Setembro, 2026 - Edição 314

Torcedores

No Brasil, é comum que perguntemos a alguém, em uma conversa amena: “para que clube você torce?” Com efeito, o futebol é tão presente na cultura de nosso povo que naturalmente presumimos que todo cidadão brasileiro é um torcedor. Se a resposta é “não torço para time algum”, a reação é de surpresa, quando não de decepção, como se fosse uma condição anômala. Portanto, ser brasileiro e ser torcedor é, em certa medida, pleonástico. Há algum tempo, instigou-me a curiosidade o uso do termo: por que os aficionados, como dizem nossos irmãos d’além mar, entre nós são “torcedores”. O ato de torcer (do lat. torquere), que originalmente significa “fazer girar as extremidades de algo em direções opostas”, nos jogos e competições desportivas passou a ter um valor metafórico: “desejar ardentemente que alguém ou uma equipe tenha sucesso e conquiste a vitória.” Como ainda não se sabe a motivação desse sentido figurado do verbo torcer, muita criatividade e pouca veracidade se tem dito a respeito.
Já houve quem dissesse que o termo surgiu do hábito de torcer as luvas na aflição de desejar a vitória de seu time, muito comum entre as mulheres dos estádios de futebol. Outros afirmam que torcer é próprio de quem “distorce”, caso típico do torcedor que só enxerga os fatos favoravelmente a seu time de coração. Nesse sentido de “distorcer”, por sinal, em um artigo publicado em 1885 no Diário de Belém, o autor, identificado sob o pseudônimo de “O auctor dos escriptos”, acusa um outro articulista de ser um “simples torcedor de palavras e de textos de São Bernardo”. Estará aí a origem metafórica do termo?
Na verdade, a única certeza que se tem hoje é de que o ato de torcer para que algo aconteça é anterior até mesmo à chegada do futebol ao Brasil e, no plano desportivo, era muito comum nas corridas de cavalo. Em um artigo publicado no ano de 1894 em O Paiz, o jornalista Urbano Duarte, fundador da cadeira n.º 12 da Academia Brasileira de Letras, afirma que um tal Manoel Joguinho inventou a expressão “Estou torcendo” para expressar o desejo intenso de que o cavalo em que apostou vencesse o páreo. Segundo Duarte, dos hipódromos a expressão expandiu-se para outras situações sociais, como a do indivíduo que senta no último banco do bonde e “torce, torce para que a bella visinha da frente lhe lance uma olhadela...”
Enfim, se ainda não temos certeza de que o ato de torcer é realmente uma ideia do Manoel Joguinho, ao menos sabemos que em nada se refere às belas torcedoras que, apesar do calor intenso, compareciam de luvas aos estádios de futebol. Nestes nossos tempos de consulta ao Google, há efetivamente pouca etimologia e muita ficção.

Por Ricardo Cavaliere, filólogo, linguista e membro da Academia Brasileira de Letras.