Março, 2026 - Edição 311

Livro Fervor

Em Fervor (Ed. Pinrd), o presidente da Fundação Memorial da América Latina, Pedro Mastrobuono, deixa fluir com tranquilidade seu voar entre as palavras. O livro traz cinco poemas do autor escritos à luz de pinturas realizadas por Lasar Segall que se aproximam da cultura judaica. Junto aos versos estão análises de cada um dos textos, todas realizadas pela poeta, ensaísta e crítica literária Ana Maria Bernardelli.

Poema Jaula sacudida – Pedro Machado Mastrobuono

Na antiga jaula, lado a lado, fera e domador.
Grades velhas, contorcidas, mas que ainda confinam.
Décadas de convívio imposto, reduzem confronto a mero
Olhar de censura. Convívio mais silencioso. Ex-fera, exausto
Domador.
Não obstante, nas altas madrugadas, ainda se ouve o ranger
Das grades sacudidas. Desejo de escapar. Sem gritos, porém.
Um anjo notívago testemunha o fenômeno. Perplexo, ante
O fato de quem sacode as grades. A fera repousando, assiste
Impávida.
Certo livro nas mãos. Corpo velho se sacode, ainda confina.
Instintos, já quase indiferentes, assistem o debater da alma
pressentindo a presença angelical.


Análise – Ana Maria Bernardelli

Quando o poeta se propõe a criar, ele faz escolhas, infinitas. Sua liberdade para tal é vertiginosa. Às ideias são vedadas restrições. Nesses momentos, ele se fecha com as palavras: modifica-as, adiciona elementos, reduz versos até o instante em que o poema deva ser o que deve ser. Pedro Mastrobuono, para criar “Jaula Sacudida”, mergulhou em seus mais profundos estágios da imaginação e aí esbanjou seutempo, sua sensibilidade, sua experiência, suas emoções e gestou o intrigante poema em que atemporalidade e universalidade encantam e ao mesmo tempo expõe a grandeza do poema.

“Jaula Sacudida” é um poema que descreve a relação figurativa entre uma fera e um domador em uma antiga jaula. O poema evoca imagens de confinamento, limitação e passagem do tempo. A análise do poema revela uma atmosfera de resignação e questionamento sobre a liberdade.

O primeiro verso do poema estabelece a dinâmica entre a fera e o domador, que compartilham o mesmo espaço na jaula. As grades velhas e contorcidas são símbolos da prisão física e metafórica que confina os dois personagens. O uso da expressão “ainda confinam” sugere que, mesmo com o passar do tempo, a jaula continua sendo espaço de restrição.

O segundo parágrafo, revela que a convivência forçada entre a fera e o domador ao longo das décadas transformou o confronto em um simples olhar de censura. A passagem do tempo diminuiu a intensidade do relacionamento, tornando-o mais silencioso. “Ex-fera exausto domador” sugere que ambos estão cansados e desgastados pelo tempo de convívio.

No entanto, nas “altas madrugadas”, ainda se ouve o ranger das grades sendo sacudidas. Esse desejo de escapar é descrito como um fenômeno noturno, indicando que mesmos cansados, os personagens ainda almejam a liberdade. A ausência de gritos nesse desejo de fuga indica a resignação silenciosa, como se a fera e o domador tivessem aceitado sua condição.

Um anjo notívago é apresentado como testemunha desse fenômeno. Sua perplexidade mostra que algo incomum está acontecendo, A fera, agora em repouso, observa impassível. A presença do livro nas mãos do domador anuncia que a busca pela liberdade se dá também no âmbito do conhecimento e do crescimento pessoal. O “corpo velho se sacode, ainda confina”, demonstrando uma luta interior em busca de liberdade mesmo diante das limitações físicas.

Os instintos da fera e do domador são descritos como “quase indiferentes”, indicando que o tempo e o confinamento os enfraqueceram. Porém, eles são capazes de perceber e pressentir a presença angelical, anunciando uma esperança ou anseio por algo além da jaula. “Jaula Sacudida” retrata a dualidade entre a resignação e o desejo de liberdade. Os personagens estão confinados em uma jaula física e emocional, mas ainda há vestígios de uma ânsia por escapar. O poema evoca, pois, reflexões sobre as restrições impostas pela vida e sobre a busca pela liberdade mesmo em circunstâncias adversas.