformações tecnológicas, culturais e educacionais que redefinem a sociedade contemporânea. Ambos entenderam que pensar o presente é, inevitavelmente, preparar o futuro.
“Estendo o olhar pelo futuro adiante, e vejo o que há de ser esta boa cidade de São Sebastião, um século mais tarde, quando o bonde for um veículo desacreditado como a gôndola, e o atual chapéu masculino uma simples reminiscência histórica.” (Machado de Assis, Correspondência para o bispo capelão-mor, 01 de janeiro de 1877.)
Pensar os desafios do mundo de ontem e de hoje pelo olhar dos dois imortais é atravessar quase um século de história brasileira com a mesma pergunta essencial: o que muda de fato quando o tempo passa? Machado, nascido no século XIX, observou um Brasil em formação, marcado por desigualdades fundacionais, por uma elite que se dizia moderna, mas agia com velhos vícios. Seu olhar é o da suspeita lúcida: ele desnuda a hipocrisia, revela a distância entre discurso e prática, e mostra que o progresso material não garante avanço moral. Para Machado, o maior desafio do mundo era – e continua sendo – o homem diante de si mesmo.
Niskier, nascido quase um século depois, escreve num Brasil atravessado pela velocidade, pela informação em excesso e pela urgência do presente. Seu olhar é o da construção: educador, gestor cultural, defensor da leitura e das instituições, ele acredita na palavra como ferramenta de permanência e transformação. Onde Machado ironiza, Niskier propõe; onde um desmonta ilusões, o outro insiste na edificação.
O diálogo entre ambos revela um paradoxo fecundo. Machado nos ensina a desconfiar das soluções fáceis e das virtudes exibidas. Niskier nos lembra que, apesar de tudo, é preciso agir, ensinar, preservar e, sobretudo, organizar a cultura.
Se o mundo de ontem lutava contra o atraso travestido de civilização, o de hoje enfrenta a pressa travestida de progresso. Entre um tempo e outro, permanece o desafio: formar consciências, sustentar valores, fazer da palavra um espaço de responsabilidade.
Assim, esses dois imortais – separados pelo tempo, unidos pela Academia – nos oferecem um duplo legado: a lucidez crítica de Machado e a esperança ativa de Niskier.
Juntos, eles provam que a literatura não apenas atravessa os séculos – ela nos convoca a responder por eles.
“Num país de memória curta, temos o dever de reavivar o nosso patrimônio cultural, não deixando que as nossas raízes históricas esmoreçam.” (Arnaldo Niskier, Infância.)

A Academia Brasileira de Letras segue como cenário simbólico desse encontro. Machado a fundou como espaço de preservação da língua e da cultura. Niskier a vive como instituição em permanente diálogo com o tempo presente. Os textos falam também do convívio, da diplomacia, das diferenças e da necessidade de renovação sem ruptura. A cultura, para ambos os imortais, é o que impede o esquecimento. É o que dá sentido à história vivida e registrada.
Nos diálogos do livro, surge uma reflexão delicada e profunda sobre o tempo. Machado, com sua sabedoria silenciosa, ensina que o futuro é uma resposta possível às adversidades da vida. Niskier amplia essa ideia ao afirmar que a marcação dos anos é “uma invenção humana, pois o tempo, em sua essência, é eternidade: não tem início nem fim” (página 155). Essa percepção atravessa as crônicas como um fio invisível: o tempo não como algo que se perde, mas como algo que se transforma. A idade não aparece como declínio, mas como acúmulo de experiência, memória e responsabilidade. O passado ilumina o presente, e o presente precisa dialogar com o futuro.
“Até que idade se pode permanecer na ativa? O certo é que não existe uma resposta precisa para essa pergunta. Veja-se o caso do escritor e pensador francês Edgar Morin. Ele está completando cem anos e segue escrevendo, dando ao mundo o resultado de uma experiência que parece não ter fim.” (Arnaldo Niskier, em Plenitude.)
Outro tema recorrente é a memória – individual e coletiva. Fala-se da idade como experiência somada. Do valor do reconhecimento em vida. Da saudade como forma de presença. Da importância de registrar experiências para que não se percam na voragem do esquecimento.
“A saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas.” (Machado de Assis, Dom Casmurro.)
Machado, que viveu com discrição e reconhecimento tardio, encontra em Niskier um interlocutor que compreende o valor do tempo vivido e da história preservada.
“Machado, na sua época, não foi unanimidade. Teve a sólida inimizade de Sílvio Romero, que o acusava de ter ‘veleidades de pensador, de filósofo, e entende que deve polvilhar os seus artefatos de humor e, às vezes, de cenas com pretensão ao horrível’.” (Arnaldo Niskier, Entre inimigos e amigos.)
Educação: tradição, renovação e responsabilidade
Outro eixo central do livro é a reflexão sobre a educação. Os acadêmicos compreendem que a escola não pode ser um espaço fossilizado. Machado, atento às transformações de seu tempo, já apontava a necessidade de formar espíritos críticos e atentos à realidade. Niskier, com a autoridade de quem viveu a educação por dentro, reforça a urgência de adaptar as escolas a metodologias mais modernas, sem perder o rigor intelectual.
“Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos. Tinha amarguras esse tempo: tinha os ralhs, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco, mas mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória.” (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.)
Nos diálogos, surge a defesa clara de que os professores precisam estar em constante atualização, não apenas técnica, mas humanística. A tecnologia deve ser aliada do processo educacional, facilitando a aprendizagem, ampliando horizontes e aproximando gerações – jamais substituindo o pensamento crítico, a ética e a sensibilidade.
“Ao longo da história, a escola foi se adaptando às novas tecnologias. Num primeiro momento, a educação formal era baseada em aulas expositivas, com o enfoque no discurso do professor. Atualmente, temos as diversas mídias educacionais. O grande desafio é saber utilizá-las de modo eficiente e permitir que contribuam com as práticas pedagógicas.” (Arnaldo Niskier, 2018.)
Tecnologia, cultura e o tempo em mutação
As crônicas reunidas no livro ampliam ainda mais esse espectro ao incorporar reflexões sobre tecnologia e cultura. Niskier observa o impacto das novas tecnologias na linguagem, no ensino, na memória e na forma como a sociedade se organiza. Machado, convocado pelas epígrafes, oferece contrapontos surpreendentemente atuais – como se suas intuições atravessassem o século. O diálogo revela que, embora os instrumentos mudem, os dilemas humanos permanecem. A tecnologia acelera o tempo, mas não substitui o pensamento. A cultura se transforma, mas continua sendo o fio que conecta gerações.
“Estudemos o espírito dos tempos.” (Machado de Assis, A Semana, 13 de novembro de 1892.)
“Tenho orgulho de afirmar que o Planetário do Rio de Janeiro, situado na Gávea, saiu da minha imaginação, em 1969, quando exercia o cargo de Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia da então Guanabara.” (Arnaldo Niskier, Boas ideias.)
Inteligência Artificial
É nesse ponto que Arnaldo Niskier amplia o diálogo para um dos grandes temas do nosso tempo: a Inteligência Artificial. Suas reflexões abordam os desafios e possibilidades dessa nova realidade, sempre com prudência e visão humanista. A tecnologia, aponta o autor, precisa servir à educação, à cultura e à memória – e não o contrário.
“Não se deve transformar uma ferramenta estatística num novo Deus. E aí entra o papel essencial da educação na formulação dos necessários princípios.” (Arnaldo Niskier, Os riscos do endeusamento da IA.)
Machado, convocado pelas citações, parece dialogar com surpreendente atualidade. Seus textos lembram que nenhuma inovação técnica resolve, por si só, os dilemas morais do homem. O avanço tecnológico exige, mais do que nunca, ética, discernimento e responsabilidade intelectual.
“Creiam-me, não há problemas insolúveis. Tudo neste mundo nasce com a sua explicação em si mesmo; a questão é catá- -la. Nem tudo se explicará desde logo, é verdade; o tempo do trabalho varia, mas haja paciência, firmeza e sagacidade, e chegar-se-á à decifração.” (Machado de Assis, A Semana, 12 de junho de 1892.)
Um encontro de gigantes
Arnaldo Niskier e Machado de Assis– Diálogos é, assim, um encontro de gigantes da inteligência brasileira. Um livro feito para ser lido com prazer, relido com atenção e guardado com reverência. Uma obra que não apenas homenageia Machado de Assis, mas o mantém em permanente conversação com o presente. Há diálogos que não se encerram; eles atravessam o século e continuam a nos ensinar a escutar.
“Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções”. (Machado de Assis, A Semana, 19 de novembro de 1893.)
Avatar
A inauguração do avatar de Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em março de 2024, representa um marco tecnológico e educacional, com o objetivo principal de aproximar a literatura clássica do público moderno, especialmente os mais jovens. O projeto utiliza inteligência artificial (IA) para criar uma experiência interativa na sede da instituição no Rio de Janeiro.
O avatar de Machado marca um gesto simbólico e profundamente contemporâneo: a tecnologia posta a serviço da memória, da educação e do pensamento crítico. Ao transformar Machado em presença digital, a ABL não o retira do passado – ao contrário, o reinsere no debate do presente, reafirmando sua condição de escritor vivo, inquietante e necessário. Esse avatar inaugura uma nova forma de diálogo. Não se trata de substituir a obra, mas de criar uma porta de entrada: leitores jovens, estudantes e curiosos podem “conversar” com Machado, provocá-lo, escutá-lo, e assim perceber que suas perguntas continuam atuais.
Nesse ponto, a inovação tecnológica encontra um precedente literário decisivo: o livro do professor Niskier, que engendrou diálogos com Machado de Assis, fazendo do tempo um território permeável. Ali, o diálogo não é virtual, mas intelectual e ético. Niskier convoca Machado a pensar o Brasil, a cultura, a educação, as instituições e o futuro – não como relíquia, mas como interlocutor exigente.
O avatar amplia, no plano tecnológico, o que o livro já realiza no plano literário: o prolongamento a conversa. Se Niskier mostrou que é possível dialogar com Machado por meio da palavra escrita, a Academia demonstra que esse diálogo pode ganhar novas linguagens, novos públicos e novas formas de mediação.
Ambos os gestos – o livro e o avatar – apontam para a mesma convicção: as questões essenciais do humano não se esgotam no tempo. Mudam os suportes, os meios, as velocidades.
Permanecem as inquietações fundamentais. Ao unir tradição e inovação, a Academia Brasileira de Letras reafirma que preservar não é congelar, mas fazer circular o pensamento. Machado, há dois anos avatar e sempre autor, continua nos olhando com ironia fina e inteligência rigorosa. E, como sempre, mais do que responder, ele nos devolve a pergunta – essa que atravessa séculos e tecnologias: o que estamos fazendo de nós mesmos?