Setembro, 2026 - Edição 314

A digitalização e os “queima-papéis”

Interessante é que, com relação à literatura e ao movimento literário em geral, são muitos os parâmetros para acompanharmos a sua saúde. É fato o decréscimo do número de leitores, dizem os mapas de leitura no Brasil. O que nem sempre se pode deduzir diretamente dos números de comercialização de livros, por conta do segmento de didáticos. Mas segue aquecido o mercado de feiras literárias e animado o movimento de clubes de leitura Brasil afora, um outro ângulo de observação.

Deve-se partir de uma constatação básica: ninguém é obrigado a ler livros, e nem todas as pessoas gostam de lê-los. Necessário é que se ponham ao alcance de todos as ferramentas que lhes possibilitem ler – a alfabetização – e informar a todos das vantagens da leitura, como se faz nas escolas e tem a ver com a ideia de direito à literatura trabalhada por Antônio Cândido. Como consequência, o dever de manter bibliotecas públicas acessíveis a todos. Hoje, aliás, mais facilmente, pela facilidade de manutenção de acervos on-line. O que coloca uma questão: a disponibilização de livros on-line permite o descarte dos originais digitalizados? É que parece se desenhar um futuro em que se conservará em condições ideais um exemplar de cada livro já publicado, pondo a obra acessível on-line. Neste caso, o custo da democratização no acesso seria um sistema de assinatura mensal, ou coisa parecida, tornando obsoleto o acesso gratuito aos livros da nossa biblioteca particular. Será então mera questão de contabilidade, do que pesará menos no bolso. E daí o prazer de folhear o papel das páginas, o fetiche por uma encadernação exótica ou o interesse particular na conservação de um determinado título não passarão de excentricidades de saudosistas de um tempo fadado ao desaparecimento.

Mas há outra possibilidade nisso de digitalização de livros, e os fins agora seriam outros. Circulam pela internet notícias sobre um suposto movimento de aquisição em massa de obras antigas para treinamento de inteligência artificial. Ora, ocorrendo em massa a aquisição, alcançada a finalidade do comprador, o destino dos livros será o descarte. Assim, ao cenário (ainda desconfortável atualmente) da conservação da memória literária deixando-a, em tese, ao alcance de todos (mas sujeita a regulamentação pela organização que detém os dados) opõe-se um outro, mais apocalíptico, de absorção pura e simples de todo o conhecimento para sua futura disponibilização “processada” por meio da inteligência artificial.

Escrevendo há quarenta anos, Renato Pacheco, magistrado e escritor capixaba, publicou um pequeno conto a que deu o título A seita dos queima- -papéis. No mundo emergido “depois da terceira revolução mundial”, os biblios, como se chamavam, clamavam pela destruição total dos registros, aos gritos de “queimemos todos os papéis...”. A tese era a de que “a nova civilização não precisa de registros, livros de contabilidade, cartórios, processos escritos, diplomas” pois “você é quem é, sua palavra vale o que vale”. A destruição incluiria quadros, celuloide, todos os suportes. O conto pode ser lido no livro Vinte Anos sem Renato Pacheco, disponível on-line (!) no site do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo: www.ihges.org.br. E faz pensar: de todos os futuros possíveis nesse assunto, o desfecho sugerido por Pacheco representaria um reinício? É a literatura sugerindo uma resposta, pelo que vale a (rápida) leitura.

Por Getúlio Marcos Pereira Neves é membro do PEN Clube do Brasil.