Maio - 2026 - Edição 312
Xingamento
a lâmpada fluorescente , mas o tama nho não era o mesmo do bocal.” Pequena moto “Isabela queria uma miniatura da moto de seu avô, ela queria uma motinha.” Não vai ganhar! Frase correta: “Isabela queria uma miniatura da moto de seu avô, ela queria uma motinho .” Contando o tempo “A cerca de 27 anos Luciana conheceu o mari do e, desde então, vive feliz.” Duvido! Ela está empregando de forma errô nea a expressão. Veja: A cerca de – espaço aproximado de tempo (que ainda não passou) ou distância aproximada. Há cerca de – espaço aproximado de tempo (que já passou) ou quantidade aproximada. Período correto: “ Há cerca de 27 anos Luciana conheceu o marido e, desde então, vive feliz.” Médico juvenil “Henrique levou seu filho ao médico ebiatra.” Como? O correto é Hebiatra , o nome do médico especialista em atender jovens e adolescentes (10 a 18 anos). Frase correta: “Henrique levou seu filho ao médico hebiatra .” Antissemitismo con temporâneo e violên cia simbólica Por Ana Maria Bernardelli* Um ensaio sobre memória, ódio e responsabilidade Havia velas acesas. Não como metáfora literária, mas como gesto antigo: pequenas chamas dispostas contra a noite, insistindo em permanecer. O atentado ocorrido em Sydney durante uma celebração de Hanukkah não pode ser lido apenas como um episódio de violência extrema, circunscrito a um tempo e a um lugar específicos. Ele se apresenta como sinal perturbador da permanência histórica do antissemitismo enquanto estrutura simbólica ativa, capaz de atravessar séculos e adaptar-se continuamente às linguagens do presente. Longe de constituir um desvio isolado, o ataque insere-se em uma longa cadeia de acontecimentos que revelam como o ódio ao judeu opera como lógica recorrente de exclusão. O antissemitismo não funciona como simples preconceito individual ou falha moral pontual. Trata-se, antes, de uma racionalidade do ódio: um mecanismo coletivo que organiza frustrações sociais e crises identitárias por meio da eleição reiterada de um inimigo his tórico. Hannah Arendt já advertia que o antissemitismo moderno não é um resíduo medieval, mas produto da fragilização das estruturas políticas e do espaço público. A história judaica, marcada pela diáspora, pela perseguição e pela resis tência, construiu-se sob o signo da memória. Não se trata de uma memória da direita para a esquerda. Ex.: radar, luz azul, ame o poema, amor a Roma, a droga da gorda, o galo no lago etc. Divergência “A opinião dos advogados de defesa do réu deferiu sobre o encaminha mento do processo criminal.” Seria natural e chegariam a um consenso se o verbo usado fosse correto. Observe: deferir – atender a algo que é requerido ou pedido diferir – divergir Frase correta: “A opinião dos advogados de defesa do réu diferiu sobre o encaminhamento do processo criminal.” Imprevisibilidade As obras de prevenção a acidentes contra os temporais nas regiões litorâneas foram suspensas sine die . Muito triste, mas a prioridade foi dada à construção de novas casas. A expressão latina sine die é comum, isto é, já faz parte do nosso linguajar e quer dizer: sem dia marcado para recomeçar. Problema dermatológico “A eczema do rosto da jovem não melhorou depois do uso da pomada que sua tia recomendou.” Não há remédio que cure “a eczema”. Período correto: “ O eczema do rosto da jovem não melhorou depois do uso da pomada que sua tia recomendou.” Faltosos “Uma e outra aluna erraram o trabalho passado pelo professor.” Se não fosse o problema do erro, estaria tudo certo. A expressão uma e outra admite o verbo no plural, o que é mais usual, mas no singular também está certo. Observe no singular: “ Uma e outra aluna errou o trabalho passado pelo professor.” passiva ou meramente comemorativa, mas de uma memória ética. Há aqueles que afirmam que os judeus têm o dever de continuar existindo enquanto judeus, para não conceder ao nazismo uma vitória simbólica póstuma. Cada ataque contemporâneo, portanto, não fere apenas indivíduos, mas tenta rom per uma continuidade histórica sustentada pela transmissão cultural. O fato de a violência ter ocorrido durante Hanukkah – festa da luz e da resistência – intensifica a perversidade simbólica do atentado. Quando o sagra do se torna alvo, não se atinge apenas uma comunidade específica, mas a pró pria ideia de convivência plural. Elie Wiesel lembrava que o maior risco moral das sociedades não é o ódio declarado, mas a indiferença que o normaliza. No mundo contemporâneo, o antissemitismo frequentemente se mas cara sob discursos políticos ambíguos, nos quais se confunde crítica legítima a decisões estatais com hostilidade dirigida a identidades coletivas. Essa confu são cria terreno fértil para a estigmatização e para a legitimação simbólica da violência. A advertência de Primo Levi permanece atual: aquilo que aconteceu pode acontecer novamente. Nesse contexto, a reflexão ética proposta por Martin Buber adquire especial relevância. Ao afirmar que toda vida verdadeira é encontro, o filósofo nos lembra que o antissemitismo nega radicalmente a relação, substituindo o rosto pelo estereótipo, o diálogo pela caricatura, o humano pela abstração. Combater o antissemitismo não é tarefa restrita a políticas de seguran ça. Trata-se de um compromisso civilizatório que envolve educação histórica, responsabilidade institucional e vigilância ética permanente. Academias, uni versidades e veículos de pensamento atuam justamente no campo simbólico onde o ódio se forma ou é contido. O atentado de Sydney interpela não apenas a comunidade judaica, mas toda a sociedade. Onde o antissemitismo encontra espaço, a dignidade humana se fragiliza. Defender a memória, recusar a indiferença e sustentar o pluralismo não são gestos retóricos. São como aquelas velas iniciais: frágeis à primeira vista, mas suficientes para lembrar que a escuridão nunca é absoluta – apenas espera que alguém deixe de acender a luz. *Ana Maria Bernardelli é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras