Julho, 2026 - Edição 313
Gregório de Matos e Thomaz Pinto Brandão
Há meses faleceu em São Paulo o professor João Adolfo Hansen, professor emérito da Universidade de São Paulo, que entre outras contribuições à
inteligência brasileira reinterpretou a obra de Gregório de Matos Guerra, poeta
seiscentista luso-brasileiro de alcunha o “Boca do inferno”. Hansen interpretou
a poesia de Gregório de Matos sem o recurso a anacronismos que a seu ver
embaçavam a compreensão da obra, repleta de convenções literárias a exigirem análise, digamos, menos literal.
A Salvador seiscentista onde nasceu Gregório de Matos era à época residência dos Vice-reis.
Habitada pelas mais diversas personagens da complexa
estrutura social contemporânea, não foram poucos os conterrâneos dignos de
excitarem a pena do poeta, como se constata de uma simples consulta à sua
vasta obra – uma parte dela organizada e anotada por João Adolfo Hansen.
Mas numa cidade pujante como a Salvador dos seiscentos seria
Gregório de Matos o único a praticar o versejar satírico? Consultando há algum
tempo, e por conta da minha pesquisa sobre o período, o bom As amantes de
D. João V: Estudos históricos, de Alberto Pimentel, edição de 1892 da Academia
Real das Sciencias, deparo-me com um versejador contemporâneo chamado
Thomaz Pinto Brandão, conhecido entre nós justamente por sua amizade comGregório de Matos, a quem Brandão conhecera durante o período em que o
futuro “Boca do inferno” frequentava a Universidade de Coimbra. Levantou
Alberto Pimentel ter sido Gregório de Matos quem, perdendo prestígio na corte
de Dom Pedro II e resolvendo voltar ao Brasil, convenceu o amigo a vir tentar
a sorte por aqui.
Thomaz Pinto Brandão teve vida aventuresca e atribulada, conforme
narra no seu Vida e Morte de Thomaz Pinto Brandão, Escrita por Ele Mesmo
semivivo: preso na Bahia por jogo, foi remetido ao Rio de Janeiro, onde, envolvendo-se em disputa amorosa com o valido do governador, acabou preso e
enviado para Angola. Lá, estabelecido e feito capitão de infantaria, enamorou-
-se de uma sobrinha da famosa rainha Ginga, deixando-lhe um filho ao retornar para o Rio de Janeiro. Aqui recebeu mercê do cargo de escrivão de defuntos
e ausentes, que por lhe gerar pouca renda abandonou logo depois de se casar,
retornando a Lisboa, com a esposa e a sogra, já em 1703.
A exemplo do amigo Gregório de Matos, cujos problemas pessoais são
conhecidos, padeceria Brandão nas mãos da sogra, que lhe recriminava fortemente o jeito perdulário que o levaria à ruína. Da sogra, que posteriormente
lhe moveria um processo, “Diz Thomaz Pinto Brandão/ bem conhecido na
praça/ que é tal a sua desgraça/ que tem por sogra um dragão” (p. 114). A má
sorte do poeta levou a que a certa altura sobrevivesse dos favores recebidos na
corte de Dom João V, admirador confesso da sua verve satírica.
Da afinidade entre os poetas, diz Alberto Pimentel que “a identidade
de veia sarcástica” e a “homogeneidade de destinos” “associaram” os dois,
que, cada um do seu jeito, “tanto riram e tanto soffreram” (p. 107-108). De
Brandão ficou também o volume de versos O Pinto Renascido Empenado e
Desempenado – Primeiro Voo, de 1732. À vista dessa afinidade, o cotejo da
obra de ambos poderia enriquecer o trabalho de interpretação de Gregório de
Matos, tão bem renovado pelo professor João Adolfo Hansen.