Março, 2026 - Edição 311

João Ubaldo e a ânsia de ler

Dia desses reli a crônica Memórias de Livros, de João Ubaldo Ribeiro. Texto muito conhecido e apreciado, um preito de amor e de saudades de casa durante os tempos em que viveu em Berlim, dizem os entendidos no saudoso acadêmico. João Ubaldo desfia meninices e mistura relatos da sua rica iniciação como leitor a reminiscências dos pais e avós. Dessa última leitura do texto, outro aspecto chamou-me a atenção: o sentimento de saudável ansiedade que a leitura pode despertar: O que vai acontecer? Como acabará essa história? Afinal, é assim que os leitores nos sentimos. João Ubaldo relembra leituras de infância, Karl May, Edgar Rice Burroughs, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift, vivendo ainda cercado, via avó Amália, por Emilio Salgari, Alexandre Dumas, Walter Scott e Arsène Lupin. Deixa-nos transparecer a satisfação vinda do ato de ler, na lenta descoberta da trama e do enredo, que se descortinam à medida que avançamos nas páginas. De certa forma, o mesmo sentimento do pesquisador, do leitor de fontes históricas, que se depara com informação que acrescente ao seu propósito ou lhe abra um novo caminho, prospectivo ou interpretativo. É a satisfação da descoberta.

Mas embutido na sensação de paulatina descoberta vivemos um outro sentimento: a ansiedade da espera. Exatamente pelo que vem pela frente, peloque vai acontecer depois, pelo que iremos descobrir. À medida que lemos vamos descortinando o mundo “camuflado” nas páginas que temos em mãos, sejam páginas de romance, sejam de manuscritos antigos. Agora suponhamos que, lamentavelmente, não temos em mãos o livro que queremos ler; pior, que procuramos há tempos e não damos sorte de encontrar. Nem pela internet, nas livrarias best-sellers, nem nos sebos virtuais e outros quejandos.

Presenciei esse tipo de angústia, específica, porque de natureza intelectual, na minha filha adolescente: me fez percorrer várias livrarias do Rio de Janeiro atrás de um título misterioso sobre domar dragões, creio eu que no sentido figurado. Até que na última que visitamos a livreira comentou que tinha em casa o tal título e acrescentou que, de fato, é muito difícil de achar. Pensei em lhe fazer uma proposta pelo exemplar, mas antes disso se prontificou a encomendar na editora, ou através de caminhos misteriosos que os livreiros conhecem, e ainda bem que continuam a existir (os livreiros, não os tais caminhos), até mesmo por isso.

Não sei se a ansiedade era traço de caráter de João Ubaldo Ribeiro tanto quanto a erudição o era. Quanto à formação leitora da minha filha, creio que a abordagem severa do pai do nosso autor não é a mais indicada à personalidade dela; o que faço é procurar mesclar nas leituras que escolhe indicações de clássicos, o Dom Quixote ou, ultimamente, as adaptações da Ilíada e da Odisseia pelo excelente tradutor Frederico Lourenço (Claro Enigma). Leitora iniciante de Agatha Christie (hábito adquirido com a mãe), foi graças à mesada da avó que naquela excursão pelas livrarias cometeu sua, talvez, maior aventura livresca até hoje: adquirir num sebo do centro da cidade vários títulos de uma coleção da autora inglesa. Talvez uma reminiscência que no futuro inspire a ela a sua própria Memórias de Livros.

Por Getúlio Marcos Pereira Neves, membro do PEN Clube do Brasil