Setembro, 2026 - Edição 314
N’O Ateneu, a “Missa do Galo” de Sérgio e Ema
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.
Coragem para a luta.” Assim tem início a história de Sérgio contada por
Raul Pompeia, abertura que se põe entre as melhores do romance brasileiro.
Obra-prima publicada em 1888, na juventude dos 25 anos, por um escritor que se mataria em 1895, como lembra o memorialista Antonio Carlos
Villaça: “Morreria com 32 anos, mergulhado nas águas do desespero. Era o
dia de Natal. Brigara com Luís Murat. E fora demitido da direção da Biblioteca
Nacional. Estava entregue à angústia.” Ao empossar-se na cadeira da Academia
Brasileira de Letras que tem Pompeia como patrono, o crítico Afrânio Coutinho
ressalta que, para o historiador Capistrano de Abreu, era o romancista o único
dos seus contemporâneos que lhe dava a impressão de gênio.
Não por se passar em uma escola pertence O Ateneu à chamada “literatura infantojuvenil”, destinada a alunos do ensino fundamental e do ensino
médio. Domingo Gonzalez Cruz o adaptou livremente, com boa mão, para o
“público jovem”, mas o livro é para adultos, tal a riqueza humana e o refinamento literário desse autêntico romance de formação, o Bildungsroman dos
alemães. Um romance impressionista, no conceito de Afrânio Coutinho:
A sua “crônica de saudades” [subtítulo que lhe deu o autor]
obedece à técnica da recuperação do passado, que seria usada pelo
impressionista Proust em busca do tempo perdido e como um recurso para encontrar a essência da personalidade. A análise interior e a
introspecção condizem nele com a preocupação da escola quanto ao
aspecto psicológico. A “escrita artista” veicula a sua obsessão da cor, a
que subordina até a solução das metáforas e da sintaxe. Era um visual,
atraído pelos gestos, ritmo, movimento, e pelas diferenças de matizes
corados, e inclusive na caracterização dos personagens, graças à técnica da caricatura, em que se mostrou exímio.
Aos onze anos, a chegada de Sérgio ao internato do Ateneu representava
para meninos como ele, nas últimas décadas do século XIX, um marco divisor:
passava-se da proteção dos pais, do aconchego da família para a convivência
com estranhos, em um microcosmos onde se revelavam todos os sentimentos
humanos, que iam da solidariedade fraterna a interesses escusos, da elevação
espiritual à fraqueza de caráter. A exercer domínio absoluto sobre estudantes
e professores, o Dr. Aristarco Argolo de Ramos, que há trinta anos, no Rio de
Janeiro, fundara o colégio para vê-lo transformar-se em escola-modelo, a cujos
eventos esportivos e culturais compareciam ninguém menos do que a Princesa
Isabel e o marido, Conde d’Eu.
Um dos grandes personagens da literatura brasileira, Aristarco é magistralmente definido por Pompeia: tem “a obsessão da própria estátua”, e, ante
as dezenas de retratos com que aprendizes o bajulam, vê-se “aplaudido em
chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos”. Com
talento para a propaganda, faz chegar às mais remotas províncias do Brasil
publicações do seu colégio, o que lhe garante boa parte dos 300 alunos a quem
sonha oferecer um ensino moderno, sem punições e sem castigos corporais.
Trata-os, não obstante, segundo as notas do livro-caixa: com atenção e delicadeza os que pagam em dia, com má vontade manifesta os inadimplentes... Era,
“distendido em grandeza épica, o homem-sanduíche da educação nacional,
lardeado entre dois monstruosos cartazes. Às costas, o seu passado incalculável de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a réclame dos
imortais projetos”.
Retratista com mão de mestre (foi ele próprio, não por acaso, o primeiro
ilustrador do romance), Pompeia compõe admiravelmente, como se as desenhasse, as figuras dos companheiros de Sérgio:
O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio – palhaço dos outros, como dizia o
professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral
de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Negrão, de
ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto
e anguloso, incapaz de ficar sentado três minutos (...); Batista Carlos,
raça de bugre, válido, de má cara, coçando-se muito, como se o incomodasse a roupa do corpo (...). O resto, uma cambadinha indistinta,
atormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa
do fundo da sala.
Nessa composição de retratos, símiles, metáforas e atributos com a
leveza do bom humor: Nearco é “magro como uma preleção de osteologia”,
“sério como um bispo”; no pescoço de Aristarco, uma fita de dignitário “que o
enforcava de nobreza”; o menu permanente da escola, “inviolável como a letra
das Constituições”; o dormitório, um “museu de sono”, e o fagote da banda,
“único aparelho capaz de produzir artificialmente a fanhosidade colérica das
sogras”.
A percorrer toda a história, como um rio subterrâneo, a pulsão da libido, a força do desejo, o latejar do sexo, prova de que não é O Ateneu, realmente,
livro para crianças. Logo nos primeiros dias de aula, Sérgio ouve a sugestão do
veterano Rebelo:
Faça-se forte aqui; faça-se homem. Os fracos perdem-se. Isto é
uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. (...) Os gênios
aqui fazem dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo
da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao
desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a
melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro
e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por
não admitir protetores.
Entre os colegas do protagonista-narrador, “em meio à efeminação
mórbida das escolas”, o Almeidinha, com seu “rosto de menina”, e Cândido,
“com aqueles modos de mulher”. Ele próprio chega a aceitar relações homoafetivas de adolescentes que um dia serão homens:
A amizade de Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me
faz pensar que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de
constituição moral. (...) No movimento geral da existência do internato,
desvela-se caprichosamente; sabia ser, de modo inexprimível, fraternal, paternal, quase digo amante, tanta era a minudência dos seus cuidados. (...) Confusamente ocorria-me a lembrança do meu papelzinho
de namorada faz-de-conta, e eu levava a seriedade cênica ao ponto de
galanteá-lo, ocupando-me com o laço da gravata dele, com a mecha de
cabelo que lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos
indistintos para vê-lo rir (...).
Esposa de Aristarco, Ema faz-se perceber pelo menino Sérgio:
Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac,
formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco
sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o talho folgado das
pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e
que seria também a cor do jambo, se jambo fosse rigorosamente o
fruto proibido. Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de
minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto
justo sobre as formas, reluzente como pano molhado; e o cetim vivia
com ousada transparência a vida oculta da carne. Esta aparição maravilhou-me.
Parece personagem de Machado de Assis, recatada e tentadora a um só
tempo. Internado na enfermaria do colégio, a senhora o visita com desvelo que
certamente não mereceriam outros alunos. Tudo de acordo com o que manda
a boa literatura erótica, em que mais vale insinuar do que dizer, sugerir do que
mostrar:
A primeira vez que me levantei, trêmulo da fraqueza, Ema
amparou-me até a janela. (...) Sustinha-me em leve enlace, tocava-me
com o quadril em descanso. (...) O meu passado eram as lembranças do
dia anterior, um especial afago de Ema, uma atitude sedutora que se me
firmava na memória como um painel presente, as duas covinhas que eu
beijava, que ela deixava dos cotovelos no colchão premido, ao partir,
depois da última visita à noite, em que ficava como a esperar que eu
dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me
a letargia magnética do vasto olhar.
Lembra a “Missa do Galo”, conto antológico de Machado, com o jogo
de insinuações e disfarces entre o jovem Nogueira e a atraente Conceição.
Em uma história como na outra, a simbólica presença dos braços de mulher,
quando desnudá-los, sobretudo a sós com um homem, era ousadia cheia de
intenções.
Tudo acabaria, no dizer de Pompeia, bruscamente, como chegam ao
fim os maus romances:
Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela: O Ateneu ardia. (...) De vários pontos do telhado,
semelhando colunas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo;
às janelas superiores o fumo irrompia também por braços imensos (...).
Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de
rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como
brindes perdidos da saturnal da devastação.
Sobre as causas do incêndio, as especulações iam de que o ateara um
aluno rebelde à suspeita de que o próprio Aristarco, sob a cobrança de credores, cometera o crime para receber o seguro. Como em um rito de purificação,
transformou-se em cinzas o Ateneu, símbolo da educação brasileira no século
XIX também prestes a desaparecer. Em meio aos escombros, a tentação de
Ema, por culpa de quem Sérgio perdeu a sua “Missa do Galo”...