Março, 2026 - Edição 311

Reflexões sobre a arte da escrita

Livros pequenos, mas que carregam densidade, podem ser um presente incrível para leitores apaixonados. Nessa categoria, o livro Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci, escrito por Alfredo Bosi (1936-2021), professor emérito da USP e sétimo ocupante da Cadeira nº 12 da ABL, é um belo e raro presente para os leitores apaixonados pela arte, ciência e vida de Leonardo da Vinci (1452-1519). O livro é pleno de iluminações sobre o trabalho de Leonardo e sobre o ser humano que ele se tornou como reflexo de ter podido participar de algumas das reflexões mais profundas de seu tempo, aquelas que estariam no centro na Renascença italiana e que influenciam seres humanos pelo mundo até hoje. Entendi o livro como uma escrita, quase em fluxo de consciência, de alguém que entende a centralidade de Leonardo da Vinci para o pensamento ocidental, em uma tentativa de se aproximar do gênio de Leonardo e, sobretudo, de buscar traçar compreensões a respeito das influências filosóficas por traz de algumas de suas pinturas icônicas.

O livro tem início com uma leitura da tela Virgem dos Rochedos (c. 1491), na qual Alfredo Bosi parte de uma reflexão bela e profunda sobre a diferença entre a caverna de Platão daquela de Leonardo, de como como ele via os elementos da natureza e os engajava em sua obra. Para Bosi (p. 16), “em Leonardo matéria e luz buscam-se amorosamente e casam-se na textura final do quadro”. Se na caverna de Platão o ser humano é instado a sair, a libertar-se para ver o mundo sob a luz solar, em Leonardo, a caverna passa a ser um convite à exploração do lugar escuro e enigmático para o qual o artista é atraído a fim de explorar os seus mistérios. É importante dizer que Bosi não tira conclusões ao acaso, a sua percepção é embasada por diálogos com obras de Platão (428/427-348/347 a. C.), de Santo Agostinho (354-430 d. C.), de Marsilio Ficino (1433-1499 d. C.), entre outros. Bosi não olha apenas para a pintura de Leonardo, mas dialoga com outras de suas facetas.

Ele também investiga a escrita e a inventividade de Leonardo para melhor entender o pensamento no centro de sua produção artística nos lembrando que, em Leonardo, a arte era fruto de um pensamento elaborado e nunca apenas a gestualidade, ou a busca pela representação ou a técnica. Daí a densidade de seu livro, resultado da busca obstinada de um leitor apaixonado por da Vinci, que tenta entender o tempo de Leonardo para se aproximar dos significados pouco esclarecidos de sua obra artística. Lá mesmo onde as palavras já ganharam outros sentidos, Alfredo Bosi, para melhor iluminar a sua leitura, realiza uma arqueologia em que faz emergir da poeira do tempo os sentidos com os quais Leonardo teria tido contato. Além do platonismo, Bosi nos lembra da influência da escola pitagórica sobre o pensamento de Leonardo, de como ele era fiel cultor das proporções ideais e da busca pelo número áureo. Prova disso, é que um dos matemáticos mais conhecidos da Renascença, o frei Luca Pacioli (1445-1517), pediu a Leonardo que ilustrasse o seu tratado De Divina Proportione (1498). Bosi nos mostra como na arte de Leonardo podemos encontrar a valorização científica das formas da natureza (incluindo a humana). Essa leitura é embasada, também, pelos manuscritos de Leonardo, nos quais, para Bosi(p. 22), “há uma cadeia conceitual em que cada termo condiciona o seguinte: necessidade + experiência = sapiência”. É nessa busca pela sabedoria que o Leonardo artista e o cientista se confundem.

Em determinado momento do livro, Bosi realiza uma reflexão pontual sobre os estudos anatômicos de Leonardo, nos lembrando que da Vinci foi um dos primeiros a teorizar sobre esse tipo de desenho, observando que somente a representação dá conta de detalhes que aparecem e desaparecem no processo de dissecação dos corpos. A busca por melhor representar a fisiologia e a anatomia dos corpos humanos foi, na obra de Leonardo, uma busca obstinada com o objetivo de compreender não apenas a matéria de que somos feitos, mas como o corpo se constitui em um instrumento da alma, através do qual ela frui e especula a natureza da matéria.

Em outro momento, Bosi nos lembra do Fabulário de da Vinci, em que se encontram textos nos quais o gênio se utilizou do gênero fábula para mostrar seres em interações sociais carregadas de tensão e risco à própria existência, como a do castanheiro que ri da figueira ou da borboleta que é atraída pelo desejo de voar dentro da chama de uma vela. Bosi nos lembra que, em Leonardo, a fábula nunca é apenas narrativa exemplar ou moralizante, mas é um gênero cognitivo. Isso significa que a vida humana, seja na natureza, seja no mundo social, demanda a submissão à disciplina do estudo e da pesquisa, ou seja, trata-se de um esforço intelectual para compreender as forças que estão ao nosso redor. Mas o Leonardo que olha para as coisas da matéria e do mundo finito dos seres humanos também se volta para a especulação das coisas infinitas. Bosi nos lembra que o espírito em Leonardo não é apenas sopro ardente, mas é, também, luz intelectual em que a palavra “luz” ganha significados que vão do físico ao espiritual. Bosi exemplifica como, em uma oração escrita por Leonardo, ele pede que a Luz divina lhe dê um conhecimento (luz) perfeito sobre as coisas do mundo.

Na seção em que reflete sobre o desenho e a pintura em Leonardo, Bosi nos mostra que, sem abandonar as formas próprias do desenho, que apreende as formas do real dado, Leonardo, já no âmbito da pintura, inventa a técnica do sfumato a fim de abrandar a dureza do desenho, dos contornos e dos relevos, realizando a pintura como um milagre ao fazer parecer palpável as coisas planas. Assim, em Leonardo, a arte, como ele mesmo teria expressado, é algo mental e nunca apenas manual ou técnico. Para Leonardo, a ciência da pintura precisa refletir a mesma proporção encontrada na natureza a fim de se representar algo finito através de meios igualmente finitos, que são as técnicas artísticas, mas que produzam um sentimento de infinitude, sendo este o maior milagre da pintura.

Em Leonardo, pintor, cientista e filósofo se confundem em uma alquimia que leva o olhar a contemplar as coisas para além das aparências imediatas. A representação artística em sua obra, embora partindo do mundo circunstante, visa a apreensão daquilo que está para além do tempo e do espaço. O seu alvo nunca será tão somente a forma, mas a busca pela representação da própria luz em si mesma e, ao mergulhar o objeto de sua representação na luz, o artista mergulha esse objeto no infinito. Bosi compreende que todos os materiais utilizados por Leonardo em suas pinturas (o suporte de madeira, os pigmentos, as essências, os vernizes etc.) eram transformados em luz. Tratava-se de retirar da escuridão o gesto, a perspectiva, as cores, os movimentos e as paixões nas quais natureza e arte, figuras e sentimentos se encontram em fusão. É nesse sentido, nos lembra Bosi (p. 60), que para Leonardo “a pintura é filha da natureza e, mediante esse parentesco, é quase neta de Deus”.

Alfredo Bosi aborda muitos outros temas de muito interesse (como o da Santa Ceia, o da poesia do movimento e o dos elementos da natureza em Leonardo) que não terei tempo nem espaço para abordar aqui, mas não posso deixar de mencionar que ele termina o seu livro lindamente apontando para a impossibilidade do término em Leonardo. No aceno à sua viagem à Amboise, o autor nos conta que é ali, no último refúgio do gênio, que, justamente, tem a sua atenção voltada para a percepção da eterna transmutação da vida, que aponta para o infinito no qual “Nenhum ser vai para o nada”. Abraço o aceno de Bosi como uma das principais lições de Leonardo, justamente para não me esquecer de sempre refletir sobre Leonardo, sobre os múltiplos aspectos de sua obra, sobre a sua busca, sobre a sua centralidade para o pensamento humano, sobre o sentido de sua própria vida e o de fazer existir uma obra tão genial, tão sem começo e tão sem fim, que deseja ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço.

Por William Soares dos Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e escritor.