Janeiro, 2026 - Edição 310

A proibição do descanso

Quem proibiu o descanso? Quem incompreendeu que, entre os dias, há a noite que, entre as noites, há o dia? Que entre as notas, que fazem música, há a pausa, que, entre as pausas, há as notas que fazem música?

Há o arar, com as mãos, a terra do mundo. E há as mãos em oração. Há as mãos em oração, acreditando nas mãos e na oração. Nas mãos que oferecem abraços e perfumes e alimentos e cobertas para aliviar o frio. O frio do mundo.

Entre os tempos frios, há o tempo quente. Entre os tempos quentes, há o tempo frio. Há o tempo do crescer, que é sagrado. Que, quando se lhe apressam, se desperdiçam os tempos. Os tempos tantos entre a chegada e a partida. Os tempos das paisagens.

As paisagens nascem no descanso, quando se tem tempo para ver. Para ver o mundo nos olhos que temos e não em outros. Para falar com o mundo, com as bocas que temos. E com os ouvidos que temos para ouvir. Ouvir o silêncio é acreditar nas mãos e na oração. Ouvir o silêncio é ouvir o mundo inteiro e não a parte dele que nos parte.

Parte do mundo é barulho. É cobrança. É desrespeito.
Ouvir o silêncio é ouvir o mundo, também, de dentro. E os limites que temos. E a solidão bonita de lembrar que um dia vamos. Se um dia vamos, por que os cansaços? Se um dia vamos, por que os exageros? As mãos que temos não fazem tudo. Tampouco os pés. Não há por que andar sem paradas. Sem paradas, não há fotografias. Sem paradas, não há o instante silencioso do amor.

O amor é uma parada no tempo. O amor é um aconchego entre a chegada e a partida. O amor é a vitória sobre os barulhos de fora e de dentro. Ninguém abraça a si mesmo. A proibição do descanso é indevida. A vida deve ao descanso seus respiros elevadores.

Nascem crianças, crianças que dormem, que espreguiçam sem preocupações o corpo que vai crescer. Crescemos esquecendo. Do bonito do despreocupar, do sorrir da brincadeira mais simples, do colo seguro do descansar. Os cansaços dos que descansam impedem o bonito, impedem o ver, o falar, o ouvir. Nos barulhos cansados, ninguém ouve ninguém. E não há abraços. E, então, a vida que nasce todos os dias não nasce. Porque o hoje é ainda ontem com todos os barulhos que ficaram pela proibição do descanso.

Com a proibição do descanso, o amor deixa de apresentar pessoas e paisagens e orações. A maturidade precisa nos devolver o bonito da infância. Se, na infância, víamos a margem da chegada e nos despedíamos dela, aos poucos, na maturidade, vemos a margem da partida. E vemos o que partiu no atravessar da vida. E vemos o pensamento. Vemos, se não autorizarmos a proibição do descanso.

Por Gabriel Chalita, membro da Academia Paulista de Letras.