Janeiro, 2026 - Edição 310
Afonso Arinos de Melo Franco, estadista da Cultura
Com sessões
de lançamento previstas para o começo de abril no Rio de
Janeiro, em São Paulo,
em Brasília e em Belo Horizonte, Nos 120
anos de Afonso Arinos de Melo Franco reúne
dezessete ensaios sobre o mineiro nascido em Belo Horizonte,
em 27 de novembro de 1905, filho de Afrânio
de Melo Franco e de Sylvia Alvim de Melo
Franco. Concebida para assinalar o importante aniversário, a
edição do livro foi viabilizada graças à sensibilidade e à visão do competente Alexandre
Machado, da Editora Miguilim. O volume mereceu caprichada
edição em capa dura preparada por Leonardo Mordente e por
Gabriela Abdalla e traz várias fotos de diferentes momentos da vida
de Afonso, gentilmente cedidas pela família. Logo na abertura, os
leitores encontram dois poemas escritos em homenagem a ele,
há meio século: Afonso Arinos, Setentão, de Carlos Drummond de
Andrade, e Canto para Afonso Arinos de Melo Franco, de Alphonsus
de Guimaraens Filho.
No texto de apresentação, o professor Arno Wehling e eu –
na qualidade de organizadores – destacamos que a obra de Arinos
precisa ser mais difundida entre as novas gerações e fazemos
menção ao extenso e multifacetado corpus de que está composta.
Chamado por seu amigo Pedro Nava de “poliedro humano”, Afonso
Arinos produziu conhecimento altamente qualificado em áreas
tão distintas quanto o Direito Constitucional, a Crítica Literária, o
Memorialismo e a Ciência Política, o que acabou conferindo notável amplitude temática à publicação. Além dos textos analíticos,
ela conta ainda com quatro preciosos depoimentos, de natureza
mais pessoal: o do presidente Sarney, que relata sua convivência
com Afonso, desde os tempos em que foram colegas no Congresso
Nacional, ainda no Rio; o do professor Joaquim Falcão, que relembra a trajetória da famosa “Comissão Arinos”, incumbida de preparar um projeto de Constituição para o Brasil em redemocratização; o do jurista Bernardo Cabral, relator da Assembleia Nacional
Constituinte, que trabalhou lado a lado com Afonso, então presidente da Comissão de Sistematização, e, finalmente, o de Cesário
Melo Franco, que recorda casos e situações inesquecíveis vividas
na íntima e diária convivência com o avô.
Airton Seelaender Cerqueira Leite estuda a contribuição
de Afonso Arinos ao Direito Constitucional; Ângelo Oswaldo de
Araújo Santos escreve sobre a relação entre ele e Minas Gerais,
em trabalho que menciona o memorável discurso de recepção a
Tancredo Neves, na Academia Mineira de Letras; o foco de Antônio
Celso Alves Pereira está na carreira docente de Afonso, de que foi
aluno; o de Arno Wehling reside sobre o que ele pensou no campo
da História das Ideias. Já a historiadora Aspásia Camargo, que
trabalhou com Afonso na Fundação Getúlio Vargas, desenha sua
trajetória na política nacional, especialmente no parlamento (onde
foi deputado federal por quatro vezes e senador por duas). Cabesempre lembrar que Afonso
Arinos foi o autor da Lei
Afonso Arinos, de 1951, o
primeiro diploma legal
antirracista da República.
Christian Lynch disseca o pensamento político de Arinos, detalhando
como suas reflexões foram
evoluindo ao longo dos
anos; Cláudio Aguiar examina as biografias de sua
lavra, com destaque para a
que escreveu sobre o pai,
Um Estadista da República
– Afrânio de Melo Franco e
seu tempo, lançada em três
volumes, em 1955. Domício
Proença Filho se detém
sobre a crítica literária de
Afonso, com ênfase nos
livros Espelho de Três Faces,
de 1937, Mar de Sargaços,
de 1944, Algunos Aspectos
de la Literatura Brasileña,
de 1945, e Portulano, também de 1945; Edmar Bacha
avalia a história econômica
do Brasil vista pelas lentes
de Afonso Arinos, sobretudo em Síntese da História
Econômica do Brasil, de
1938, Desenvolvimento da
Civilização Material no
Brasil, de 1944, e História
do Banco do Brasil, de 1947.
O embaixador Rubens Ricúpero assina o ensaio sobre a passagem
de Arinos pelo Ministério das Relações Exteriores, no
governo de Jânio Quadros, quando foi um dos idealizadores da chamada “‘política externa independente”. Ricúpero
foi seu oficial de gabinete. O diplomata Luiz Feldman empreende
minuciosa análise da atuação de Afonso Arinos como titular da
representação brasileira junto à Assembleia Geral das Nações
Unidas. Sydney Sanches mostra como ele se integrou à vida associativa, por meio de ativa participação
na Academia Brasileira de Letras, onde sucedeu a José Lins do Rego, no Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, no Instituto dos Advogados Brasileiros e na
Academia Mineira de Letras, onde sucedeu a Juscelino Kubitschek
de Oliveira.
Escrevi sobre o Afonso Arinos memorialista. Para tanto,
mergulhei nos cinco tomos de memórias que ele legou à cultura
brasileira: A Alma do Tempo (Formação e Mocidade), A Escalada,
Planalto, Alto Mar-maralto e Diário de Bolso. Neles, o autor medita
sobre sua vida pública, mas também abre espaço para digressões
de caráter pessoal, partilhando suas visões sobre a família e, corajosamente, abordando temas que alguns classificariam como incômodos, como os relacionados à própria saúde.
Personalidade incontornável para quem pretende entender
a história do país, sobretudo entre 1930 e 1988, Afonso Arinos de
Melo Franco foi caso raro de intelectual de alta performance que
atuou na política. Sua paixão pela Cultura, no entanto, foi a mais
forte e a que o acompanhou durante toda a sua trajetória, um
testemunho eloquente de amor às artes, em especial à literatura.
Potente, seu legado permanece vivo e aceso. Que os leitores percorram as páginas desse livro com o mesmo prazer que tivemos ao
organizá-lo.