Março, 2026 - Edição 311

Anatomia de um tecido poético

Jorge Elias Neto (Vitória/ES, 1964), da Academia Espíritosantense de Letras, é médico e escritor e, já aqui, temos uma deliciosa contradição entre a ciência e a poesia. E não poderia ser melhor: o autor é cardiologista, ou seja, especializado em corações. Entre cirurgias e medicamentos, Jorge Elias faz, também, versos – e é muito bom nesta arte, aliás, como tantos médicos autores. Schiller, por exemplo, dizia que, quanto mais estudava Medicina, mais se encantava pelo Humano; no Brasil, impossível não pensar no trabalho de Moacyr Scliar, Pedro Nava ou Guimarães Rosa. Jorge, por seu turno, contribui para este panteão: seu Tratado da Última Pele é um suculento recolho poético, que radiografa (com o perdão do termo médico) 25 anos de intenso e profícuo labor poético.

Elias Neto é conhecido, pelos que se debruçam sobre seus versos, como, por exemplo, Shirlene Rohr (Bravos Companheiros eFantasmas – vol 7 – UFES), como vate detentor de uma poética que expõe uma certa condição humana, um ceticismo que, ao mesmo tempo, mescla um lirismo, como toques que poderíamos chamar, até, de neossimbolistas; ele também é, segundo dizeres do saudoso Prof. Dr. José Augusto Carvalho (na introdução do livro), autor de textos que decantam uma linguagem remetendo uma sintaxe própria, com construções que brincam com sons, criando seu próprio jogo musical.

Está tudo ali, portanto: Desde Verdes versos (2007); Rascunhos do absurdo (2010/1/2); O Estalo da Palavra; Glacial (2014); Breve Dicionário (poético) do Boxe (2013); Breviário dos Olhos (2014); Cabotagem (2016); O Ornitorrinco do Pau Oco (2018); Sonetos em Crise (2020); A Arte do Zero (2021); Manual para Estilhar Vidraças; e XXI Sombras. Tudo como uma espécie de “tratado”, como sói aos médicos, brindando-nos com uma verdadeira anatomia de uma tessitura poética consistente, como uma pele que renova suas camadas, a epiderme de um projeto poético vivo.

Dentre as ricas possibilidades de se ler Jorge Elias, proponho uma que fale ao corpo. Sua temática, recorrente ao eros e ao tanatos perpassa pelo humano, na sua dicotomia alma e corpo. O corpo, na poética do autor, é, portanto, para nós, um ponto de partida, um assunto recorrente, que ele explora em todas as suas possibilidades. Tal o é, por exemplo, no poema “Meu corpo”, do livro O Ornitorrinco do Pau Oco: “(...) Meu corpo é o bojo da névoa / ruminada no pasto, / é a universalidade de um nada / carente de sentido. / Exilado na descrença, // jaz // no giral de ofertas / de um supermercado”.

Do mesmo livro, também pinçamos “Há dois corpos”: “(...) Uma medida // do meu sexo / te explorando enquanto dorme/ rompendo tua boca/ enquanto fala, / carregando o peso/ da insônia do Mundo”. Ou o texto “Balada da carne”, em O Estalo da Palavra: “Já que o dia é par, falemos de amor. // Já que à frente sempre resta o horizonte, / não me enterrarei além dos olhos. / Já que é no vazio insalubre da cura / que se percebe a alma esvanecendo, / tragam-me uma taça”. O corpo poético, em suas retinas fatigadas, vê apenas a morte, drummondianamente, ou a procura da poesia.

Em “Despedida”, de XXI Sombras, temos: “É na transição que me despeço/ pois outro entorno passa a ser sentido (...) // Não saber o nome que se diz / quando se está surpreso/ passa a ser vida”. O poeta se renova, na sua epiderme poética, trazendo para nós uma nova poesia, no movimento de morte e vida, buscando, em última análise, pelos seus versos, a imortalidade.

Por Anaximandro Amorim (1978), escritor, professor e tradutor de francês. Mestre e doutorando em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Membro da Academia Espírito-santense de Letras.