Julho, 2026 - Edição 313
No centenário de Carlos Heitor Cony
Em 2026, comemora-se o centenário do nascimento de Carlos Heitor Cony.
Jornalista consagrado, autor de romances
famosos, era também, um grande frasista,
irreverente e provocador: “Deixei de acreditar em Deus no dia em que vi o Brasil perder
a Copa do Mundo no Maracanã”; “Eu jamais
sou otimista; otimismo é má informação”;
“Nem todos têm a lucidez dos suicidas”;
“Sozinho, Roberto Campos é muito mais
inteligente do que quase toda a esquerda
brasileira”; “Quando se trata de política,
o raio costuma cair sempre nos mesmos
lugares”; “A coragem é a mais perigosa das
virtudes”; “Respeito o ódio, aceito o amor,
mas desprezo o medo”.
Quando tive a satisfação de conhecê-lo, há 31 anos, publiquei o
artigo que agora reproduzo, em homenagem ao escritor que engrandeceu o nosso jornalismo e fez maior a literatura brasileira.
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Pelas páginas de Quase Memória (São Paulo: Companhia das
Letras, 1995), Carlos Heitor Cony regressa à literatura brasileira em
grande forma. O livro é admirável, da ideia que o originou à beleza
do estilo, do bom humor que o enriquece à emoção que o permeia.
Desde 1974, com o lançamento de Pilatos, o romancista se vinha deixando silenciar pelo jornalista, pelo redator da Manchete, pelo editor
da Bloch, pelo articulista da Folha de S. Paulo. Até que lhe ocorreu, um
dia, escrever sobre o pai, Ernesto Cony Filho, que parece já nascera
personagem de novela, tantas e tão pitorescas são as histórias que
protagonizou. Ficcionista experimentado, percebeu que não compunha propriamente um romance, como esclarece na “Teoria geral do
quase”, com que se dirige ao leitor: “Falta-lhe, entre outras coisas, a
linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e,
até mesmo, a ficção. Prefiro classificá-lo como ‘quase-romance’ – que
de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios
nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios.” Ao contrário do que
representam para autores menos brilhantes, a indefinição da linguagem e a indeterminação do gênero só engrandecem o texto de Quase
Memória, como liberdades que se ofereceram ao romancista para que
pudesse construí-lo.
Ernesto Cony Filho era mesmo uma grande figura, a alma plena
de sabedoria, o coração cheio de esperança, a cabeça tomada pelas
ideias mais excêntricas. “Amanhã farei grandes coisas!”, era a disposição com que esperava o dia seguinte. Sem nenhuma surpresa, viu cruzar a noite, para morrer justo no seu quintal, o enorme balão que soltara doze dias antes: “As coisas tendem a voltar ao lugar de origem”, foi
a explicação que deu ao pequeno Carlos Heitor, impressionado com
a assombrosa coincidência. Ao saber dos milagres do “taumaturgo de
Urucânia”, no interior de Minas Gerais, organizou um comboio cujos
vagões partiram do Rio de Janeiro apinhados de doentes, na ilusão da
cura. Episódio tão hilariante quanto esse só o vivido pela dupla Paulo
Campos e “Barão”, picaretas que, para conseguir o dinheiro com que
sustentar um jornaleco, convencem o governador mineiro a lançar-se
candidato contra Júlio Prestes e Getúlio Vargas, nas eleições que acabariam por deflagrar a Revolução de 1930.
Essas, as histórias que Carlos Heitor Cony guardou do seu velho
pai, há muito adormecidas na lembrança. Até a tarde em que, depois
do almoço de costume no Hotel Novo Mundo, no bairro carioca do
Flamengo, o porteiro lhe entrega o pacote trazido por um hóspede. O
narrador não esconde a emoção: a letra do sobrescrito, a espécie de
laçada no barbante são do pai, só ele as faria com aquela minúcia. E
recentemente, vê-se pelo frescor da tinta e pelo brilho do papel. Mas
como, se Ernesto Cony Filho morrera havia dez anos?! O mistério desafiará o romancista e prenderá os leitores até o último instante – quando
o filho abre o pacote e desvenda o segredo... ou deixa-o fechado para
sempre, guardando na escuridão da incerteza a presença viva do pai.
A passeio no Rio, quis dizer pessoalmente a Cony da emoção que
me dera o Quase Memória. Encontramo-nos no edifício da Manchete,
onde ocupa o escritório que foi do ex-presidente Juscelino Kubitschek.
A observação de que trouxera de volta não apenas o próprio pai, mas,
de certa maneira, o de cada leitor é a da maioria dos que o procuram:
— Quando pensei em escrever o livro, não pretendia
fazer memória nem ficção. Daí a maneira
vaga como o defini: quase-memória, quase-romance... O que eu queria, na verdade,
era apenas falar sobre o meu pai, dizer o
que sinto sobre ele, o que me ficou dele –
fazer-lhe justiça, enfim. Parece que, com
essa confissão extremamente pessoal, acabei traduzindo o sentimento de muitas pessoas. Quase todas declaram exatamente o
que você acaba de dizer: que, ao lembrar
a figura do meu pai, acabei resgatando,
de alguma forma, a lembrança de todos
os pais. Curioso é que, antigamente, meu
público leitor era formado preferencialmente por mulheres, acho que os meus romances interessavam mais a elas... Com o Quase
Memória, está acontecendo exatamente o contrário: são os
homens que se dizem emocionados com o que escrevi.
O melhor de Um Brasileiro em Berlim é a comovente homenagem que João Ubaldo Ribeiro presta ao pai, como se houvesse hoje,
entre os nossos romancistas, um “movimento pela reabilitação paterna”, que teria certamente o apoio de Cony:
— Acho isso interessante porque o pai sempre levou uma
grande desvantagem com relação à mãe, no conceito dos filhos
e da própria sociedade. Se alguém ofender moralmente sua
mãe, você pode até matá-lo e arguir a honra para se defender
perante a Justiça; se a agressão for contra o pai, não. Fico satisfeito por contribuir, com o sucesso do meu livro, para a reabilitação dos nossos pais...
Disputando com O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, e
Benjamin, de Chico Buarque, Quase Memória foi um dos lançamentos
que mais venderam em 1995, provocando gestos que surpreenderam
o autor:
— Todo mundo sabe que não gosto do Antônio Carlos
Magalhães, por tudo que representa de ruim na política brasileira. Pois bem: um dia desses, critiquei-o numa crônica e ele
me passou um fax espinafrando de alto a baixo. No finalzinho,
porém, disse que leu o livro e adorou, fez altos elogios à minha
obra. Dias depois, encontramo-nos em uma solenidade na
Bahia: ele veio me cumprimentar e pediu que lhe autografasse
um exemplar para o filho, deputado Luís Eduardo Magalhães.
Eu fiquei pensando: “O Luís Eduardo deve tudo ao pai, sua carreira política nem teria começado sem a bênção paterna. Ora,
o senador quer que ele leia o livro talvez porque seja aquela
a maneira como gostaria de ser lembrado no futuro. Se quem
merece toda a gratidão do filho pode não estar satisfeito com a
imagem que tem, imagine como não devem sentir-se os outros,
que fizeram muito menos pelos filhos...”.
Despeço-me de Carlos Heitor Cony elogiando-lhe a boa forma
com que chega aos 70 anos:
— Você me acha bem fisicamente, mas isso é só aparência.
Estou com um problema de saúde, tanto que, depois do Natal,
irei aos Estados Unidos fazer uns exames. Ficarei no Mount Sinai
Medical Center, o mesmo onde morreram Tom Jobim, Pedro
Collor e Jacqueline Onassis. Espero não ser o próximo... Mas a
ideia da morte, na verdade, não me angustia: se todos nós vamos
morrer, eu, pelo menos, já tenho uma causa mortis...
Carlos Heitor Cony morreria 23 anos depois, em 2018, a poucos
meses de completar 92 anos.