Julho, 2026 - Edição 313

Eu chorei rios: arte dos povos originários da América

Oitavo projeto expositivo realizado pela Fundação Getúlio Vargas Arte desde a sua inauguração, em 2023, a mostra Eu chorei rios: arte dos povos originários da América merece ser visitado. Com curadoria de Glicéria Tupinambá e Paulo Herkenhoff, a exposição inédita reúne artistas de diferentes territórios da América Latina, apresentando um conjunto heterogêneo de produções. Com nomes como Ailton Krenak, Claudia Andujar, Daiara Tukano, Denilson Baniwa, Djanira, Gustavo Caboco, Jaider Esbell, Lastenia Canayo, Keyla Sobral, Lygia Pape, Mestre Valentim e Xadalu Tupã Jekupé, a mostra propõe uma leitura ampliada da arte latino- -americana, a partir de modos de existência e repertórios estéticos diversos. A noção de território atravessa o projeto não apenas como tema: pinturas, fotografias, esculturas, objetos, mantos, instalações e artefatos históricos compõem um panorama plural de linguagens e cosmologias, reunindo criações de diversos povos originários, configurando a exposição como um espaço de demarcação simbólica, em que a arte atua como prática de inscrição e reivindicação.

Obras contemporâneas convivem com peças históricas, artefatos, registros fotográficos e produções audiovisuais, evidenciando tanto a persistência quanto os conflitos em torno das imagens indígenas. A mostra se expande para além do espaço expositivo, ocupando a fachada e a esplanada da FGV, com intervenções que ampliam a experiência do público. Entre elas, a pintura de Xadalu Tupã Jekupé, um jardim circular concebido especialmente para a ocasião e a presença de obras que ativam o espaço externo como campo sensorial. A instalação de Jaider Esbell atua como um gesto de acolhimento, introduzindo o visitante em uma dimensão cosmológica da exposição.

“É uma imersão. O corpo entra nesse espaço e começa a experimentar essas diferentes camadas”, observa a curadora.

Também presente na mostra como artista, Glicéria Tupinambá desenvolve um dos eixos centrais a partir do Manto Tupinambá, apresentado tanto como obra quanto em uma ação na abertura. Distanciando-se da ideia de performance como linguagem formal, ela propõe uma ativação que convida o público à experiência.

“O que eu faço é convidar as pessoas a sentirem. Rezar não dói, cantar não dói, dançar não dói. É uma forma de tirar o manto da vitrine e colocá-lo em movimento no corpo e no mundo.” Ao deslocar o manto de sua condição museológica, o gesto reinsere essa forma em um circuito vivo, abrindo novas possibilidades de percepção e relação. “Eu chorei rios” contribui para reconfigurar os próprios termos de visibilidade das produções indígenas. A FGV Arte reafirma seu compromisso com a formação de público e a democratização do acesso à arte e à cultura por meio de um programa educativo e acadêmico estruturado. Ao longo da exposição, a instituição receberá mais de 100 escolas e cerca de 5 mil estudantes da rede pública de ensino em visitas mediadas, promovendo experiências qualificadas de aproximação com a arte.

Eu chorei rios: arte dos povos originários da América ficará em cartaz até o dia 20 de setembro.
O endereço da FGV Arte é Praia de Botafogo, nº 186, Botafogo.
Horários de funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 20h. Sábados e domingos, das 10h às 18h.
A entrada é gratuita.

Por Manoela Ferrari.