Janeiro, 2026 - Edição 310

Os senhores da palavra nas atas acadêmicas

A Academia Brasileira parece ser um infindável repositório de histórias e casos espirituosos e mesmo jocosos, devidos à personalidade de cada um ou aos tratos de convivência entre os seus acadêmicos. Em cento e trinta anos de história, inúmeras são as situações dignas de registro, perpetuando ditos, chistes e tretas entre personagens cuja memória mostra-se no mínimo de interesse para conservação. A presença óbvia de Josué Montelo nesses territórios da memória acadêmica, entretanto, não esgota o repertório, já que outros a esse trabalho podem se dedicar. De concreto, liste-se o livro Os Senhores da Palavra: Academia Brasileira de Letras humanas e bem-humoradas, de Murilo Melo Filho, como espécie de continuador do trabalho de Montelo nesse gênero de registros.

O acadêmico Murilo Melo Filho, advogado, jornalista e escritor potiguar, ocupou na Academia Brasileira de Letras a cadeira 20. Os Senhores da Palavra foi publicado pela Topbooks, em 2014, e desfila por catorze capítulos e duzentas e noventa e nove páginas de casos acerca de oitenta acadêmicos, todos falecidos à altura. Essas coleções de casos, histórias e ditos espirituosos, recolhidos (quando não reconstituídos) da boca de personalidades literárias relevantes, prestam grande serviço à história literária nacional, obviedade que tive ocasião de registrar quando me referi aos Anedotários da Academia recolhidos por Josué Montelo, nome inigualável também nesse domínio das letras. Reconhece-o, a propósito, o próprio Murilo Melo Filho, que, na “Explicação” prévia ao texto, afasta a “petulante pretensão” de dar “continuidade ou desdobramento” ao Anedotário de Montelo. E registrou constatação que entrega a generosa intenção porque se guiou ao selecionar e registrar os casos: “de quase todas elas [as notas] seus personagens renascem maiores e melhores.” Não se procure, portanto, a crítica desmoralizante ou destrutiva, mas a exposição de fato curioso, a realçar algum traço da personalidade do enfocado. Tudo no intuito de servir à memória da Academia, eis que esta, “vetusta por natureza, nem por isso dispensa o humor, presente em muitos casos e episódios”, registrou o acadêmico Evanildo Bechara na orelha do livro.

Creio ser essa, a de recolher histórias, casos, ditos e chistes, uma preocupação legítima: útil ao convívio dos confrades, exemplo para outras associações, repositório de informações pessoais e institucionais, registro de tempos únicos que, se assim não fosse, não mais seriam lembrados.

Uma tal recolha deve obrigatoriamente incluir a consulta às atas – aliás, uma das fontes utilizadas por Murilo Melo Filho –, pois a riqueza dos registros das atas da Academia Brasileira, do PEN Clube, das associações regionais (de inegável interesse no âmbito das suas respectivas atuações), não pode e não deve ser desprezada. E não me faço genérico nesta passagem: longe da pretensão de imitar Montelo ou Murilo Melo Filho, já tive oportunidade de comentar para a Folha Literária, da Academia Espírito-santense de Letras, trecho de ata constando requerimento ao pobre secretário, por um acadêmico a quem fora negada a proposta de transcrever no documento discurso de um ministro francês, que então se transcrevessem as obras de Machado de Assis. Situação salva por um outro acadêmico, sugerindo que o proponente indicasse qual dentre as produções de Machado merecia ser transcrita em primeiro lugar. Enfim...

Por Getúlio Marcos Pereira Neves, membro do PEN Clube do Brasil