Março, 2026 - Edição 311
Hamnet ou Hamlet, eis a questão
O pai não era bem uma flor que se cheirasse; a mulher era meio
bruxa, vivia noutro mundo, e ele também não era exatamente deste;
mas o filho era seu tesouro. Estamos falando de William Shakespeare,
o bardo, o maior de todos os dramaturgos da nossa era. O autor das
tragédias e dos mais belos e perfeitos sonetos que, agora, em vez
de autor, vem como personagem
de Hamnet – Um romance sobre
o luto, a peste e uma das maiores
peças de todos os tempos, de Maggie
O’Farrell, de 2020, (RJ: Intrínseca,
2021), premiada autora nascida na
Irlanda do Norte em 1972.
É sobre o filho Hamnet que
a O’Farrell dirige o seu olhar. O
filho do imenso autor que morreu aos onze anos de idade, vítima
da peste bubônica, em Stratford,
Warwickshire, Inglaterra, no verão
de 1596. “Tentei, quanto possível,
me ater aos escassos fatos históricos conhecidos sobre o Hamnet
verdadeiro e sua família, mas uns
poucos detalhes – nomes, sobretudo – foram alterados ou omitidos”,
diz em nota a autora. Assim sendo, tomou inteira liberdade para nos
contar a vida do pequeno Hamnet, cujo nome inspiraria poucos anos
depois o pai a escrever a maior, a mais sublime de suas peças, Hamlet,
o príncipe sombrio e pensador da Dinamarca. Peça que fala da dor da
perda e da morte.
Do pai, Shakespeare, o menino herdaria, sempre segundo a
autora, a inteligência, a excelente memória, “frequenta a escola seis
vezes por semana, do alvorecer ao crepúsculo; consegue escrever com
a rapidez de quem está falando, e lê latim e grego, e faz colunas de
números” (p. 74); mas tem também a mesma facilidade em se distrair,
em deixar a atenção fugir, seguindo, por exemplo, uma carroça na rua,
imaginando para onde ela vai, ou “como foi maravilhoso o dia que o tio
deu a ele e às irmãs uma carona na carroça de feno (...) O barulho de
um pássaro no céu pode fazê-lo parar de falar no meio de uma frase,
como se o próprio céu o deixasse surdo e mudo de uma hora para
outra.” (p. 16). O menino tinha uma irmã mais velha, Susanna, e a sua
gêmea, Judith. A família vivia na casa dos avós paternos Mary e John
Shakespeare, que já fora abastado um dia, mas, arruinado, trabalhava
duro na fabricação e comércio de luvas, com suspeitas, segundo as
más línguas, de cometer ilícitos. E era nesse comércio detestado que
o pai de Hamnet (cujo nome William o narrador prefere omitir) trabalhava desde muito jovem – e ainda como professor. É preciso dizer
que o seu relacionamento com John era turbulento, pois o pai era
autoritário e violento, o que só aumentava o desejo do filho de fugir
da casa da família numerosa, em que todos os irmãos eram vítimas do
seu mau humor e brutalidade: “Os acessos do pai brotavam do nada,
como um vendaval, e logo se agigantavam.” (p. 41). Foi espancado
inúmeras vezes.
A narrativa alterna o tempo dos acontecimentos, utilizando o
flashback para buscar fatos e explicações anteriores ao nascimento do
protagonista Hamnet, em 1585. Valendo-se da imaginação, o narrador
conta do seu nascimento na floresta, para onde se dirigiu a sua mãe
“bruxa” ou “feiticeira”, que tudo sabia sobre seus habitantes, árvores
e animais, bem como a coruja e o falcão que trazia sempre no braço.
E também sobre magia. E foi essa mulher, cujo nome verdadeiro era
Anne Hathaway, chamada pelo próprio pai, Richard Hathaway, em
seu testamento, de “Agnes” – diz a autora, mais velha, por quem o
jovem Shakespeare se apaixonou aos dezoito anos. Engravidou-a, e o
casamento foi inevitável. Era professor (distraído) de latim dos irmãos
da moça. Casados, mas praticamente separados, pois o jovem pai de
família, sem recursos, seguiu para Londres para ganhar a vida.
A partir daí, o romance prende-se mais à vida duríssima de
Agnes, camponesa analfabeta, mas conhecedora dos mistérios da vida
e da morte. Era afamada pelo conhecimento de plantas e seu uso no
tratamento de todos os males, o que fazia de sua casa local de eterna
romaria, sempre com gente chegando e partindo. No entanto, era
calada e solitária, presa ao seu estranho dom. Com as visitas pouco frequentes do marido, de duas a cinco vezes ao ano, acostumou-se a ser
mãe e pai, o faz-tudo da família. O dinheiro que chegava do marido,
cada vez em maior quantidade, deu-lhe a casa grande e confortável,
onde passariam o resto de suas vidas. Mas a solidão tornou-se também
maior.
Numa das cenas mais emocionantes do livro, vemos a chegada
do pai ao leito do filho morto:
Ele atravessa rapidamente o aposento e remove o pano. Ali
está, à sua frente, o rosto do filho,
um lírio branco-azulado, os olhos
cerrados, os lábios selados, como se
o menino demonstrasse desagrado,
indiferença pelo que ocorreu.
O pai pega o queixo do
filho na mão em concha. Os dedos
trêmulos traçam o ferimento no
supercílio. Ele diz não, não, não. Diz
Deus do céu. E então, se inclinando
sobre o menino, sussurra:
– Como isso foi acontecer
com você? (p. 284)
E a peste que levou Hamnet
veio de longe. Seguiu uma rota de
destruição, causando a morte por
onde passava: nos portos e navios,
nas estalagens, nas correspondências e encomendas entregues aos
destinatários. Assim chegou à casa
de Agnes. Essa passagem é a mais
criativa do ponto de vista da narração e da linguagem da autora.
Deixe estar que escrever biografia, ainda que romanceada, não
é tarefa fácil, pois antes de qualquer coisa, é preciso ter alguma simpatia pelo biografado; mas não se pode ater apenas aos momentos
gloriosos, há que se falar também dos momentos de derrota e até dos
de vileza. Foi o que fez Victor Hugo na monumental biografia William
Shakespeare (Vida e Obra), (1864), em que revela desvios de conduta
do jovem Shakespeare que, em uma noite de verão, no meio desse
sonho, povoado de rapazes e moças, em meio à sua bebedeira e sob
os tetos daquela casa, encontrou raros encantos numa camponesa de
nome Ana Hathaway. O casamento foi o epílogo. Desposou a tal Ana
Hathaway, mais velha do que ele oito anos, e, dessa união, nasceu-lhe
uma filha, seguindo-se-lhe dois gêmeos, uma menina e um varão.
Posteriormente, abandonou-a, e esta mulher, riscada para sempre da
vida de Shakespeare, só reaparece no testamento deste, no qual lhe
lega “o menos bom dos seus dois leitos”, sem dúvida porque, como
disse um de seus biógrafos, “havia utilizado o melhor com outras”.
Shakespeare, como La Fontaine, apenas atravessou pelo matrimônio. Depois de abandonar sua mulher, foi mestre-escola, em seguida
escrevente em casa de um procurador e, finalmente, caçador furtivo.
Esta última ocupação deu ensejo a que mais tarde dissessem que
Shakespeare foi ladrão. Um dia, caçando ocultamente, foi surpreendido no parque de Sir Thomas Lucy e levado para a prisão. Foi processado. Insistentemente perseguido, fugiu para Londres. Para não morrer
de fome, dedicou-se a cuidar de cavalos na porta dos teatros. Plauto
havia feito girar uma mola de moinho. O ofício de cuidar de cavalos
nas portas ainda existia em Londres no século passado [séc. 18] e os
que assim ganhavam a vida constituíam uma espécie de profissão
denominada os shakespeare’s boys (RJ: Panamericana, 1944, p. 17).
E teve um filho fora do casamento, Sir William Davenant, ainda
segundo Victor Hugo.
Mas o romance de Maggie O’Farrell, de que nos ocupamos aqui,
procurou, como observam críticos renomados na quarta capa do livro,
transfigurar a vida em arte; mostrar que sempre há novas histórias a
serem contadas; como a morte precoce do filho pode ter influenciado
a criação da peça magistral de seu pai; e emocionar o leitor. E a autora
poderia ter dito com Shakespeare: “Eu nunca deixo a verdade atrapalhar uma grande história.”