Setembro, 2026 - Edição 314

Reflexões sobre a arte da escrita

A professora, acadêmica e escritora Luiza Lobo publicou o seu primeiro trabalho de ficção em 1968, trata-se do conto “De como me transformei em repasto de morcegos malvados”, na Antologia de Contistas Novos, organizada pelo escritor Moacir C. Lopes. Carioca, Luiza Lobo é hoje uma das mais sólidas vozes da literatura brasileira contemporânea. Doutora pela PUC-Rio e com dois pós-doutorados – na Universidade de Nova York e na Freie Universität de Berlim –, foi professora da Faculdade de Letras da UFRJ, da Universidade de Poitiers (2010) e conferenciou em instituições como Oxford, Sorbonne, Yale e Princeton. Ao longo de mais de cinco décadas, publicou 24 livros, sendo oito de ficção, além de mais de 200 ensaios de crítica literária e cerca de 150 resenhas em veículos como O Globo e Jornal do Brasil. Membro da Academia Brasileira de Filologia (cadeira 22), do Pen Clube do Brasil (desde 1983) e da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (desde 2019) e da Academia Carioca de Letras (desde 2025), é também tradutora de Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Edgar Allan Poe e Robert Burns, entre outros.

Dentre seus muitos trabalhos, ela nos brindou com o romance Terras Proibidas: A saga do café no vale do Paraíba do Sul (ou, simplesmente, Terras Proibidas: o Vale do Café, em edição mais recente), que mereceu o prêmio do Pen Clube do Brasil de narrativa, em 2013, e a sua sequência, intitulada Fábrica de Mentiras: do Vale do Café ao Arco do Triunfo. O primeiro livro acompanha a imigração, no século XVIII, de famílias que se fixaram na região de Vassouras, no Estado do Rio de Janeiro, que vieram a desempenhar importante papel econômico e social na região, retratando a vida de fazendeiros, barões e escravizados. No segundo romance, Luiza passeia entre os séculos XIX e XX, abordando as gerações seguintes à daqueles pioneiros, com foco na figura da milionária Eufrásia Teixeira Leite, que emigrou para a Europa em companhia de sua irmã Chiquinha para se tornar a primeira brasileira a ser reconhecida como investidora de peso em um mundo que dava os primeiros passos para a globalização do capital, tal como o conhecemos hoje.

Em seu livro mais recente, Uma Outra Dimensão, ela retoma o gênero de estreia, mas em uma vertente particular: o fantástico. Aprendi com escritores como Julio Cortázar (1914-1984) que o que mais pode interessar na literatura fantástica é, contraditoriamente, o que ela mais descortina sobre o palpável da nossa realidade. Talvez, até sobre aquilo que não pode ser dito, o interdito, como no tempo em que, assolados pelos terrores das ditaduras que se abateram sobre a América latina, escritores latino-americanos das décadas de 1960 e 1970 se refugiavam na escrita fantástica para divisar, quem sabe, uma nova realidade menos dura, mais possível ou para fazer surgir do fantástico as dores mais profundas e indizíveis da repressão. A obra de Cortázar, que em contos como “Casa Tomada” fez do insólito a porta de entrada para revelar vertigens íntimas, ressoa em Luiza Lobo como uma herança consciente e devidamente metabolizada.

Mas o fantástico de Luiza Lobo não se filia exclusivamente à tradição hispano-americana. Ela dialoga igualmente com a vertente anglo-saxônica que vai de Edgar Allan Poe – cujos contos a própria autora traduziu – até Shirley Jackson, mestra da ameaça de ambiente, como no romance de 1957, The Hauntingof Hill House, que parece ecoar nas atmosferas claustrofóbicas de alguns contos do livro. Não menos presente está a influência de Franz Kafka, cujo universo de metamorfoses e violência encontra no conto de abertura – com seu macaco Roberto e suas ressonâncias com Frankenstein, de Mary Shelley – um contraponto brasileiro, carregado de crítica social. Mais próximo de nosso contexto literário, o fantástico de Luiza Lobo também pode ser lido em diálogo com a obra de Murilo Rubião, pioneiro do gênero no Brasil, e com a dimensão surreal que perpassa contos de Clarice Lispector, como em A Maçã no Escuro. Talvez seja disso que se trate, em última instância, o fantástico de qualidade: da capacidade de revelar, através do irreal, o que chamamos de real.

Não terei espaço aqui para falar de cada conto do livro de Luiza Lobo, mas é importante chamar a atenção dos leitores para a percepção de que os personagens dessa obra são verdadeiras iluminações sobre a condição humana. O seu fantástico, muitas vezes, parece querer revelar o que há de mais real em nós: a nossa rudeza, ardilosa e escondida no misterioso teatro de nossas existências. No conto de abertura, a autora constrói um paralelo entre a aparição de um macaco e o personagem de Frankenstein. A relação não está apenas na citação constante da obra de Mary Shelley, mas também em como o macaco Roberto é tratado como se fosse um monstro. Outro tema central do conto é a banalidade da violência: trata-se de um mundo no qual todas as pessoas estão armadas e qualquer motivo é razão para a explosão coletiva. Nesse enquadramento, uma mulher trancafiada em um apartamento pelo marido ausente idealiza um macaco que lhe vem visitar à janela como amante. Oprimida por um ciumento que não conseguia sequer conceber a sua mulher dando atenção a um filho, ela dá à luz uma criança que mais se assemelhava ao macaco. O conto, ao mesmo tempo delirante e preciso, ecoa o melhor da tradição do gótico feminista: a subversão do doméstico como espaço de horror.

Vale citar, também, o conto “O Mestre Radim e Seu Falso Cadafalso”, em que um mágico que faz coisas óbvias, mas que é tido como um grande ilusionista, tem a sua percepção da magia ressignificada pelo seu encontro com um mágico das palavras, em uma amostra do poder das palavras em nossas vidas. O conto conversa, de certa forma, com o ensaio clássico de Walter Benjamin “O narrador”, no qual o filósofo alemão reflete sobre a crise da experiência e a perda da arte de narrar no mundo moderno. Luiza Lobo parece fazer o caminho inverso: restituir, pela ficção, o poder inaugural da palavra narrada. Talvez, seja disso que no fundo se trate o livro de LuizaLobo: uma grande homenagem às palavras e ao seu poder encantatório, sobretudo quando se fazem presentes em nossa vida em forma de tão boa literatura.

Com 240 páginas densas e férteis, o livro Uma Outra Dimensão confirma Luiza Lobo como uma autora capaz de transitar com desenvoltura entre o realismo histórico de seus romances e a vertigem literária de um fantástico que, ao iluminar o irreal, nos revela o que há de mais verdadeiro em nós, justamente, aquilo, que muitas vezes desejamos esconder

Por William Soares dos Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e escritor.