Janeiro, 2026 - Edição 310
Álvaro Pacheco e Francisco Miguel de Moura: o tempo e os fantasmas
Venho proclamar louvores aos tesouros sentimentais oriundos do
interior do Piauí. Refiro-me aos escritores da minha predileção: Álvaro
Pacheco e Francisco Miguel de Moura.
Ambos nasceram no ano de 1933 e são membros efetivos da centenária Academia Piauiense de Letras (APL), sendo Álvaro, um filho ilustre
da cidade de Jaicós, e Francisco, de Picos.
São dois brilhantes intelectuais que fizeram história e literatura.
Estão vivos e consagrados. São os maiores nomes da poesia piauiense.
Donos de obras literárias valiosas e elogiadas por gente de proa deste
Brasil.
Álvaro Pacheco foi Senador da República e Jornalista, participante
da reformulação do Jornal do Brasil em 1956, ao lado de Reynaldo Jardim
(1926-2011), Ferreira Gullar (1930-2016), Carlos Castelo Branco (1920-
1993) e Mário Faustino (1930-1962). Era Editor e proprietário da Artenova,
que publicou livros seminais e em primeira edição, de autores excepcionais como Clarice Lispector (1920-1977) e João Ubaldo Ribeiro (1941-
2014).
Francisco Miguel de Moura faz parte de uma geração que repensou o
Piauí das letras dos anos 1960 do século passado, composta por Herculano
Moraes (1945-2018), Hardi Filho (1934-2015) e Tarciso Prado (1938-2018).
Escritor completo, Chico Miguel, como é carinhosamente conhecido, é
romancista, contista, cronista e crítico literário. A poesia de Álvaro Pacheco
e de Francisco Miguel de Moura está mergulhada no despedaçamento da
dor humana. Os poetas trabalham com temas caros à essencialidade da
existência: tempo, memória, morte e o esvaziamento da eternidade. Além
disso, impressionam pela impecável riqueza da linguagem.
Álvaro Pacheco é daqueles artistas que fascinam pela terrível
pulsação da sensibilidade. É um predestinado que oferta a sangria das
suas experiências e a força da sua alma evoluída: “Guardei muitas lembranças para o meu manuscrito / e inumeráveis eventos gravaram nele
seus autógrafos: / talvez seja esse / meu único legado.”
O ritmo lírico de Álvaro Pacheco intensifica os instantes, os gestos,
a solidão, os sonhos, a geometria dos ventos, a epifania das estrelas e os
itinerários da própria vida. Poeta de energia selvagem, que faz do seu dom,
uma mística do encantamento: “A dor da alma conheci demais e meu
corpo / poupou-se pelos medos incontáveis.”
Francisco Miguel de Moura é um ser admirável. Homem simples e
generoso, que tenho o privilégio de conhecer de perto.
Os tons da poesia de Chico Miguel têm uma fluidez peculiar e
muito inteligente, que agregam um universo mágico e passional: “Sou
perfume de mim e odor do mundo/ para que a terra me cuspa.”
Íntimo dos sonetos, as imagens e as águas do seu discurso são uma
busca incessante pela beleza: “Tu brincavas na areia, ondas salgadas /
vinham quebrar-se nos teus pés sem pejo.”
Destaco que Álvaro Pacheco e Francisco Miguel de Moura estão
presentes em uma clássica coleção da poesia brasileira intitulada 50
Poemas Escolhidos Pelo Autor, das Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro,
que contempla nomes importantes como Anderson Braga Horta, Gilberto
Mendonça Teles, Lêdo Ivo, Carlos Nejar, Antonio Olinto, Antonio Carlos
Secchin, A.B. Mendes Cadaxa, Astrid Cabral, Emil de Castro, Gabriel
Nascente, Afonso Henriques Neto, Ives Gandra Martins, Lina Tâmega
Peixoto, Lourdes Sarmento, Darcy França Denófrio, Diego Mendes Sousa,
Marcus Vinicius Quiroga, José Inácio Vieira de Melo, dentre outros notáveis.
Álvaro Pacheco apareceu no volume 17 (no ano de 2006), enquanto
Chico Miguel de Moura, no volume 65 (no ano de 2013).
Álvaro Pacheco e Francisco Miguel de Moura são valores da poesia
da atualidade que merecem aclamação pela qualidade e quantidade da
produção e, sobretudo, pela inestimável elevação da cultura literária em
nosso país.
Poemas de Álvaro Pacheco escolhidos por Diego Mendes Sousa:
Os fantasmas
Abro a gaveta
onde se esconderam uns fantasmas
e eu guardei outros, disfarçados de palavras,
camisas limpas que não pude vestir
e papel em branco, envoltos
em ninhos de sombras
e pedaços de luz
da lamparina de azeite
do oratório de minha mãe
Abro a gaveta
vagarosamente, assustado
para que não me assustem
como quando era menino
e os temia
mas conversava com eles
na escuridão do quarto.
Tenho medo da gaveta
e desses seus conteúdos
que poderão trazer de volta os fantasmas,
os que guardei e os que se esconderam
Apenas esperando o tempo
de se apresentarem à minha solidão
e desesperança
para cobrar a vida que não tivemos
eu e os meus predecessores, eu
e os meus perseguidores, eu
e os que não me amaram, eu
e os que não pude amar
Esses fantasmas todos
perdidos e escondidos
nestas gavetas de ventos e de fantasias
entreabertas pelos vácuos de minha vida
e depositárias, como fantasmas,
dos anseios do tempo inteiro,
e do que restou de minha inocência
dos anos de luz, esses curtos anos
de mitos e fantasias
realizados no cristal da infância.
=
Os mortos
Nem sempre
se podem evitar os mortos
e lamentar seu convívio com as flores
que pretendem cultivá-los,
como os asfódelos, os jacintos
os lírios e as camélias,
mas lhe deformam a palavra
e os afastam
do pudor dos vivos.
Os mortos são mais íntimos
dos ciprestes e dos plátanos
– que representam a eternidade vegetal –
e talvez dos girassóis
que inspiram a luz,
que neles já se extingue
quando são colhidos.
Os mortos jamais ficam nos cemitérios:
por causa das flores,
perambulam pelos jardins
à procura das que ainda estão vivas
e podem perceber suas presenças
como não acontece
com as que os viram morrer.