Março - 2026 - Edição 311

Quando o Humor perde a graça

No dia 4 de janeiro de 1988, o humor gráfico brasileiro ficou marcado pela morte prematura do cartunista Henfil, que nos deixou 1 mês antes de completar 44 anos. Vítima do HIV, adquirido por transfusão de sangue, Henfil faleceu na Clínica São Vicente, Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério São João Baptista, em Botafogo, no dia seguinte. No início de 2026, como habitualmente acontece em datas semelhantes, cartunistas e admiradores preparavam postagens para as redes sociais para lembrar os 38 anos de ausência do genial cartunista mineiro, quando foram apanhados de surpresa pelas mortes de dois dos maiores caricaturistas da atualidade, que faleceram exatamente no mesmo dia:
Claudio Duarte e Nei Lima. Os dois artistas, infelizmente, entraram para uma lista de mais de 50 nomes de desenhistas, ilustradores, cartunistas e caricaturistas que, nos últimos anos, faleceram de velhice ou, como nos casos de Cláudio e Nei, prematuramente, por complicações de saúde. Da crise da pandemia para cá, artistas talentosos como Mariano, Adolar, Ota, Nani, Luscar, Aliedo, Ykenga, Ziraldo, Jaguar, Veríssimo e mais uma trupe de dezenas de cartunistas foram, quase em fila, nos deixando sem despedidas. Conforme diria o saudoso cartunista Adail – que era um espírita convicto (coincidentemente falecido em 2014, no dia 5 de fevereiro, data de nascimento de Henfil): “Foram ao encontro dos amigos, desenhar na eternidade!”

A morte, obviamente, atinge a todos os setores culturais, não é exclusividade dos desenhistas, mas confesso que, apesar de já ter ultrapassado os 63 anos, eu ainda não lido bem com perdas de colegas de traço. Especialmente no caso do Nei Lima, que era meu melhor amigo nesse malfadado meio artístico, vê-lo partir sem que sua arte verdadeiramente tenha sido reconhecida como a de um grande mestre do desenho, é mais do que doloroso. Ao rever suas artes, é quase inacreditável que ele nunca tenho sido convidado para conceder uma entrevista para um programa de televisão ou que uma de suas espetaculares caricaturas nunca tenha estampado a capa ou as páginas de alguma revista semanal de circulação nacional. Nei lima nasceu como um artista de primeira grandeza, mas viveu uma trajetória de um cartunista alternativo.
Claudio Duarte teve, digamos, mais sorte, recebeu prêmios internacionais importantes e atuou com destaque na chamada “Grande Imprensa”, mas ainda assim, poderíamos esperar dessa dita gigantesca mídia um melhor tratamento aos nossos desenhistas ou maior valorização às artes por parte de um mercado que está cada vez menor, como se diz na gíria, respirando por aparelhos e, pior, atualmente sendo contaminado com a modinha do momento, a tal inteligência artificial, absurdamente defendida até por alguns desenhistas como uma “ferramenta da modernidade”.
Vivenciando essa realidade há décadas, quando vi artistas brilhantes como Vilmar Rodrigues, Aylton Thomaz e Marguerita se despedindo em total anonimato, não consigo deixar de citar os versos de Rian, a Nair de Teffé, nossa Primeira Dama da Caricatura que, sem perder seu mordaz humor, registrou: “Se vens chorar com fingimento, junto à minha sepultura, do meu esquife bolorento, faço a tua caricatura” (Versos de Rian em entrevista concedida à Lilian Newlands, Revista Domingo, do Jornal do Brasil, em 11/09/1977).



Claudio Duarte

Nascido no dia 31 de janeiro de 1959, Claudio Duarte começou sua vitoriosa trajetória em 1984, quando publicou charges e ilustrações para o jornal Tribuna de Petrópolis. A qualidade de suas artes chamou a atenção do jornalista Carlos Heitor Cony que, em 1985, o convidou a trabalhar na Bloch Editores, quando atuou nas revistas semanais Manchete e Fatos.

Numa surpreendente caminhada de sucesso, logo em 1986, foi contratado pelo jornal O Globo, pelo qual tornou-se um dos maiores caricaturistas de sua geração, fazendo parte de uma equipe de artistas que fizeram História no jornal carioca. Ao lado de Marcelo Monteiro e Chico Caruso, Claudio marcou, próximo a desenhistas como Cida Calu, Cruz, Paulo Cavalcante e André Mello, uma das fases mais criativas do diário comandado por Roberto Marinho.

Numa época em que atuar na imprensa era obrigatoriamente presencial nas redações dos diários, Claudio tomou a decisão de transferir sua residência para outro Estado e mudou-se para Florianópolis, tornando-se possivelmente no primeiro profissional que se tem notícia a atuar no sistema home office ou, como preferirem, com trabalho remoto.

Em 2014, quando já não atuava mais no jornal O Globo, Claudio Duarte passou a colaborar com o site #Colabora (projetocolabora.com.br/), ilustrando as chamadas do portal e seus boletins informativos. Em Santa Catarina, realizou duas exposições com temática musical, “As Cores do Rock” – com caricaturas de músicos do gênero, em junho de 2017, quando exibiu 10 obras retratando as faces de Alice Cooper, Eric Clapton, Janis Joplin, Elton John, David Bowie, Keith Richards, Jimmy Hendrix, Amy Winehouse e Mick Jagger; e em julho de 2021, “Música de Preto”, uma homenagem aos músicos negros e à Mãe África, mostra inspirada na letra de Djavan, “Linha do Equador” que diz: “Gosto de filha/ música de preto/ gosto tanto dela assim”, com belas artes contrastando o preto e branco em seus ótimos desenhos. As duas exposições aconteceram no Shopping Iguatemi, em Santa Mônica, Florianópolis.

Sete vezes premiado pela Society for News Design (SND), Claudio Duarte também foi agraciado com o Prêmio Esso na categoria de artes visuais, em 2001. Em 2020, coincidentemente quando atuei no júri de seleção, no 47º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o desenhista foi o vencedor na categoria caricatura com uma espetacular visão humorística da ministra bolsonarista e atual senadora Damares Alves.

Claudio Duarte faleceu em casa, ao lado da namorada, a pianista Patrícia Bolsoni e de seu filho Francisco, o Chico Duarte, cujo nome de batismo foi uma homenagem a São Francisco de Assis, de quem Claudio era devoto.



Nei Lima

Caricaturista, ilustrador, cartunista e fotógrafo, nascido no bairro do Caxambi, próximo ao Méier, no Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro de 1954, Sidnei Lima iniciou nas artes a partir dos anos 1980, quando matriculou-se nos cursos de desenho do Senac, da Marechal Floriano, no Centro do Rio, ao frequentar as aulas do professor e cartunista Jorge Guidacci. Na mesma década, seu primeiro emprego como artista gráfico foi na Bloch Editores, inicialmente como arte-finalista em anúncios, mas com seu jeito irrequieto, conseguiu ser transferido para a revista Manchete, para finalizar as páginas do famoso magazine semanal. Na época fazia de tudo um pouco e chegou a publicar alguns cartuns eróticos na revista Ele & Ela, e histórias em quadrinhos no gibi dos Trapalhões, usando o pseudônimo “Lima”. Depois, montou a agência Artes e Artistas, em sociedade com Renato Martins, o Renats, seu parceiro mais frequente. Juntos foram agraciados no 5° Salão Carioca de Humor, da Casa de Cultura Laura Alvim, em 1992, quando Nei ganhou Menção Honrosa com uma caricatura de Chico Mendes, e Renats foi premiado na categoria Charge

Lecionou durante 10 anos no Senac, na escola de Niterói, primeiro como professor de artes, na área de desenho de propaganda e serigrafia, e depois como Assistente Técnico, na sede da instituição, em Copacabana. Em 2001, foi trabalhar no mercado editorial evangélico com o animador Wilson Pinto que, na época, estava desenvolvendo o projeto infantil Turminha da Graça, da Graça Editorial, do Missionário R. R. Soares. Ficou pouco mais de 2 anos na editora, mas deixou sua marca principalmente nas belas colorizações que fazia para as capas da revista. Lecionou também na Faculdade Pestalozzi, de Niterói, no curso de Artes Visuais, nas cadeiras de Desenho de Humor e Desenho Geométrico em Perspectiva, durante 7 anos. Por cerca de 10 anos, colaborou para a Ediouro, com criação de passatempos, ilustrações e caricaturas.

Em agosto de 2010, Nei Lima recebeu a atenção do também caricaturista André Hippertt que, na época, comandava as ações no setor de artes da empresa responsável pelo jornal O Dia. Naquele ano, estavam planejando o lançamento do jornal esportivo Marca Campeão, que cobriria a lacuna deixada pelo extinto Jornal dos Sports. Hippertt viu as caricaturas de Nei Lima na internet e resolveu lançar o artista na grande imprensa. O informativo esportivo não permaneceu no mercado por muito tempo, mas mesmo assim Nei foi mantido na empresa, e continuou desenhando com destaque para os jornais O Dia e Meia-Hora. Inquieto, Nei Lima era, como ele mesmo dizia, “viciado em desenhar” e, mesmo durante seus dias mais críticos, devido ao tratamento do câncer que combatia há alguns anos, produzia muitas caricaturas que ele postava nas redes sociais quase que diariamente. O talentoso artista faleceu em casa, durante a madrugada, sendo sepultado no cemitério de Irajá, no dia 6 de janeiro.

Saúde e Arte!