Janeiro, 2026 - Edição 310

Otto Lara Resende: Um sujeito delicado e violento

Mineiro de São João del Rei, onde nasceu em 1º de maio de 1922, Otto foi o quarto dos vinte filhos do casal Maria Julieta e Antônio de Lara Resende, que estudou no Caraça e era o dono da escola em que o filho fez, como aluno interno, por nove anos, os então chamados cursos primário e ginasial, em atmosfera marcada fortemente pela tradição católica – o que viria a impregnar fortemente a sua literatura.

Asmático, achou que não chegaria aos vinte anos. Aos onze, passou a manter o diário em que registrava suas aflições e suas paixões secretas. Impossível não pensar no Juca, protagonista da novela Testemunha Silenciosa. Já na adolescência, costumava dizer que seu maior desejo era ser escritor, destino que acabou partilhando com um dos melhores amigos que a vida lhe deu. Foi ainda em sua cidade natal que Otto conheceu Paulo Mendes Campos, quando os dois tinham quinze anos e jogavam basquete em times opostos: este pelo time do Colégio Santo Antônio, aquele pela equipe do “Padre Machado”. Por essa época, Otto já tinha pronto O Monograma, composto por nove histórias, todas a respeito da vida num internato.

A mudança para Belo Horizonte se deu em 1938, onde o pai abrira outra escola. Aluno do curso pré-jurídico do Colégio Arnaldo, Otto ingressou na Faculdade de Direito em 1941, não com a intenção de advogar, mas por considerar que essa era uma etapa natural na trajetória dos escritores brasileiros. O começo na imprensa se deu pelas mãos de João Etienne Filho, depois membro da Academia Mineira de Letras, que trabalhava em O Diário, fundado por Dom Antônio dos Santos Cabral, em 1935. Aí, Otto passou a publicar crítica literária, ainda que não se considerasse plenamente apto para a tarefa, como confessou em carta a Álvaro Lins. Ao mesmo tempo, lecionava Português, Francês e História no colégio do pai.

Mesmo com todas essas ocupações, sua vontade de fazer prosa de ficção não arrefeceu. Em 1944, concluiu outro conjunto de narrativas breves, a que deu o título de “Família” e do qual sobreviveram “O pai”, “A tia” e “O avô”. Um ano depois, já formado, resolveu mudar-se para o Rio de Janeiro, onde já se encontravam os amigos Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Aí, assumiu de vez o ofício de jornalista. Levado por Edgar Godói da Mata Machado, entrou para o Diário de Notícias, depois para O Globo, quando cobriu a Assembleia Constituinte de 1946. Ao longo de sua carreira, também integrou as equipes do Correio da Manhã, da sucursal da Folha da Manhã, do Diário Carioca, de O Jornal, de Última Hora e de Flan. Ainda atuou na revista Manchete, na Rede Globo e, finalmente, como cronista, na Folha de S. Paulo, onde escreveu crônicas de enorme repercussão na página dois, até falecer, em dezembro de 1992.

Otto também foi funcionário público. Em Belo Horizonte, figurou nos quadros da Secretaria de Finanças. No Rio, passou pela controladoria mercantil da prefeitura e, depois, pela procuradoria do estado da Guanabara. Adido cultural do Brasil em Bruxelas, na Bélgica, residiu na Europa por três anos, entre 1957 e 1959.

Lançado pela editora A noite, do Rio, O Lado Humano marcou a estreia de Otto em livro, em 1952, reunindo nove narrativas breves, e apresentando aos leitores um “universo em formação”, onde as primeiras manifestações do que voltaria, com mais força, cinco anos depois, já aparecem com clareza, como se percebe, especialmente, em A Pedrada. Aqui, os protagonistas – dois garotos e uma garota – lançam pedras contra um homem a quem chamam repetidamente, aos gritos, de “veado! veado!”. A líder do trio, curiosamente, é uma menina conhecida por “Juca”, o que causa estranhamento em uma velha que observa a cena de uma janela próxima: “Ué, você tem nome de homem?”, ao que ela responde: “Apelido”, antes de atirar o que lhe restou nas mãos na direção de um poste.

Para Clara de Andrade Alvim, “é fácil perceber [...] a intenção do autor de captar enxutamente episódios triviais de gente comum do meio urbano, em que se revelam comportamentos falhos, tortuosos, preconceituosos e, às vezes ao contrário, muito virtuosos – o lado humano”. Em Das Dores, Otto narra a aproximação amorosa entre Lourenço Marques, um homem casado, e a suburbana Sônia (que, na verdade, é Das Dores), charmosa balconista de uma loja de roupas do centro. Lírico e suave, o conto flagra uma delicada e fugaz história de amor em meio à agitação e aos ruídos da metrópole. Em O Morto Insuspeito, Josias é o cidadão que se vê atarantado e perdido entre guichês de repartições públicas depois de ler, no jornal, o convite para o enterro de alguém com o mesmo nome que o seu.

Segundo Augusto Massi, os nove contos do livro “remetem ao Rio de Janeiro, início da década de 1950, sob uma atmosfera conservadora e burocrática. Homens e mulheres se contemplam no espelhinho da infelicidade, hesitam entre pequenos poderes e imensos pudores, entre recato público e vida dupla. Otto se insinua pelas frestas ficcionais da classe média, atritando ainda mais as relações entre sociabilidade e sexualidade, vizinho de A Vida como Ela É (1951), de Nelson Rodrigues, e Novelas Nada Exemplares (1959), de Dalton Trevisan.

Em 1957, apareceu Boca do Inferno, um conjunto de sete contos sobre o universo infantil, suas sombras e perversões, todos ambientados no interior. A repercussão da obra foi intensa. Em pouco tempo, recebeu mais de trinta resenhas, a maioria desfavorável, como as assinadas por José Roberto Teixeira Leite, Assis Brasil, Roberto Simões, Temístocles Linhares, Ruy Santos e Reynaldo Jardim. Rubem Braga não conseguiu esconder seu desconforto: “A sucessão desses sete contos é angustiante, o leitor não espera nunca nada de bom – e afinal quase sempre acontece o pior. Como em seu livro anterior, O Lado Humano, Otto vê a parte miserável, humilhante, embora escreva essas histórias torpes em uma linguagem limpa e cheia de pudor.” Só Eduardo Portella e Hélio Pellegrino emitiram pareceres receptivos. Paulo Mendes Campos escreveu: “Eis aqui um livro de contos e sem literatura. As sete narrativas reunidas em Boca do Inferno são descarnadas, agressivas e deprimentes como argumentos cinematográficos do neorrealismo italiano. Os enredos esquemáticos pouco importam: o ângulo quase de documentário em que se coloca o narrador dessas sete histórias sobre meninos define o livro.”

Publicada originalmente sob o título de O Carneirinho Azul, em 1962 (na coletânea O Retrato na Gaveta), na novela que Otto depois rebatizou como A Testemunha Silenciosa, o protagonista é, mais uma vez, uma criança vivendo em uma cidade pequena. Oprimido pela mesquinhez das relações sociais e familiares de sua Lagedo natal, de onde planeja escapar, assim que possível, o menino ainda presencia um crime sobre o qual não pode falar uma palavra, o que o deixa ainda mais angustiado. De O Retrato na Gaveta também fizeram parte contos como Os Amores de Leocádia, O Gambá, Boa Noite, Vigia, Gato Gato Gato e Todos os Homens São Iguais. Outra novela de Otto, A Cilada, de 1964, saiu primeiro numa coletânea de contos intitulada Os Sete Pecados Capitais, organizada por Ênio Silveira, da editora Civilização Brasileira, sendo a história sobre a avareza.

Considerado por Carlos Heitor Cony como o melhor texto de Otto, nele aparece o personagem Tibúrcio, que entrou rapidamente para a galeria dos tipos mais marcantes da literatura brasileira. Como explica Cristóvão Tezza: “Dessa nítida moldura narrativa vai emergindo a figura grotesca de Tibúrcio, inteiramente composto pelo implacável olhar do povo – e aqui a frase feita, o lugar-comum, o dito popular ou o simples preconceito imemorial vão costurando a imagem do mundo e dos seres, como a única possível; todas as metáforas, breves imagens, sombras bíblicas, paralelos morais ou edificantes, vão sendo arrancados dessa voz coletiva e congelada, que soam tão mais verdadeiros quanto mais pitorescos parecem [...] ” Em 1963, com a publicação de seu único romance, O Braço Direito, que ele reescreveria pela vida afora, Otto convida os leitores, de novo, a um passeio por Lagedo, cidade fictícia que já aparecera em A Testemunha Silenciosa. O personagem-narrador é Laurindo Flores, que trabalha no Asilo da Misericórdia, cuidando dos órfãos que nele residem. É Ana Miranda quem resume: “O livro nos mostra disputas de poder, humilhações, hipocrisias, avarezas, injustiças, crueldades, doenças, mortes, o mal, enfim. [...] Se pretendia escrever uma obra-prima, ele o conseguiu, plenamente. O Braço Direito é um romance precioso, livro de uma vida inteira, um livro único, originalíssimo, repleto de significados, construído com o mais pungente amor pela literatura.”

Doze anos depois, retornando às narrativas breves, Otto lançou As Pompas do Mundo, conjunto integrado por sete enredos, entre os quais Bem de Família, O Elo Partido, O Guarda do Anjo, Viva la Patria, A Sombra do Mestre e Mater Dolorosa, além de A Cilada, aí republicada. Em 1991, lançou a última coletânea, O Elo Partido e Outras Histórias. O escritor mineiro faleceu em 28 de dezembro de 1992.

Entrevistado por Paulo Mendes Campos em 1975, para a revista Manchete, ao responder sobre quem era Otto Lara Resende, ele respondeu: “A ideia que faço de mim? Um sujeito delicado e violento. Delicado pra fora, violento pra dentro. Um poço de contradições. Um falante que ama o silêncio. Um convivente fácil e um solitário. [...] Solicitude e esquivança compõem meu espectro. Gosto de partilhar, de participar, sou bisbilhoteiro, abelhudo. Gostaria de ajudar todo mundo. Gostaria de viver todos os lances, estar presente. E gostaria também de estar ausente, sumido, fora do mundo”.

Por Rogério Faria Tavares, jornalista, doutor em Literatura e presidente emérito da Academia Mineira de Letras.