Maio, 2026 - Edição 312
Menino de Ubá
Com base na trajetória de Antonio Olinto (1919-2009), imortal da
Academia Brasileira de Letras (ABL), se ele estivesse vivo hoje, completaria 107
anos no dia 10 de maio.
Transcrevo artigo que fiz para a Associação Brasileira de Imprensa, dias
depois de seu falecimento em 12 de setembro de 2009:
Antonio Olinto: homem com coração de menino
Parafraseando Antonio Olinto: Falar de Antonio Olinto
é fácil, falar de Antonio Olinto é difícil. Homem, menino,
sábio, transparente, desconfiado, como bom mineiro. Foi o ser
humano mais puro, no sentido literal da palavra.
Comecei a trabalhar com Zora e Antonio Olinto há
mais de vinte anos. Ela ainda estava entre nós quando fizemos
Bodas de Porcelana. Ela brincava e, ao mesmo tempo, me
impunha a responsabilidade de continuar a sua missão de
cuidar, de ser o cão de guarda do “Piau”, como ela carinhosamente chamava Olinto.
Quando perdemos Zora, fiz o seguinte desabafo no
Jornal de Letras:
– Adeus, Zora. Eu era uma pedra bruta. Fui sendo lapidada pelo carinho, amor e ensinamentos dos dois.”
Zora, mulher guerreira, sabia dizer não com firmeza e
estava sempre pronta para as batalhas que enfrentou, e foram
muitas. Ainda jovem, militou em partidos políticos e, com o
filho recém-nascido Roberto, de sua união com Rubem Braga,
foi para a cadeia durante o regime militar. Foi salva pelo jurista e acadêmico
Evandro Lins e Silva. Quando soube do falecimento do amigo devido a um
tombo, chamou Antonio Olinto e disse:
– Viu? Evandro não tinha uma Beth ao lado dele.
Mulher sábia, quando sentiu que, devido à osteoporose, não poderia
mais acompanhar Antonio Olinto, avisou:
– Beth, não vou mais poder viajar com o Piau como fazíamos. Você
agora é quem vai acompanhá-lo, cuidar dele.
Deu a ordem, mas supervisionava, passava instruções, cuidava de tudo
na casa e em nossas vidas.
Ao lado de Antonio Olinto viajou o mundo, coletando dados, peças
e histórias. Mulher vibrante, sua estada nas Embaixadas de Lagos e Londres
guardou histórias. Sempre à frente de seu tempo, destoava da austeridade do
Itamaraty, andando pelas ruas de Lagos e de cidades vizinhas conversando
com os descendentes de brasileiros que haviam retornado para a África após
a escravidão.
Ave Zora, Ave Aurora, o livro de poesia que Antonio Olinto escreveu
de um só fôlego, depois de sua partida, nos leva a uma viagem no tempo. São
trinta e quatro poemas contando o que viram, o que sentiram,
enfim, tudo o que viveram ao longo de cinquenta anos de feliz
união.
Em 2007, através de um projeto patrocinado pelo SescRJ, conseguimos tornar o sonho de Antonio Olinto realidade,
com a exposição de Arte africana, primeiro no Sesc do Flamengo,
depois no Sesc Madureira.
Quando entramos na exposição, sentimos Zora em cada
objeto. Tudo lembrava o apartamento de Copacabana, o cuidado
com que ela catalogou mais de duzentas peças africanas, os tecidos tradicionais, livros, fotos tiradas em quase todo o mundo, a
máquina de escrever de Antonio Olinto. Com que emoção vimos
sua peça Exu, o cavaleiro da encruzilhada, ser lida, quase dramatizada por jovens atores, que conseguiram passar para a plateia
a mensagem da mulher pioneira, que, já em 1990, vislumbrava a
violência e a decadência humana do século XXI.
Eu não entendia muito bem quando as pessoas diziam
que eu era uma privilegiada. Agora, com o passar dos anos, e na
minha condição de avó, sei o que é.
Quando conheci Zora e Antonio Olinto, minha filha
Tatiana tinha cerca de sete anos. O casal levou a menina ao
mundo maravilhoso dos livros. Com o nascimento da Lyah, minha neta,
Antonio Olinto olha para a poltrona em que Tatiana ficava por horas lendo ou
atenta a tudo o que o avô emprestado dizia e fazia.
– Vejo aquela menina sentada. Ela agora já é mãe, e eu bisavô –, comenta Olinto, com seu sorriso de menino. Adeus meu menino, adeus.