Março, 2026 - Edição 311
Todos os nomes são fáceis de gritar
A escritora Eltânia André nasceu em Cataguases (Minas
Gerais, Brasil), atualmente mora em Portugal e acaba de lançar
Decomposição dos Pássaros, pela editora Urutau. É dela também Manhãs Adiadas (contos, Dobra Editora, de 2012, finalista
do prêmio Portugal Telecom); Para Fugir dos Vivos (romance,
Editora Patuá, de 2015); Diolindas (romance, Editora Penalux, de
2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano); Terra Dividida
(romance, Editora Laranja Original, de 2020); Diários dos Mundos
(romance, Editora Laranja Original, de 2022, escrito em parceria
com Letícia Soares); e Corpos Luminosos (conto, Editora Urutau,
de 2022).
Julio Cortázar disse que, se o romance ganha por pontos, o
conto vence por nocaute, comparando o fazer literário ao boxe. É
justamente este o caso dos contos de Decomposição dos Pássaros.
Eltânia leva o conceito de Cortázar a sério e sua “luta” com as palavras mais parece um balé feito de fogo, urgência e verdade. Eltânia
adiciona ao paradoxo, aos contrários, sentidos outros, da ordem
– ou desordem – da poesia, que tudo isso gera e que Eltânia colhe.
A escolha dos títulos dos dez contos do livro é primorosa: Pluma e
Osso; A Última Música: 2 minutos e 35 segundos; Márrio-Riomar:
Um nome todo água; Céu na Boca; Evangelina Agustina: A Baba
Vanga brasileira, dentre outros.
Eltãnia domina como poucos a esgrima, aquela luta de espadas na qual só existem vencedores. Esse que lê, a outra que escreve.
Eltânia não brinca em serviço, ela encara o trágico que não respeita
os personagens do livro, homens e mulheres mais que comuns.
Cabem nos contos epifanias e até mesmo homenagens, como no
conto Subindo as Montanhas de Xisto da Bulgária ou Assassinando
a Lógica com a Caneta de Campos de Carvalho.
A boa literatura é forjada no corpo-a-corpo e desse conluio mais que promissor nasceu o belíssimo Decomposição dos
Pássaros. Eltânia parece que escreve sem maquiagens, sem colares
e anéis nos dedos libertos e francos. Ela não adorna o texto, não diz
a mais, não diz de menos.
O conto exige rapidez, a astúcia que dura o tempo da flecha
atingindo o alvo, o tal nocaute de Cortázar. Eltânia, nos contos
do seu livro, não deixa de esbarrar com parentescos nos contos
de Lygia Fagundes Telles. Os contos do livro são feitos de observâncias, de elipses que mais revelam que escondem. Contudo, o
estilo depurado de Eltânia não é feito de omissões, mas de revelações da faceta trágica
– mas poética – da
vida, como se fosse
possível existir um
mesmo tudo feito de
possíveis orquídeas.
Nada escapa. Mesmo
o trágico. A literatura mais solta que
prende, daí sua inutilidade – essencial.
Passam os pássaros,
fica o risco do voo.
Não existe sincronia entre intenção e gesto no estilo de Eltânia. Assim
são pintados os mais
bonitos quadros.
Vide Modigliani. O
romance olha a vista,
o mar amplo, o céu
azul; o conto é olho
no olho. Os contos
prezam o trágico.
Contudo, como disse
Antonio Gamoneda,
“amei todas as perdas”, que abre o
conto Construção.
Eltânia escreve, “peleja com o
indefectível”, a saber, a vida. A vida em si. A Vida em sim e não. Os
personagens do livro são fortes e fracos, com nomes “fáceis de gritar”, como Josué, do conto que dá nome ao livro. Os contos do livro
de Eltânia incomodam. Eles inauguram silêncios dentro de nós a
cada término da leitura dos textos. Eltânia nos faz compreender o
outro, e isso não é pouco não.
Eltânia seca ao sol do real as palavras e rega a seu modo os
contos do seu livro. É preciso prumo e apuro para ler Decomposição
dos Pássaros. Apesar do trágico, Eltânia percebeu que “patos são
ótimos nadadores e mergulham na fundura das águas com graça
e leveza”.