Janeiro, 2026 - Edição 310
O farol de Darcy Ribeiro em um país dividido
Fui convidado pela Casa Darcy Ribeiro como uma das dez personalidades a escrever sobre Darcy, e esse convite me honra de uma
forma difícil de medir. Quando recebi a notícia, a minha primeira
lembrança não foi acadêmica nem institucional. Foi íntima. Lembreime do menino que fui, em Lima, no Peru, observando Darcy Ribeiro
frequentar a minha casa, conversando com meu pai, Marco Antônio
França Mastrobuono, e irradiando uma energia que parecia expandir
as paredes ao redor.
Meu pai tinha sido ministro muito jovem, com apenas vinte e
oito anos, no governo João Goulart. Até a entrada de Ciro Gomes na
política, que assumiu responsabilidades ministeriais aos vinte e sete
anos e meio, ele era o brasileiro mais jovem a ter exercido funções
dessa natureza. Naquele tempo, Darcy Ribeiro também exerceu funções ministeriais no mesmo governo. Com o passar dos anos, circunstâncias políticas levaram minha família a deixar o país, e fomos morar
no Peru, onde passei toda a infância. Darcy também viveu parte de
sua vida fora do Brasil e, nesse período, frequentou a nossa casa em
Lima. Eu era menino, mas nunca esqueci o magnetismo com que ele
falava sobre a identidade latino-americana, como se fosse possível
tocar com as mãos a utopia de um continente que se reconhecesse
irmão de si mesmo. Lembro-me de que ele repetia, com aquela voz
cheia de convicção, que os povos latino-americanos constituíam “a
nossa grande contribuição à história da humanidade”, porque eram
povos novos, em formação, sínteses vivas da diversidade.
Jamais poderia imaginar que muitos anos depois eu me tornaria advogado especializado em direitos autorais, museólogo, antropólogo, pós-doutor em Antropologia Social, autor de livros e artigos
sobre cultura e patrimônio, e que viesse a presidir justamente um
instituto concebido por ele, o Memorial da América Latina. A vida, às
vezes, parece ter um senso de continuidade que só compreendemos
retrospectivamente. Eu cresci ouvindo Darcy falar sobre pertencimento. Hoje, presido uma instituição cuja missão central é iluminar
esse pertencimento. E, diante disso, sinto que a frase de Clifford
Geertz ecoa ainda mais forte: “A diversidade humana não é um fardo,
é o ambiente onde a cultura floresce.” Darcy compreendia isso de
forma profunda e visceral.
Darcy tinha um entendimento sofisticado de que a cultura é
o arcabouço invisível que sustenta a vida coletiva. Para ele, a identidade nacional e a identidade latino-americana não eram abstrações
retóricas. Eram projetos concretos, materiais, educacionais. Criou
a Universidade de Brasília, imaginando-a como um laboratório
intelectual para o país que ainda não existia, mas precisava existir.
Concebeu o CIEP, Centro Integrado de Educação Pública, símbolo
de uma revolução silenciosa em que educação, cultura e proteção
social caminhavam juntas. Darcy dizia que “a crise da educação no
Brasil não é uma crise, é um projeto”, e por isso imaginou políticas
capazes de romper com o destino previsto para milhões de crianças
brasileiras.
Essa visão influenciou políticas posteriores, como o projeto
dos CEUs em São Paulo, na gestão de Marta Suplicy, e ecoou longe
das fronteiras brasileiras. Medellín, considerada uma das cidades
mais violentas do mundo, transformou-se ao abraçar uma estratégia
muito parecida: bibliotecas-parque, centros culturais, equipamentos
educativos descentralizados, aprendizagem como eixo de pacificação. A antropologia sempre reconheceu o poder dessas estruturas
de convivência. Não por acaso, Lévi-Strauss afirmava que “quanto
mais singular um povo, mais ele fala à humanidade inteira”. Darcy
compreendia essa singularidade latino-americana como uma força
civilizatória.
O Memorial da América Latina, que Darcy imaginou como um
altar laico das identidades que formam o continente, é expressão
dessa filosofia. Ele jamais quis um monumento estático, mas sim uma
usina de encontros, debates, pertencimentos e futuros. Transformou
o Memorial em cátedra da UNESCO porque via na América Latina
não apenas uma soma de países, mas uma constelação de histórias
capazes de produzir um destino comum. Darcy era um artífice da
esperança. O Brasil fazia sentido para ele apenas quando dialogava
com o continente ao qual pertence. A própria obra de Néstor García
Canclini, ao falar das culturas híbridas que compõem a América
Latina, parece comentar diretamente o projeto de Darcy: a hibridez
não é uma fragilidade, mas uma potência.
Hoje, quando observo o mundo e o Brasil, sinto uma falta
profunda desse olhar. Vivemos uma era em que a polarização se
converteu em doença autoimune. Uma parte significativa do país
rejeita a outra, como se estivéssemos condenados a uma guerra civil
simbólica. As últimas eleições revelaram um país dividido de maneira
quase espelhada, e o ódio disseminado como linguagem política tem
produzido um esgarçamento do tecido social que ameaça a própria
noção de convivência democrática. Esse ambiente tóxico compromete o desenvolvimento econômico, a estabilidade institucional
e a saúde cívica de um povo que, até pouco tempo atrás, era reconhecido mundialmente como tolerante, cordial, afetuoso, caloroso
e profundamente aberto à diversidade. Darcy certamente diria que
estamos desperdiçando aquilo que temos de mais valioso. E estaria
certo quando afirmava que “só há duas opções nesta vida: se resignar
ou se indignar; eu não vou me resignar nunca”. Sua indignação era
pedagógica.
O Brasil é um país singular. Nenhum outro lugar do mundo
possui uma identidade tão amplamente miscigenada a ponto de
permitir que qualquer rosto possa ser um rosto brasileiro. Esse patrimônio antropológico extraordinário, essa multiplicidade étnica, linguística, religiosa e cultural, faz-nos um povo de sínteses raras. Somos
filhos de todas as travessias e herdeiros de todas as dores. A força da
nossa formação nunca esteve na homogeneidade, e sim na complementaridade. Somos, como Darcy escreveu, povos novos, sociedades
em elaboração, culturas em movimento. Roberto DaMatta, ao analisar a sociedade brasileira, sintetizou algo essencial: o Brasil vive da
arte de misturar. É justamente essa arte que parece estar se perdendo
em meio a disputas irracionais.
Por isso é tão doloroso assistir ao crescimento da intolerância
num país cuja riqueza sempre foi a capacidade de acolher. Darcy
Ribeiro faz falta porque oferecia uma pedagogia da conciliação, não
no sentido frágil de acomodar conflitos, mas no sentido forte de
educar para a convivência. Sua obra é uma convocação para que o
Brasil se reconheça como país plural, mestiço, continental. Darcy
acreditava que não há futuro para nações que não respeitam as diferenças dentro de si. A antropologia lhe ensinou que povos sobrevivem
quando aprendem uns com os outros. E ele traduziu esse ensinamento em políticas públicas, universidades, instituições culturais, livros,
discursos, projetos e sonhos.
Como brasileiro, sinto uma angústia profunda ao ver que a
identidade que sempre nos distinguiu está sendo corroída por disputas irracionais. Sinto que perdemos a disposição para ouvir. Sinto
que o ódio está substituindo a imaginação. Sinto, sobretudo, que uma
grande maioria silenciosa está cansada de ser arrastada para trincheiras ideológicas que só enfraquecem o país. Darcy Ribeiro sempre
acreditou que a educação era o centro ativo do futuro. Retomar seu
pensamento não é um gesto nostálgico, mas um imperativo ético.
Ele mesmo dizia que “o que mais quero é que o Brasil descubra a si
mesmo”. Essa frase, hoje, ressoa como advertência e esperança.
Fui menino quando o vi pela primeira vez, e não compreendia
sua densidade intelectual. Hoje, adulto, acadêmico, gestor público
e presidente do Memorial da América Latina, reconheço que Darcy
Ribeiro não foi apenas um nome importante para o Brasil. Ele foi um
farol. Escrever sobre Darcy é escrever sobre um Brasil que ainda é
possível. Um Brasil que não teme a diversidade, que não demoniza a
diferença, que sabe que a cultura é a argamassa da democracia e que
entende que um país só se constrói quando respeita a pluralidade de
seus próprios filhos.
O Brasil está necessitado, mais uma vez, da coragem civilizatória de Darcy Ribeiro. E cabe a nós, herdeiros de sua obra, garantir que
essa coragem permaneça viva.