Jeneiro, 2026 - Edição 310
O palimpsesto de Annie Ernaux
Engana-se o leitor que pensa que vai ler de uma sentada
as 219 páginas de Os Anos (SP: Fósforo, 2022), de Annie Ernaux
(1940-). Os anos de que ela fala passam lentamente, mas arrastando tudo como um rio turbulento que leva casa, pedaço de
madeira, bicho morto e o que mais encontrar em suas margens.
Assim Os anos arrastam as lembranças, os acontecimentos, que
arrastam outros no seu bojo, como na ideia de tempo de Zenão;
são os fatos mais importantes da memória coletiva do século XX,
com seus desdobramentos e fantasmas do passado da vivência da
autora, em imagens e vozes que vêm do tempo recuperado, desde
a tenra infância no interior da França, onde nasceu em 1940, até
o momento de maturidade em que escreve essas memórias e tem
“a sensação de que o livro está se escrevendo sozinho a partir dos
rastros dela” (p. 129).
Por isso a leitura lenta que o livro exige, pois assiste-se ao
desfile da história como num filme documentário em que a retrospectiva segue linearmente os anos que passam, como as folhas de
um calendário que vão se soltando uma a uma e se perdendo no
tempo, levadas pelo vento, ou um palimpsesto em que a História
vai se reescrevendo ininterruptamente.
São as vozes que vêm da privação, da pobreza de antes da
guerra em que todos estavam mergulhados “em uma noite imemorial, no próprio ‘tempo’” (p. 24) quando moravam em casas de
chão batido, lavavam roupas com cinza de madeira, usavam panelas escurecidas sem cabos, casacos remendados; as bonecas eram
de pano, as crianças eram comportadas e temiam os adultos, mas
se encantavam com suas histórias que transmitiam a memória do
passado. E toda família perdia uma criança por doença inesperada.
Um dos recursos da autora é olhar as suas fotos, mesmo
desfocadas, e da família, mais os colegas de estudo e amigos, um
grande álbum de família – às vezes com nostalgia pelas mãos que
não podem mais ser apertadas – para falar da passagem do tempo
nos cabelos, no rosto cada vez mais magro de hoje, nas mudanças
e perdas. Para ela, no entanto, o importante é “capturar a duração
que constitui sua passagem pela terra...” (p. 216). Annie não se
exime de autocrítica na longa jornada da vida e relata corajosamente seu desconforto tanto na família quanto no casamento, do
qual após alguns anos se desgarrou, dos amantes que teve, da mãe,
avó, que foi, e é, de dois filhos e netos. Da professora de ensino
médio por mais de trinta anos, e leitora apaixonada até tornar-se a
primeira escritora francesa premiada pelo Nobel em 2022, foi um
longo e árduo caminho.
Outro recurso que utiliza para criar
distanciamento e isenção é o uso da terceira pessoa do discurso em que se coloca
como observadora e personagem, com o
objetivo de ver-se inserida no contexto
social, como a parte de um todo:
“Assim, a forma de seu livro só
pode surgir de uma imersão nas imagens da sua memória para detalhar os
traços específicos da época do ano, mais
ou menos precisos [...]. Aquilo que este
mundo inscreveu nela e em seus contemporâneos lhe servirá para reconstituir um
tempo comum [...]” (p. 216).
Não fossem também a maestria e
perspicácia de uma grande observadora
de seu/nosso tempo, o relato autobiográfico seria apenas mais um saído dentre
os inúmeros testemunhos do pós-guerra
na Europa. O que faz toda a diferença é
o olhar crítico, imparcial sobre a sociedade e a política da França. Esse, aliás, é
o ponto forte do livro, pois Annie Ernaux
traz os acontecimentos em que a participação da juventude para reformas do
ensino, como o Maio de 68, foi decisiva
na luta contra o autoritarismo de séculos no ensino francês e mundial.
Aindaas mudanças na política com a subida da esquerda ao poder nos
anos 1980, com François Mitterrand, quando milhares de pessoas
“jovens, mulheres, operários, professores, artistas e homossexuais,
enfermeiras, carteiros” (p. 130) queriam reescrever a história outra
vez, desde a Frente Popular, de 1936. Diz ela:
“Era necessário ocupar o passado outra vez, retomar a
Bastilha, se embebedar de símbolos e de nostalgia antes de enfrentar o futuro. As lágrimas de Mendès France ao abraçar Mitterrand
eram nossas. Foi engraçado ver os mais ricos assustados fugindo
para a Suíça para esconder seu dinheiro, e foi preciso tranquilizar
as secretárias que estavam persuadidas de que seu apartamento
seria estatizado.” (p. 130).
A segunda metade do século 20 foi um período de avanços
inimagináveis na sociedade francesa, como a abolição da pena de
morte, para citar apenas um exemplo fundamental. Mas os tempos
também sopraram em direção contrária. Vieram crises e a extrema
direita reapareceu na figura de Jean-Marie Le Pen, determinada a
desfazer o que o governo anterior fizera. Era o retrocesso. E, em
meio às mudanças políticas, outras vieram modernizar os costumes e a vida das famílias, como os novos eletrônicos e as máquinas
que facilitavam o serviço doméstico; a nova música que chegava
da América e da Inglaterra, as novas vestimentas e cabelos longos
mostravam a rebeldia dos jovens. Como mulher, Annie destaca
a invenção da pílula anticoncepcional – quase uma revolução
copernicana – que tornou a mulher dona do próprio corpo e da
sua sexualidade.
E mais mudanças importantes chegavam do Leste: o Muro
de Berlim desabara em 9 de novembro de 1989. Assim como a
Guerra da Argélia, nada escapou do crivo justo da autora para o
conhecimento da história recente, com o olhar sensível e humano
de quem vê com acuidade o mundo em que vive/vivemos.
E é com um final belo e nostálgico que encerra e declara o
seu propósito da escrita do livro: “Salvar alguma coisa deste tempo
no qual nós nunca mais estaremos.” (p. 219).