Julho, 2026 - Edição 313

Análise de trágico-cômico em uma narrativa de Bernadette Lyra

Maria Bernadette Cunha de Lyra, uma artista da palavra, que enriquece a literatura capixaba, com obras ficcionais de contos, crônicas e romances, nasceu no município de Conceição da Barra, lugar que será palco de muitas de suas narrativas, é professora Universitária, nas áreas de Literatura e Cinema, Licenciada em Letras pela UFES, doutora em Artes/Cinema, ECA/USP, Pósdoutora pela Universidade René Descartes, Sorbonne – França, 1989.

Em nossa análise, nos apoiaremos no conto de Bernadette “O jardim das delícias”, da obra O Jardim das Delícias (Vitória: Ufes- FCAA, 1982), com apoio das estéticas do século XX: O expressionismo – movimento artístico europeu, surgido na Alemanha, que dá valor a uma expressão inconsciente, subjetiva, do artista, em vez de uma reprodução fiel da realidade, numa procura de transmitir intensos sentimentos, como medo, egoísmo, raiva, solidão, com deformações e exageros dramáticos, na utilização de técnicas variadas como a pintura de ação, e o “esperpéntico”1 – original estética que se encontram em algumas obras do escritor espanhol Don Ramón de Valle Inclán, poeta, dramaturgo e romancista espanhol, natural da Galícia, definida, em falas de personagens, em geral criados no gênero dramático, como “superação da dor e do riso”, ou, uma realidade subjetiva e forma dramática, ao mesmo tempo em que surge uma visão patética do mundo, em geral. Nessa estética apresenta-se o cenário das ações na cidade.

Com o recurso da técnica da alusão e da alegoria oferece a crítica ao poder, com um tom humorístico trágico e caricaturesco, como os delírios de Bueghel, e apresentam-se os atos e paixões dos personagens com manifestações exteriores. A alusão e a alegoria, junto com a técnica de planos cinematográficos e pictóricos para efeito de desumanização são recursos estéticos que se podem encontrar na prosa da escritora capixaba Bernadette Lyra, em contos de suas obras como O Jardim das Delícias, na qual, no conto do mesmo nome, apontam-se aproximações das estéticas do expressionismo ou da técnica “esperpéntica” de Valle Inclán, nas situações trágico-cômicas e na apresentação de verdadeiros personagens fantoches humanos. O espaço da ação é num jardim. Nele, ao entardecer, estão alguns velhos. Ao todo sete. Detrás das figuras de indivíduos, aparentemente dignos, se esconde sua realidade espiritual. O título insinua uma realidade que se mostrará trágica. Só no final do conto, no último parágrafo, uma personagem jovem, de moto, um “anjo negro de calça Lee suada” de “asas como veludo e o ziper da jaqueta brilhante mais que a luz de mercúrio”, se apresenta de repente. Sua figura e ações contrastam com as dos sete personagens. Ela representa a tomada de consciência de uma frágil e pobre sociedade ante a denúncia da juventude. Movimenta-se nummundo alegórico. Salta de sua moto e estraçalha a superficial vida dos velhinhos: “deuses de plástico.”

No conto, desde os primeiros parágrafos, tudo é ironia: título, personagem, paisagem, ação e tempo: Sete velhinhos sentados na doçura da tarde. São dois homens e cinco mulheres. A primeira à direita foi deixada ali desde as primeiras horas do dia recoberta por imensa barraca de praia. Desde então sua ocupação predileta tem sido balançar as pontas dos dedos dos pés nas chinelas. Além disso, apenas cochila. Quando um fio de baba desliza sobre a gola de seu peignoir, mesmo adormecida, estreme. Gira o branco do olho e imagina: oh oh, será que teremos morcegos aqui nesta noite?

Perto desta, duas outras velhinhas tricotam. A de vestido roxo vez em quando descansa a agulha e se ocupa em lustrar moedinhas nas coxas. Ela esfrega, até que as moedinhas se transformam em rodelas brilhantes. Então, mete as moedinhas uma a uma no decote, entre os seios. Enquanto a outra, a criatura do xale amarelo, finge que enrola fios de lã entre os dedos. Na verdade, por trás das bifocais, tem os olhos de ágata dissolvidos no gelo. Estão duros, esses olhos cobiçosos e duros como pedras saídas de um congelador.

Fios de peixes atravessam os ladrilos do tanque
Alguns flamboyants comem o sol
(...)



O número dos personagens: sete, tem uma significação cabalística, e é o número dos pecados capitais, ponto esclarecedor para a interpretação dessa realidade parodiada. Nesse jardim, nada é gentil, agradável (deliciosamente florido, perfumado e encantador). Há crueldade, amargura, onde, à primeira vista, parece haver ternura. Nem o diminutivo “velhinho” dado aos freqüentadores do jardim é carinhoso, nem são belas as inferências que se tem de suas almas.

O tempo, sugestivamente belo, é uma metáfora grotesca. O ocaso do dia, contraste de luz e sombra, momento em que a luz e a treva se encontram, representa o ocaso de vida, declínio da vida com o envelhecimento. Os personagens, desnominados, são seres em conflitos e estão onde deveria haver beleza, perfeição, tranquilidade. São apagadas criaturas, tragicômicas, indicadas por ordinais. São seres alegóricos, atormentados, que adoram esse jardim.

Na aparente tranquilidade desse jardim com o sol suave, os rubros flamboyants, as parasitas rosadas, pomba branca, camaleão curioso, peixes finos e jardim delicioso, está a imagem grotesca, ridícula, de vícios: a preguiça, a primeira a apresentar-se. Segue-se a ela: gula, avareza, inveja, soberba, luxúria e ira, assim todos os sete pecados capitais.

Num âmbito mais geral, a visão grotesca dos velhinhos de decadente moral e, fisicamente, de aspecto de seres fantoches, “esperpénticos”, que a narradora habilmente maneja, se estende para toda a humanidade.

A sátira ao jardim torna-o um aparente inferno dantesco, semelhante a Quevedo nos Sonhos. A autora obriga o leitor a contemplar uma cruel imagem de corrupção humana, numa paisagem da podridão moral humana. Homens e paisagens não se harmonizam na realidade ficcional nem na disposição gráfica, análoga à estética expressionista. Essa técnica da narrativa de O Jardim das Delícias, de Bernadette Lyra, faz-nos, também, aproximá-la à cuidadosa de Valle Inclán, como por exemplo na obra Tirano Bandera (1916), em que a implicação semântica do relato destoa do título da obra, semelhantemente ao que ocorre em O Jardim das Delícias, pois em ambos existem nos títulos promessas de um texto de beleza, harmonia, prazer e, ao contrário, é apresentado ao leitor um ambiente de negatividade, de podridão moral e decadência física, na apresentação dos parágrafos, e dos períodos curtos e nas descrições plásticas como o de um roteiro cinematográfico, e, também, pelas imagens apresentadas para apresentar a degradação humana, essência da narrativa, numa rude paródia da vida, de um mundo em crise donde se misturam história e ficção, realismo simbolismo, compromisso e distanciamento.

Obs: 1 A estética do esperpento espanhol tem raiz nas deformações do Quixote, de Cervantes, na sátira Diabo coxinho, de Guebara, na grotesca procissão humana do sonho do Juízo final, de Quevedo, na pintura negra de Goya, no culto ao terrível e monstruoso, enfim, na literatura barroca espanhola

Por Ester Abreu Vieira de Oliveira, professora Emérita da UFES, Presidente de Honra da AEL. Pertence ao IHGES, a AFESL, e à ALB, entre outras instituições culturais.