Julho, 2026 - Edição 313
Edgar Morin, o adeus ao grande humanista
Como é fácil falar sobre um escritor como o francês Edgar
Morin! Um homem de mil qualidades. Não bastasse a formação acadêmica múltipla de historiador, geógrafo, advogado, filósofo, sociólogo, combateu fortemente o nazismo na França ocupada durante
a Segunda Guerra Mundial. Sua obra diversa e extensa atesta o seu
humanismo e é referência mundial na educação. Sem contar a lucidez nos mais de cem anos de vida (1921-2026), a doçura de pessoa
que é esse ser superior, de bem com a vida, lição para todos nós de
saber e temperança, de que andamos tão necessitados.
Para melhor mostrar a
formação e o caráter de Morin,
escolhemos Meus Filósofos (Porto
Alegre: Sulina, 2020), obra fundamental para o conhecimento de
sua trajetória intelectual, a partir
das leituras que lhe influenciaram o pensamento. De Heráclito
aos surrealistas do século XX,
ele leu tudo e falou sobre todos:
Buda, Jesus Cristo, Montaigne,
Descartes, Pascal, Espinoza,
Rousseau, Hegel, Marx, Heidegger
e muitos, muitos outros contemporâneos. Adentrou ainda as searas da psicanálise de Freud e da
música de Beethoven. Sem faltar
Proust, é claro. E Dostoiévski, paixão desde a juventude.
O primeiro da lista é o pensador grego Heráclito, que disse
que nenhum homem bebe água
duas vezes no mesmo rio, já que
tudo flui, muda, e deixou a lição
definitiva da verdade dos opostos. Morin tornou-se heraclitiano,
pois entendeu que nada explica
melhor a natureza humana do que
o contraste, o contraditório: “O Bem e o Mal são uma coisa só”, pois
têm fonte comum, “O caminho da ascensão e o caminho da queda
são o mesmo”, “Acordados, eles dormem”, pois somos 90% comandados por coisas das quais não somos conscientes, antecipando Freud.
Verdades contraditórias que nos protegem da visão redutora, lateral e
maniqueísta, diz ele. Comprovou essa ideia no Yin e Yang dos sábios
chineses do Tao que, diferentemente do mundo ocidental, aceitaram
a união dos contrários, o quente e o frio, o masculino e o feminino, a
escuridão e a luz.
Com o budismo aprendeu que o mundo é “Samsara”, mundo
de aparências em que tudo o que percebemos é ilusão dos nossos
sentidos. Morin, no entanto, reflete e diz que essa ilusão é nossa
única realidade. Buda, cujo pensamento se opõe ao de Sócrates e de
Jesus, cada vez influencia mais o Ocidente com sua experiência subjetiva de busca da paz interior e por responder “ao grande mal-estar
de nossa civilização”. Assim, considera-se “neobudista” por partilhar
o sentimento de Sidarta pela compaixão e sofrimento, que se estende
ao mundo animal. Todos os sofrimentos, não apenas o humano.
Mesmo não se reconhecendo cristão, Morin prefere a mensagem nova – de um Jesus totalmente humano que oferece o perdão
ao pecador, perdão que é superior à justiça; ele, que tem da religião
o sentimento do “que religa”, sente-se, porém, ligado a todos os
homens perdidos na “aventura desconhecida, incerta e misteriosa”
da vida. Como Spinoza, que reconduziu a mensagem bíblica a um
conteúdo ético, odiou o ódio, desprezou o desprezo, rejeitou tudo o
que rejeita; identificou-se com a sua tolerância, seu horror à violência e perseguições. Com Montaigne, cuja leitura o acompanha desdeos quinze anos, aprendeu as contradições essenciais da humanidade
e a indagar a si mesmo: “Que sei eu?”, “Quem sou eu?”, numa autocrítica racional. Montaigne encantou-o também pelo humanismo e
compaixão pelos oprimidos, antecipando Lévi-Strauss ao reconhecer o valor de outras civilizações, como a dos gentios e ameríndios,
denunciando as barbáries dos conquistadores europeus. E admirou-
-o pelo profundo pedagogo que foi.
Morin prefere Pascal a Descartes. Vê-se muito próximo ao
autor dos Pensamentos, incita-o a meditações infinitas. Sobre essa
obra inacabada, diz: “Algumas obras são grandiosas porque não
foram terminadas”, bela reflexão que, numa pirueta de raciocínio,
lembra-nos o que disse Guimarães Rosa sobre o homem em Grande
Sertão: Veredas: “(...) o mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. (...) ”. Assim também obras
como Almas Mortas, de Gógol, e Bouvard e Pécuchet, de Flaubert,
ficaram inacabadas e se tornaram grandiosas e imortais.
Numa das leituras mais brilhantes, Morin analisa a obra de
Marx e separa o joio do trigo: conserva o grande pensador complexo, laico e politizado, e refuta o
Marx que não compreendeu que,
ao combater os mitos em nome da
racionalidade, perdeu-se no mito
da luta de classes e da sociedade
sem classes, ou seja, substituiu um
mito por outro. O que chama a
atenção nessa crítica, bem como
na de outros pensadores de sua formação, é a serenidade do posicionamento, a coerência e profundidade da argumentação, o respeito e
admiração por todos, mesmo quando há divergência de opinião. Mais
um exemplo para nós nos tempos
bicudos de hoje.
Mas o melhor desse livro
vem a seguir: Dostoiévski e Proust.
Dostoiévski é para Morin “o mais
revelador, o mais presente, o mais
íntimo”, aquele que foi o seu primeiro despertar para a Filosofia,
para o sentimento de compaixão
pelo sofrimento, que o fez ver que
a razão e a loucura estão intimamente associadas, que o ajudou
“a compreender que podemos ser
possuídos pelos mitos, pelas ideias,
pelas ideologias, bem como por seres reais, por demônios.” Foi com
ele que pôde conhecer o insondável mistério dos seres humanos e da
vida, a virtude dos excluídos e dos malditos, a possibilidade sempre
aberta do resgate e da redenção, como afirmou, com a sensibilidade dos homens bons e justos. E Proust encantou-o com a sua frase
longa que revela as possibilidades da linguagem com desdobramentos, simultaneidades, desordenamentos, sem perder jamais o fio
da meada, com a extrema precisão da palavra, assim como revela
compreensão à complexidade humana. Pois é disso que trata Meus
Filósofos: da contradição que é também complementaridade, marca
da natureza do homem.
Sem adentrar a análise das escolas modernas de filosofia,
seguimos até Beethoven, cuja Sinfonia Pastoral levou-o a regiões
insondáveis e o fez assistir ao “estouro do Big Bang com um martelamento gigantesco, uma formidável criação do mundo. Era a gênese,
o nascimento do cosmo em meio ao caos, com tudo o que isso comporta de energia colossal, e que lança, em seguida a aventura da vida
com alternância de ternura, doçura, violência, loucura, recomeço.
Pela primeira e única vez em minha vida, meus cabelos se eriçaram”.
Ele tinha quinze anos. E numa admiração que seguiria por toda a
vida, viu na música do gênio o sofrimento, o infortúnio e também a
alegria avassaladora. Viu também ética. Dele, guardou a frase: “Eu me
inclino apenas diante da bondade.”
Assim, esse livro rico, despretensioso, nos ensina muito, nos
fala das experiências de leitura desse humanista que nasceu há cem
anos, em 1921, e que sempre se encantou “diante de uma flor, de um
pássaro, de um pôr do sol, diante do mar, de uma paisagem, no amor,
na amizade, na fraternidade”.