Julho, 2026 - Edição 313

O (Tempo), de Waltercio Caldas, na Casa Roberto Marinho

Até o final de setembro, o público terá a oportunidade de visitar a exposição O (Tempo), de Waltercio Caldas, na Casa Roberto Marinho. Reunindo cerca de 100 obras, produzidas entre 1967 e 2025 por um dos nomes mais influentes da arte contemporânea brasileira, a mostra, projetada pelo próprio artista, ocupa os espaços da instituição no Cosme Velho, Zona Sul do Rio, com esculturas, pinturas, desenhos, livros e ambientes que abrangem essas seis décadas de produção, revelando a consistência de uma pesquisa rigorosa em torno das tensões entre forma, espaço e percepção.

A organização das peças no espaço, as distâncias entre elas e o percurso do visitante integram o processo de construção da experiência. Quarto Azul (2007) abre o percurso expositivo. Na primeira sala, o ambiente envolve o visitante em um campo de cor atravessado por linhas que reorganizam a percepção do espaço.

A partir dessa entrada, trabalhos de diferentes momentos da trajetória de Waltercio passam a conviver em novas articulações, produzindo deslocamentos contínuos do olhar. Ao reunir peças concebidas em momentos variados, o (Tempo) aproxima criações históricas e produções recentes, revelando a continuidade de um pensamento poético que desafia as convenções da forma e do espaço. Entre eles estão obras emblemáticas como Condutores de Percepção (1969), uma das primeiras a explorar a participação ativa do olhar do espectador; e Centro de Razão Primitiva (1970) e As Sete Estrelas do Silêncio (1970), que já indicavam a precisão formal e a dimensão poética que se tornariam marcas recorrentes em sua produção.

Waltercio surgiu no cenário artístico brasileiro no final da década de 1960, em um momento de intensa renovação das artes visuais no país. Em diálogo com artistas e críticos que repensavam os limites da escultura, do objeto e da ideia de obra de arte, seu trabalho integrou a virada que deslocou o foco da representação para a experiência perceptiva e para o questionamento dos meios da arte.

Voltadas à experiência do olhar e à materialidade do invisível, as obras estruturam situações espaciais que convidam o espectador a percorrê-las com atenção, ativando um campo perceptivo no qual cada elemento ganha sentido em relação aos demais.

“O que busco é esta tensão que existe entre as coisas que conhecemos e as que não conhecemos”, reflete o artista: “A arte é a invenção de um aparecimento. Ela faz com que as coisas surjam para nós como se fossem capazes de alterar até mesmo as nossas dúvidas.”

O artista

Waltercio Caldas nasceu em 1946, no Rio de Janeiro. Escultor, desenhista, artista gráfico e cenógrafo, estudou pintura com Ivan Serpa, em 1964, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). Entre 1969 e 1975, fez desenhos, objetos e esculturas. Em 1973, sua primeira individual recebeu o prêmio de melhor exposição do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. Nos anos 1970, deu aulas no Instituto VillaLobos, no Rio de Janeiro, e foi coeditor da revista Malasartes e do jornal A Parte do Fogo. Integrou a comissão de Planejamento Cultural do MAM Rio, responsável pela criação da Sala Experimental.

É considerado por críticos, curadores e escritores um dos mais importantes artistas do Brasil nos anos que se seguiram ao movimento neoconcreto da década de 1960. Suas obras questionam e investigam a percepção humana, usando com frequência formas que desafiam a sensação de volume e profundidade. Realizou exposições no Brasil e no exterior e foi agraciado pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1993, com o prêmio Mário Pedrosa, pelo conjunto da obra e por sua mostra individual realizada no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Em 1996, lançou a obra O Livro Velázquez e, pela primeira vez, apresentou seus cadernos de estudos durante a exposição individual Anotações 1969/1996. Esteve presente em várias Bienais de São Paulo, na Bienal de Veneza e na Documenta de Kasell (Alemanha). Em 2018, foi um dos sete artistas curadores escolhidos para conceber uma exposição coletiva na 33ª Bienal de Arte de São Paulo, selecionando pinturas, esculturas e textos que tratavam de assuntos relacionados a tempo e espaço.

Em 2021, Waltercio Caldas participou da exposição coletiva A escolha do artista, realizada pela Casa Roberto Marinho. A mostra convidou cinco artistas a selecionar obras do acervo da instituição e estabelecer com elas um diálogo poético por meio de proposições autorais, criando novas relações entre trabalhos históricos da Coleção Roberto Marinho e produções contemporâneas.

Seus trabalhos estão em coleções de importantes instituições, como o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), o Museu Reina Sofia (Espanha), o Centro Georges Pompidou (França), o Museu de Arte (MASP), a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Serviço:
Local: Instituto Casa Roberto Marinho
End: Rua Cosme Velho, nº 1105 – Rio de Janeiro | RJ – Tel: (21) 3298-9449
Visitação: terça a domingo, das 12h às 18h
(Aos sábados, domingos e feriados, a Casa Roberto Marinho abre a área verde e a cafeteria a partir das 9h.)
Ingressos à venda exclusivamente na bilheteria: R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada)
Às quartas-feiras, a entrada é franca para todos os públicos.
Aos domingos, “ingresso família” a R$ 10 para grupos de quatro pessoas.

Por Manoela Ferrari