Maio, 2026 - Edição 312
60 anos de Dona Flor, o outro nome de Sônia Braga
Para o crítico literário baiano
João Carlos Teixeira
Gomes, a obra de
Jorge Amado pode-
-se dividir em dois
grandes segmentos, marcados pelo
que chamou de
“ideologia do pessimismo” e “ideologia da esperança”
– a primeira, a permear o romance de
estreia, O País do
Carnaval, publicado em 1931; a
outra, a partir de
Jubiabá, lançado em 1935. “É o
melhor ensaio já
feito sobre a minha
ficção”, ouvi o
romancista dizer,
ao conterrâneo que
o escrevera, durante o seminário “O
Romance de 30 no Nordeste”, realizado pela Universidade Federal
do Ceará em 1981. Percebera o ensaísta, com aguda lucidez, que
se operara substanciosa mudança na Weltanschauung amadiana:
a mistura étnica e a vocação dionisíaca para o prazer, que destinariam o povo brasileiro ao subdesenvolvimento e à pobreza,
passariam, em apenas quatro anos, a ser interpretadas como
forças que nos transformariam em uma grande nação, feliz e
próspera. Sentimento que inspirou a criação de Gabriela, Cravo e
Canela (1958), Dona Flor e seus Dois Maridos (1966), Teresa Batista
Cansada de Guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977). Histórias com
milhões de leitores em todo o mundo, têm como protagonistas
mulheres que são das maiores personagens da literatura brasileira
em todos os tempos, ao lado de Iracema, Capitu, Clara dos Anjos,
Ana Terra, Macabéa e Maria Moura, para lembrar algumas. Neste
ano de 2026 ressalte-se, especialmente, Dona Flor, pelos 60 anos da
primeira edição do livro e 50 anos do lançamento do filme homônimo, a par dos 25 anos do falecimento de Jorge Amado.
O romance se passa em Salvador, na Bahia da década
de 1940. Ao fogão e à mesa da sua “Escola de Culinária Sabor e
Arte”, Florípedes, Flor para os amigos, é casada há sete anos com
Waldomiro dos Santos Guimarães, o Vadinho, boêmio, mulherengo, frequentador de bordéis e das casas clandestinas onde aposta
na roleta e no baralho. Em pleno domingo de Carnaval, no bloco
de rua que atravessa o Largo Dois de Julho, cai subitamente morto,
fantasiado de baiana. No velório, continuam as vizinhas fofoqueiras a detonar Vadinho: cachaceiro, vagabundo, gastava as economias da mulher no pano verde dos cassinos, Flor livrara-se de um
carma, sete bíblicos anos de sofrimento e de tristeza, agora podia
recomeçar a viver, não faltariam candidatos à mão da viúva jovem,
trabalhadora, bonita...
Em meio a tanto vitupério, o adeus dos companheiros de esbórnia, um deles poeta, autor da “Elegia à definitiva morte de
Waldomiro dos Santos Guimarães, Vadinho para as putas e os amigos”, com a eloquente imagem das “bundas em desespero, a soluçar”... O defunto não era, mesmo, exemplo a seguir, viera ao mundo
a passeio, de olho nos ingênuos que lhe caíam na lábia. Como um
certo Raimundo Reis avalista da promissória que se negava a honrar, nas mãos do gerente do banco:
— Disse que não paga, recusa-se? Mas veja o senhor,
seu Tarquínio, tem de tudo neste mundo... Que sujeito mais
cínico e sem-vergonha...! Fica no cabaré a arrotar riqueza, que
tem léguas de terra, que mais gado e que mais açúcar, que faz
e acontece, que comeu três mulheres de uma vez em Paris, um
bafo de milionário. Vai daí, a gente confia, cai no conto do vigarista,
aceita o aval como se o tipo fosse direito.
Resultado: título
vencido sem pagamento e o meu crédito abalado, o senhor me
chamando aqui... (...) São sujeitos assim que deixam a gente mal
junto aos bancos... Quando o cara avaliza um título é porque
está disposto a pagar, seu Tarquínio. Esse Raimundo Reis devia
estar era na cadeia, caloteiro vagabundo... (...) Está vendo, seu
Tarquínio, o prejuízo que esse tipo está me dando? É o resultado
da gente se meter com esses tratantes... E eu que sempre escolhi
meus avalistas a dedo... Raimundo Reis, quem diria... É vivendo
que se aprende...
Malandro como ele só, Vadinho não consegue desgostar o
leitor, tal a maestria com que Jorge Amado constrói a personagem.
Farrista, pouco afeito ao trabalho, não era, contudo, pessoa ruim,
de má índole. Se não era bom marido, ninguém melhor do que ele
no papel de amante: Dona Flor sabia-o irresponsável, inconsequente, defeitos que sumiam na cama, em noites de “vadiação” e
luxúria, quando lhe sentia a língua deslizar do umbigo para o lugar
que, segundo ele, tinha “gosto de mel e pimenta”... E se perguntaria
depois, saudosa do primeiro e único homem a possuí-la: “O que é
uma donzela, tola e ignorante em seu desejo, se comparada a uma
viúva, cujo anseio é feito de conhecimento e de ausência, de contenção e de penúria, de fome e de jejum (...)?”
Na imaginação de Jorge Amado, faltam a Dona Flor a sensualidade e o encanto que depois lhe daria o cinema: descreve-a
como “gordota de corpo e rechonchuda”, “servida de carnes, com
uns olhos de azeite e a pele cobreada, cor de chá, formosa de ancas
e de seios”. Viúva aos 30 anos, começa, pouco a pouco, a dividir-se
entre a realidade e a fantasia, a vida e o sonho, o desejo e o pudor,
na admirável prosa poética do romancista:
Em fogo lento meus sonhos me consomem, não me cabe
culpa, sou apenas uma viúva dividida ao meio, de um lado viúva
honesta e recatada, de outro viúva debochada, quase histérica,
desfeita em chilique e calundu. Esse manto de recato me asfixia
(...). Lanço este apelo aos quatro ventos, ao sabor das correntes
submarinas, das fases da lua e da maré, no rastro de qualquer
navegação ou cabotagem, pois sou porto de difícil descoberta,
recôndito golfo, ancoradouro de naufrágios. Quem souber de
solteiro em busca de viúva e casamento, diga-lhe que aqui se
encontra Dona Flor à beira do fogão, junto ao vatapá de peixe,
consumida em fogo e em maldição.
No fundo, é a saudade de Vadinho, a falta da “vadiagem”
que lhe preenchia as madrugadas, menos fortes, porém, que a
cobrança da sociedade, a pressão do entorno por uma vida segura
e confortável: de um marido infiel e beberrão, passa do vinho para
a água ao casar-se com o Dr. Teodoro, homem íntegro, de conduta
reta, farmacêutico e músico amador, que tinha no fagote a única
diversão. Vai, assim, de Dionísio a Apolo, ou, como diria Julio
Cortázar, do “cronópio” Vadinho – leviano, irreverente, hedonista
– ao “fama” Teodoro, perfeccionista, sisudo, metódico, cujo lema,
constante em placa que se lia na farmácia, era, não sem razão, “um
lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”. Organizado ao
ponto de fazer amor apenas às quartas e aos sábados, com direito
a repeteco só no meio da semana...
Esposa virtuosa e dedicada, persegue-a a lembrança do finado, como confessa à irmã:
(...) A mesma coisa todo dia cansa, até quando a gente
está no bom e no melhor. Aqui pra nós lhe digo, mana saudosa, que mesmo com essa vida tão feliz, por todos invejada,
por vezes me dá uma agonia, tão sem pé e sem cabeça, difícil
até de explicação, um não-sei-quê...
Tamanha foi a carência... que Vadinho ressuscitou, engenhosamente trazido de volta por quem o criara: visto apenas pela
amada, invisível aos olhos dos outros, Teodoro incluído: “Também
tive saudade o tempo todo... Não adiantou tu ser ruim, Vadinho,
quase morri quando tu morreu...”, dizia-lhe Flor, mas resistente
à libido insatisfeita do agora amante: “Se eu te chamei, como tu
dizes, foi para conversar contigo, às vezes me apertava uma saudade, o desejo de te ver, de falar com você, não foi ideia de descaração”, embora se reconhecesse dominada por uma “ternura funda,
comovida, um não-sei-quê, mistura do bom e do ruim, sentimento
de análise difícil e de impossível explicação para ela própria”.
Como tudo é possível aos que vencem a morte, no romance a
personagem até levita, pondo-se de cabeça para baixo a “brechar”
o decote de uma exuberante aluna da Escola Sabor e Arte... Entre
a pudica esposa de Teodoro e a mulher que se dá toda a Vadinho,
pergunta o romancista: “Qual das duas a verdadeira Dona Flor? A
que fecha a porta com estrondo ou a que abre em silêncio, fresta a
fresta, a porta de seu corpo?”
De novo entre os vivos, Vadinho resolve ajudar Anacreon,
Arigof, Mirandão, velhos companheiros nos jogos de azar, em que,
como sempre, perdiam muito mais do que ganhavam: soprava-lhes
ao ouvido seu número de sorte, 17, tantas vezes premiado que leva
à falência o calabrês Pelancchi Moulas, milionário à custa dos tolos
que sonhavam em ficar ricos. Desesperado, o banqueiro consulta
pais de santo, adivinhos e videntes, para que lhe descobrissem a
urucubaca que o empobrecera. “Coisa de marcianos...”, segundo
o espertalhão Cardoso e Silva, “modesto funcionário dos arquivos municipais, mestre de ciências ocultas, herdeiro da Chave de
Salomão, filósofo universal e hindustânico e capitão do cosmos”.
Em uma das melhores passagens do romance, Jorge Amado
lembra Dostoiévski, ao mergulhar com agudeza na psicologia dos
jogadores amigos de Vadinho, que acabam por enjoar de não perder nunca:
Isso era ganhar, não era jogo. A emoção do jogo é o
não saber, é o risco, a raiva de perder, a alegria de acertar,
o ganho e a perda. É seguir a bola na bacia da roleta, em
seu giro louco e em seu imprevisível número de sorte, cada
vez um número diferente. Quando repetia por acaso, que
emoção! Agora Anacreon nem olhava para a bola, ela ia obediente cair no número onde ele depositara fichas. E as cartas
dos baralhos? E os dados? Que crime cometera para merecer
castigo assim?
Na longa e boa entrevista que concedeu a Antônio Roberto Espinosa, declarou Jorge Amado: “O personagem é quem faz o
romance. Quando é o autor que o faz, o romance não presta.” E
conta o que respondera à sobrinha que lhe perguntara sobre o fim
da história de Dona Flor, ao tempo em que estava a escrevê-la:
Como estou vendo a coisa, ela vai se entregar ao
Vadinho, mas como é muito marcada por esse preconceito
todo, vai ficar desesperada. E como ela já fez o ebó pra ele
ir embora, no momento em que ele for, ela vai com ele... Eu
penso uma coisa assim meio poética, os dois desaparecendo, o outro marido entrando e vendo ela morta na cama.
Sabemos que o desfecho é outro, nas palavras de Jorge carinhosamente lembradas por Zélia Gattai, no discurso com que se
empossou na Academia Brasileira de Letras: “Essa sua amiga, hein,
Dona Zélia? Revelou-se uma boa descarada: dormiu com Vadinho,
gostou, mandou seu preconceito de pequeno-burguesa às favas e
ficou com os dois maridos...” Como dissera na entrevista: “O amor
é muito forte, você sabe, e quando são dois amores, fica mais forte
ainda. Dona Flor impôs o fim do livro.”
Chega-se, assim, ao último parágrafo do romance: “E aqui se
dá por finda a história de Dona Flor e de seus dois maridos, descrita em seus detalhes e em seus mistérios, clara e obscura como
a vida. Tudo isso aconteceu, acredite quem quiser. Passou-se na
Bahia, onde essas e outras mágicas sucedem sem a ninguém causar
espanto.”
Em 1976, chegava às telas o filme Dona Flor e seus Dois
Maridos, sob a direção de Bruno Barreto, que também assina o
roteiro, com Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran. Nos papéis
principais, Sônia Braga (Flor), José Wilker (Vadinho) e Mauro
Mendonça (Teodoro), tão brilhantes que se confundem com as
personagens, na imaginação das pessoas: como pensar na protagonista senão com o rosto e a volúpia da atriz que a interpreta?
No primeiro marido, a não ser com a aparência do ator que lhe dá
vida e graça? No farmacêutico a tocar uma valsa d’A Viúva Alegre,
sem que se apresente ao fagote o artista que o imortalizou? Não
por acaso, 10,7 milhões de espectadores foram vê-los no cinema, a
maior bilheteria brasileira por 37 anos.
Em dois anos de filmagens, com mais de cinco mil figurantes, gravaram-se momentos antológicos. Na cama em que se entrega ao marido que voltara, Flor lhe pergunta, com a inocência de
criança, como é Deus: “Deus é gordo”, responde, três palavras que
dizem mais belamente do que as Confissões de Santo Agostinho, a
Suma Teológica de São Tomás de Aquino... A última cena é antológica: após a missa, os fiéis deixam a Igreja de Nossa Senhora da
Palma, em Salvador. No meio deles, Dona Flor, a descer a ladeira
entre o circunspecto Teodoro e o pândego Vadinho, completamente nu, a apalpar a bunda que Michelangelo não teria feito melhor,
da criatura de Jorge Amado que Sônia Braga tornou símbolo da
beleza, da sensualidade e do encanto da mulher brasileira.