Março, 2026 - Edição 311
Jacarés
Um grande quadro tomou conta da parede de minha sala: é o
“Acasalamento ao Luar”, do artista plástico Jonir Figueiredo (1951-2025). Assim
descrevi essa cena num poema:
Os jacarés se encontram,
Os olhos dourados fulgem
Dentro de verde de suas peles,
Do capim duro e selvagem.
Mais tarde, num ninho de folhas quentes,
Estarão os ovos, ásperos e claros,
De onde novos jacarés sairão
Em busca do rio e do luar.
Macho, fêmea, lua, capim, água,
peles... o palco do Pantanal. O jacaré
é mesmo símbolo dessa imensa planície alagada, que tem a maior população de jacarés do mundo. São milhares. Fervilham às margens das lagoas e
baías. Na seca se concentram em pequenas poças d’água. Sobrevivem também
às cheias. Aos desafios extremos. São a
memória da Terra primitiva. Guardam
o mistério dos mananciais. Com seus
instintos anfíbios transitam entre mundos, sustentam e equilibram o
ambiente.
Da janela do trem, a caminho de Corumbá, eu os observava: quase
invisíveis, parados, semelhantes a troncos de árvores boiando. De repente,
astutos e prudentes, caminhavam em direção à presa: peixes, aves, caramujos. As enormes mandíbulas abertas, varrendo a lama. Aqui e ali, pedaços de seus rabos e peles se esparramavam, pois sempre se regeneram. São
animais encantados, que mexem com nossos medos ocultos.
Foi Jonir que pintou esse quadro mágico. Amigo de tantas décadas,
companheiro de ativismos culturais. Entrava sem avisar em nossa casa,
para um café ou um mate gelado. Com seus olhos verdes, sua fala mansa
de pantaneiro. E quanta história tinha esse desenhista livre: cofundador
do Movimento Cultural Guaicuru que exaltava a identidade indígena de
Mato Grosso do Sul. Expôs seus trabalhos em países como Japão, União
Soviética, Europa e até na ONU, em Nova York.
Teve uma fase, nos anos 1980, em que pintou jacarés e carapaças
de couro, evidenciando sua preocupação ecológica. Denúncia da intensa
exploração na região. O jacaré aparecia como totem, como figura real e
mítica, ameaçado e ameaçador, caçado
e caçador. Jonir tornou o jacaré um
personagem do imaginário coletivo, um
ícone da paisagem, um grito plástico,
mercadoria de sangue.
Foi nessa época que adquirimos esse quadro. Para nós ele é erótico, representativo de um casamento de
seres ancestrais, criativos e equivalentes. Jacarés sorvendo goles de luar no
seu habitat natural. Brutos brinquedos.
Jonir faleceu repentinamente
numa madrugada fria de julho, enquanto participava da abertura de um Festival
de Cinema em Bonito. Naquela solenidade estava elegante, vestindo uma
camisa de oncinha. Desfilou fagueiro
pelo tapete vermelho. Foi sua hora de
estrela. Depois, bebeu um licor de guavira oferecido por seu anfitrião, deitou
um olhar de crocodilo sobre a noite
escura e dormiu para sempre. Jacaré
imóvel na barranca do rio.
Na parede de minha sala, admiramos uma de suas marcas visuais mais reconhecidas. Fertilidade e força
dominam nossas vidas.