Setembro, 2026 - Edição 314
A primeira vez
Foi no primeiro ano do curso de engenharia. Nos vimos.
Nos vimos pela primeira vez. E nos vimos no dia seguinte.
Pela primeira vez. Era o que eu sentia. Ela, de poucos dizeres. Eu
querendo sentir o que ela sentia. Havia um homem que a acompanhava até a faculdade. Eu não sabia o que ela sentia. Pelo homem.
Por mim.
Os dias que se seguiram foram sempre pela primeira vez. Foi
o que ela me disse depois. Havia uma promessa entre eles. Entre o
pai dela e o dele. Havia um desejo entre nós. Por isso, era sempre
pela primeira vez.
O primeiro beijo demorou algum tempo. E ela chorou. E eu
desentendi. Foi em um bosque perto da quadra perto do teatro
perto da piscina. No fundo, eu sentia que ela sentia. Ela chorou.
O choro levou para longe meus pensamentos. Foi em um junho
distante. Quase férias.
No primeiro beijo, não falamos. Na volta, nos beijamos. E
não falamos. Foi como o primeiro beijo. E outros, também. Sempre
o primeiro. O choro deixou de estar. Eram outros tempos.
O curso prosseguiu. O da engenharia e o da vida. E o da engenharia da vida. O prometido não lhe dizia nada. Era um arranjo.
Um arranjo de flores ficava sempre na entrada da biblioteca
onde os livros descansavam a espera. Ela vivia de esperas. De que
algo acontecesse. Na biblioteca, ela disse do prometido e da sua
paciência com a espera. Ela disse do sono e do sonho. O que se
pode pedir ao sono? O sonho era o fim. Era o desvestir a vida da
promessa de outros. Era uma autorização para o desejo.
Na biblioteca nos falamos pela primeira vez. Entre livros que
guardam engrenagens e amor. O amor é uma engrenagem delicada. Na biblioteca, folheamos as nossas almas e revelamos segredos.
Era a primeira vez. E nos meses que se seguiram era sempre a primeira vez.
E, no fim do ano, nos demos um fim para o ano que ia começar. E respiramos felizes. Eu conversaria com o pai dela. Seria o
início de tudo o que antes havia sido apenas preparação.
Sempre é um início do que se preparou antes. Ou não. Há
inícios quando estamos despreparados. E no tema do amor são
comuns.
Quando no início do ano nos falamos, a felicidade que eu
vi na fala do fim do ano que havia passado já não era a mesma.
Aquele junho do primeiro beijo já estava distante uma eternidade.
E ela disse que era preciso desvestir de futuro os dias. Nos beijamos. A cada vez, a primeira vez.
Eu argumentei, lembrei planos e projetos. Desenhei em
palavras a casa dos nossos sonhos.
Ela chorou. E impediu o prosseguimento. Pensei, pensei
tanto, pensei que o tempo, antes dela, se contava de outra maneira.
E, também, a espera. E, também, o pensamento.
No junho do ano seguinte ao ano em que tudo era pela primeira vez, ela mudou de faculdade, de cidade, de vida. O tempo
demorou para recolher a dor e a surpresa de não sentir com ela o
mundo.
Foi meu primeiro amor. Se tivéssemos prosseguido, eu
pensaria nela como penso hoje? O que teria sido? Seria sempre a
primeira vez? O conquistado é tão forte quanto o desejado? Somos
a busca do que nos falta?
Naqueles dias, ela me faltou. A primeira vez que apaguei a
luz do quarto com o pensamento nela, pensei a vida inteira com
ela. A primeira vez que apaguei a luz do quarto quando a sala de
aula estava sem ela, pensei a vida inteira com ela. Porque ela voltaria. Porque ela disse amor. Porque ela disse da promessa do outro
e não dela. Porque ela prometeu dizer sempre pela primeira vez o
amor.
Escrevi cartas e cartas para ela. Para aliviar o dizer sem dizer.
Um dia, lancei fora. Pena. Gostaria de ler. Gostaria de ler, hoje, para
ler o tempo em que conheci o amor. Pela primeira vez.
Já vivi outros amores. Já desejei e realizei e já deixei de desejar. Na engenharia dos desejos, é bom desejar. Na engenharia dos
desejos, é bom deixar de desejar. É bom quando é a primeira vez.
O amor faz com que tudo seja a primeira vez. A espera. O
beijo. O toque. A palavra. A saudade.
Quando estava triste ou quando tirava férias da tristeza, era
a primeira vez. E, quando ria, também. Na primeira vez, o riso para
uma descoberta da vida. E a primeira vez que o riso vira choro é a
maior dor do mundo. Depois, a maior dor do mundo dói de novo e
é, de novo, a primeira vez.
A carência. O preenchimento da carência. A carência de
novo. E, de novo, a busca. Nunca nadamos na piscina que ficava
perto de tanta coisa. É tudo tão distante.
No dia que amanheceu hoje, é a primeira vez que penso
nela. Quanto menos futuro temos, mais passado pensamos. É a
primeira vez que penso nisso. Hoje. Aquele junho do início. Aquele
junho do fim. Uma vida inteira entre um junho e o outro.
Entre os invernos, nasceram as outras estações, e as outras
estações morreram. E, também, o inverno. Na vida longa que vivi,
os dias de calor viveram muito. E é, por isso, o riso. E porque rio, sei
que ainda estou vivo. Como se fosse tudo pela primeira vez.