Janeiro, 2026 - Edição 310
Realismo fantástico, história e imaginação na obra de Adelpho Poli Monjardim – Parte II
Outra vertente literária de Adelpho Poli Monjardim é a de historiador,
como tão bem revelou em sua última obra publicada, A Entrevista de Guayaquil;
no entanto, ela, às vezes, se confunde com a do ficcionista, e o resultado não é
tão bom, como se pode ver na obra O Brasil no Ano 2100, Ensaio, de 1988. Nela,
o velho historiador Sorel, “Nobel de História” – não existe – é visitado por um
jovem universitário, Daniel Sikorkis, em sua “casa de aspecto nobre”, na rua
Barão de Monjardim, em Vitória (onde vivia Adelpho), no dia 16 de setembro
(aniversário do autor) de 2100. Seu objetivo é entrevistar o historiador ficcional
sobre uma tese que pretende escrever sobre a História, “a narração crítica dos
grandes Estados, Guerras, grandeza, preponderância e decadência dos mesmos”.
Sorel afirma ser ambicioso seu projeto, mas se propõe ajudá-lo. Primeiro, discutem se História é ciência ou arte, chegando à conclusão de “Não nos interessa
como definir a História”, pois são “assuntos de lanacaprina”. E aí começa a longa
digressão do pseudo historiador, que começa a discorrer sobre Alexandre, César e
Aníbal, Cipião, o Africano, Epaminondas, Pirro, suas batalhas, vitórias e derrotas.
Discorre sobre Aníbal, o cartaginês, o maior de todos, segundo ele, cujo “retrato
moral moldura o físico”. Para o senil historiador, “sem lutas e sem antagonismos,
as sociedades cairiam em torpez que as incapacitaria para o progresso. A guerra
é um fenômeno humano, político e social e resulta das atividades e aspirações
dos homens”. Para ele, “A guerra é quase uma lei da natureza”. Essa premissa do
historiador Sorel é a mesma do ficcionista Monjardim, o que se revela em quase
toda a sua obra não ficcional. Embora ele discorra sobre a história mundial, desde
a antiguidade até os tempos atuais, como a história da eterna guerra entre os
homens, ele a conclui com uma futurologia utópica, ficcionalizando a realidade:
“Estamos em pleno Ano 2100. O Brasil prospera e não para de crescer. Pacificado o
mundo, a razão voltou à humanidade. Guerras, guerrilhas, revoluções, são coisas
do passado. É com horror que o homem moderno percorre as velhas páginas da
História. Possuiria o homem de outrora dupla personalidade? Espécie de Dr. Jekil
and Mr. Hyde? O homem que realizava feitos portentosos, conquistas sublimes
nos campos da Ciência, dilatando os conhecimentos do Cosmos, conquistando a
Lua, visitando planetas, era o mesmo que deflagrava guerras de extermínio, hecatombes de sangue em que mergulhavam as nações? Hoje a paz é real, verdadeira,
universal. A tranquilidade. A Pomba da Paz, que há milênios alçou da Arca o voo
fraterno, conduzindo o ramo de oliveira, baixou entre nós. Hosanas a Deus nas
alturas. Paz na Terra aos homens de boa vontade”.
Em outro de seus livros, O Preço da Glória, publicado pelo IHGES, do qual
era membro atuante, em 1985, desde o Preâmbulo, Adelpho P. Monjardim define
o seu conceito de História: “Que é a História senão relato de crimes e desgraças?”
Nesse livro, escolheu vinte personagens históricos para mostrar como, “muitas
vezes, a criatura se volta contra o criador”. Dos vinte escolhidos, 18 são homens e
2 mulheres, Joana D’Arc e Madame Curie. Os outros são: Robespierre, o alpinista
inglês Whymper, Savonarola, Amundsen, Santos Dumont, Mussolini, Fernão de
Magalhães, Tiradentes, Joseph Smith, o Mórmon, Otto Lilienthal, inventor do
planador, Lord Carnarvon ou A maldição de Tutankhamon, Hitler, Domingos José
Martins, Giordano Bruno, Gandhi, Colombo, Simón Bolívar, Aníbal, o Cartaginês.
Creio que a simples escolha desses personagens históricos já seria sintoma para
diagnosticar, ideologicamente, o escritor Adelpho Monjardim. Basta, no entanto,
um deles, Benito Mussolini, de quem afirma: “Reconhecemos nele grande político, grande estadista, extremado patriota e sobretudo incomparável administrador. A sua ação de homem público, de larga visão, de pronto se fez sentir. […] A
presença de Mussolini se impôs positiva, transformando o país como um passe
de mágica. As ferrovias, péssimas e deficientes, passaram a ser modelo. Levantou
a nação, o moral do povo, voltando o nativo a orgulhar-se da pátria.” Monjardim
conclui seu texto laudatório a Mussolini, lamentando: “Notável estadista e
administrador, em que pese os seus erros, não merecia a morte infamante, o fim
ignóbil. Enfim, no mundo, tudo é passageiro, mesmo a Glória. Filho da sua fértil
imaginação, das elucubrações das longas vigílias políticas, em meio a uma Itália
conturbada, Mussolini criou o Fascismo e terminou vítima do próprio gênio.” Por
aí, pode-se ver o posicionamento ideológico do autor diante da História.
Em 1948, criou-se a Lei Municipal 20/48, instituindo o Prêmio Cidade
de Vitória, que oferecia um valor em dinheiro e a publicação da obra vencedora.
Cinco concorrentes se candidataram e Adelpho Poli Monjardim saiu vencedor
com a obra Vitória Física, juntamente com Maria Stella de Novaes. Sua obra trata
dos aspectos físicos e geográficos da Ilha de Vitória, seus bairros, morros e pedras,
de uma forma que granjeou a admiração dos leitores. Adelpho, que já era bem
conhecido como ficcionista, torna-se reconhecido por seu caráter de pesquisador, o que o levou a ingressar no IHGES. Como afirma no Prólogo “PORQUE”,
sempre teve inclinação pela Geografia, sobretudo a Física: “as montanhas exercem sobre meu espírito estranha sedução – talvez influência do meio. Que é
Vitória senão montanhas?” A 1ª edição do livro saiu em 1949 e uma segunda, em
1995, org. de Amylton de Almeida.
Após o sucesso da publicação de Vitória Física, Adelpho publica três obras
não ficcionais: O Exército visto por um Civil, Bolívar e Caxias, paralelo entre duas
vidas e Uma Entrevista com Simón Bolívar, em todas revelando sua admiração
pelo militarismo e pelos grandes militares da História. Somente em 1976 sai
seu novo romance de aventuras Um Mergulho na Pré-História, já anunciado na
1ª ed. de Vitória Física, uma edição de 393p. O livro trata da aventura de Lord
Summerville, que reuniu uma equipe, dentre a qual o brasileiro Carlos Madeira,
para penetrar no interior do Brasil, pelos rios Tocantins e Araguaia, em busca
de comprovação de sua tese de que dinossauros e hominídeos coabitaram, no
mesmo tempo e espaço. Depois de longa viagem cheia de perigos, dentre os
quais uma quadrilha de traficantes internacionais, ataque de animais selvagens e
de aguerridos nativos, chegam ao Vale da Morte, onde todas as suas expectativas
foram bem-sucedidas, incluindo o encontro de animal antediluviano ainda vivo.
Com apenas uma perda, a do geógrafo Huston, o périplo pela selva amazônica
termina em Belém, com o regresso de George, outro membro da expedição, à
Inglaterra convocado para lutar na II Guerra Mundial. Os elementos fantásticos
presentes em toda a viagem e, principalmente no Vale da Morte, como animais
gigantes, dentre outros, mostram a extraordinária capacidade inventiva do autor.
Afinal, já lhe vaticinara o pai: “Vai ser escritor ou um grande mentiroso.”
Seu terceiro romance, Os Imigrantes, publicado em 1980, reconstitui a
saga do Conde Luigi de Castiglione, “alto, espadaúdo e atlético, um belo homem”
que, ao se empobrecer na Itália, por ter emprestado dinheiro ao governo italiano
durante as guerras de unificação, vem com a mulher, Gina, e o Filho, Benito,
como imigrante, para o Brasil. Seu destino era São Paulo, mas o comandante os
desembarca em Piúma. Daí, são levados para o Diretor do Serviço de Imigração,
Aristides Guaraná, militar da Guerra do Paraguai, que, ao ver sua cultura e
“nobreza”, diferente dos rudes imigrantes que chegam, o contrata como secretário. Vivem cinco anos no Espírito Santo, depois vão para São Paulo, onde Benito
continuará os estudos e o Conde administrará a fazenda de café do Comendador
Arzão, colega de caserna de Guaraná. O final é feliz: o Conde recupera sua fortuna emprestada ao governo, recompra o castelo de sua família, compra uma das
fazendas do Comendador e Benito se compromete com a filha do fazendeiro vizinho, após achar uma bolsa de riquezas perdidas por antigo bandeirante em suas
terras.
Infelizmente, essa não foi a sorte de milhares imigrantes italianos, alemães
e outros, que vieram para o Brasil e aqui só encontraram muito trabalho, fome e
muita formiga. A história do Conde Luigi, imigrante italiano, é bem diferente de
outras já escritas no Espírito Santo, como a de Karina, de Virgínia Tamanini, Da
Itália ao Brasil, de Ormando Moraes, Do Veneto para o Brasil, Giovani Maria e La
vita de Vitorio, de Douglas Puppim. Parece que, até na literatura, a fantasia favorece os ricos enquanto a realidade é dura para os pobres.
Seu segundo livro publicado foi Novelas Sombrias, com o qual ganhou,
em 1936, o Prêmio Muniz Freire do Concurso Literário e Científico do Espírito
Santo, no Rio, pela Editora A Noite, em 1944. Naquela época, não havia editoras capixabas.
Sobre esse livro recebeu vários elogios, dentre os quais o de Raul
Pederneiras: “Sinto nas páginas de seu livro, inicialmente, o atrativo que imortalizou Hoffmann, com muito maior verossimilhança e estilo insinuante” e o de
Armando Gonçalves: “O vitorioso escritor capixaba, em suas novelas, se nos afigura à feição de Edgard Poe, pelas suas tendências para os assuntos macabros que
deram ao gênio americano a sua notabilidade.” Ernest T. A. W. Hoffmann (1776-
1822), escritor romântico, compositor, desenhista e jurista alemão, conhecido
como um dos maiores nomes da literatura fantástica do século XIX, bem como o
escritor norte-americano Edgar A. Poe (1809-1849, conhecido por suas histórias
de mistério, considerado o inventor da ficção policial e da ficção científica, são
as duas principais referências para a literatura de Adelpho Monjardim. Embora
tenha escrito seus contos da segunda metade do século XX ao final, Monjardim
segue modelos literários do século XIX, como se pode comprovar, nos oito contos
publicados em Sob o Céu de Ísis, em 1978, bem como nos Contos Fantásticos, de
1980. Os vinte contos dessa obra são, claramente, influenciados pelo realismo
fantasmagórico, com presença de elementos insólitos ou macabros comuns às
narrativas de Poe e de Hofmann, no século XIX.
Portanto, Adelpho Poli Monjardim deixou, como principal legado para a
literatura do Espírito Santo, preciosa incursão ao gênero literatura fantástica, em
sua obra ficcional de contos, novelas e romances; em sua contribuição à História
e à Geografia, publicou obras que nos fazem recorrer à história da humanidade
e, sobretudo, à da América Latina, veiculada em sua visão bastante pessoal dos
fatos históricos; mas, sobretudo, o seu veio mais forte é o profundo conhecimento e amor que devotou a sua cidade natal, Vitória, e ao nosso Estado, o Espírito
Santo, como se pode comprovar em Vitória Física, O Saldanha do meu Tempo e
O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore.
Em seus vinte e dois livros
publicados, em cerca de cinquenta anos de produção literária, metade de sua
longa vida, Américo Poli Monjardim deixou de legado nove títulos literários,
sendo três de romances/novelas, quatro de contos fantásticos, um de crônicas
memorialísticas e um de lendas capixabas. É sua melhor obra e merece ser reeditada e estudada para conhecimento das novas gerações. Sua obra não literária
totaliza dez livros de ensaios históricos, geográficos e biografias; dois de diálogos
ideológicos, defensor apaixonado do militarismo, do patriotismo e da ditadura
militar e o seu discurso de posse na AEL, em 1973. Sem nenhuma dúvida, seu
maior legado para o Espírito Santo e para as letras capixabas é a sua criação literária, a introdução do realismo fantástico no Espírito Santo e o amor que tinha à sua
terra natal. Encerro este ensaio com as suas palavras, em seu discurso de posse
na AEL, em 28 de junho de 1973: “Nos livros que escrevi, em todos está minh’alma
genuflexa ante o seu altar.”