Maio - 2026 - Edição 312
Os gramáticos nas ruas do Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro é reconhecido, entre outros atributos, por seu acolhimento afetivo, um lugar que recebe com braços abertos os que aqui resolvem
viver. Eis por que, a par dos denominados cariocas da gema (cariocas filhos de
cariocas) e dos simplesmente cariocas, há uma legião de cariocas adotados,
possivelmente os mais legítimos, já que neles a carioquice não resultou de mero
acaso geográfico, mas de efetiva escolha pessoal. Esse traço de acolhimento
amoroso é tão expressivo que, pasmem, chega a homenagear os gramáticos com
a atribuição de seu nome a logradouros públicos, sem discriminar os cariocas da
gema dos cariocas adotados. Na verdade, até mesmo alguns filólogos que sequer
pisaram este solo abençoado por São Sebastião gozam do privilégio de ter seu
nome perpetuado em nossas vias públicas.
Esse é um fato deveras surpreendente se considerarmos que o gramático, no imaginário social, não é, por assim dizer, alguém digno de louvores. Com
efeito, em nossa mente predomina a figura do gramático caturra, um indivíduo
ranzinza, de mal com a vida, que resolve curar o próprio despeito infernizando a vida do cidadão com regrinhas impertinentes e pronto para apontar-nos
um solecismo com o dedo em riste. Conforme certa vez disse Luís Fernando
Veríssimo, “a gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que
manda”, por sinal um vaticínio que se realiza diuturnamente nos tempos hodiernos. Pois bem, como disse, até mesmo esses tipos rejeitados residem no coração
do Rio de Janeiro, a julgar pelo número de ruas e até mesmo de um bairro que
projetam seu nome.
Decerto que, se o assunto é homenagem, os gramáticos não são páreo
para os políticos, campeões de elogios fervorosos, sequer dos marqueses, barões
e viscondes, legado de um espírito monárquico que se enraizou no Rio de
Janeiro a ponto de batizar até escolas de samba e blocos de Carnaval. Por sinal,
quem circula pelo Rio respira ares monárquicos desde a zona norte, em que se
situa a longa e imponente Rua Conde de Bonfim, até a zona sul, com a majestosa Avenida Princesa Isabel.
E, se for para o subúrbio, encontrará o Engenho
da Rainha, bem ao lado de Marechal Hermes e de Deodoro: uma proximidade
que só a geografia pacificadora do Rio poderia permitir. Verdade que o elogio
à República motivou-nos a rebatizar como Avenida Marechal Floriano a antiga
Rua Larga e a atribuir à monumental via que liga o centro à Praça da Bandeira
como Avenida Presidente Vargas, ambas conveniente e afetuosamente situadas
no coração da cidade. Fato é que, entre a monarquia e a república, entre políticos
e artistas, cientistas e religiosos, surpreendentemente figuram aqui e ali homenagens
aos gramáticos e filólogos, conforme se observa no bairro de Anchieta,
embora não se duvide de que a motivação mais se tenha devido a sua relevância
como um dos fundadores da cidade, ou por sua atividade como catequista e missionário,
do que propriamente por sua obra gramatical. Por sinal, a relevância do
jesuíta destaca-se até numericamente, visto que é o único entre os gramáticos
que além de ser nome de bairro, também é nome de duas ruas: uma que, a rigor,
não passa de uma ruela maltratada e esquecida pela prefeitura no bairro de
Paciência e outra no elegante bairro do Leme, fazendo esquina como a Avenida
Atlântica, o que em certa medida simboliza o coração aberto do Apóstolo do
Brasil para ricos e pobres.
Diga-se, de passagem, que a presença do gramático na geografia carioca
está predominantemente situada no subúrbio, alguns em bairros mais prestigiados da zona norte, mas raros são os que mereceram homenagem nos metros
quadrados mais caros da cidade. Entre esses, destaca-se Carlos Góis, que, não
obstante tenha nascido no Rio, cumpriu carreira como promotor de justiça e
professor de português na cidade de Muzambinho, vindo a transferir-se mais
tarde para Belo Horizonte. Gois, que chegou à presidência da Academia Mineira
de Letras, detém o privilégio único entre os gramáticos de ter sido citado por
Carlos Drummond de Andrade em um de seus poemas memoriais, intitulado
Aula de Português: “Professor Carlos Góis, ele é quem sabe/e vai desmatando o
amazonas de minha ignorância. / Figuras de gramática, esquipáticas, / atropelam-me,
aturdem-me, sequestram-me.”
Ao lado de Carlos Góis, o também carioca Alfredo Gomes mereceu o privilégio de perpetuar-se na zona sul, isso apesar das sérias provações por que passou como diretor da Escola Normal em face do excessivo rigor com que tratava as
jovens normalistas. Mas os abaixo-assinados que clamavam por sua exoneração
do educandário não conseguiram ofuscar seu prestígio, tanto que, afinal, seu
nome figura em uma arborizada e simpática rua de Botafogo, decerto um bairro
menos prestigiado do que o Leblon nas calculadoras dos corretores de imóveis.
Com efeito, Botafogo não tem o charme sofisticado do Leblon, mas, dirão seus
habitantes, traz a pujança de um bairro em que a vida fervilha na frenética e
harmônica conjunção de lojas comerciais com prédios residenciais, tudo ao
alcance de alguns passos nas calçadas de pedras portuguesas. Ademais, praia
por praia, a de Botafogo está na história mais remota do Rio, desde os tempos do
capitão-mor João Pereira de Sousa Botafogo, ao passo que a do Leblon carrega o
nome de um francês, Charles Le Blon, cujo maior mérito foi o de plantar cana-
-de-açúcar na região, nada mais ordinário em se tratando de Brasil. E, como se
não bastasse, o Botafogo de Alfredo Gomes acolhe um clube de futebol e regatas
que ostenta hoje os dois títulos mais prestigiados da América, campeão brasileiro e campeão sul-americano, ao passo que o Leblon... bem, lá ainda se veem
redes de frescobol frequentadas por idosos que jogam no time do stent contra o
time da ponte de safena.
Se “atravessarmos o túnel”, conforme dizem os naturais da terra para
referir-se à passagem da zona sul para a zona norte – uma referência afetiva ao
extensíssimo Túnel Rebouças, que liga a Lagoa ao Rio Comprido – logo veremos
uma humilde Rua Quintino do Vale, que, não obstante se situe efetivamente
nesse outrora elegantíssimo bairro, é estranhamente deslocada para o Estácio,
segundo o CEP dos Correios. Mais uma prova de desprestígio do Rio Comprido,
que nos idos do século XIX era reduto de chácaras suntuosas e residências de
gente abastada, conforme comprovam as dezoito referências que a ele dedicou
Machado de Assis em sua obra. Talvez tenha sido a personalidade introvertida
do velho Quintino do Vale, que mais se notabilizou como professor do que como
filólogo, que o tenha desterrado do antigo bairro sofisticado para o popular
Estácio, berço do samba nas camadas populares.
Avançando para a Tijuca, expressão altiva da zona norte, lá encontraremos
a Rua Mário Barreto, uma via pequena em forma de L, e a Rua Carlos de Laet, a
rigor uma ruela sem saída em que casas antigas e bem conservadas alinham-se
com prédios da segunda metade do século passado. Barreto foi efetivamente
filólogo respeitável, não obstante seu amor à sintaxe lusitana lhe conferisse certo
grau de intransigência com os denominados brasileirismos linguísticos, ao passo
que Laet, jornalista e professor de língua portuguesa do Colégio Pedro II, mais se
notabilizou pelos pitacos filológicos de excessivo teor purista. Fundador da cadeira
nº 32 da Academia Brasileira de Letras, onde chegou à presidência em 1919, Laet
morreu inconformado com o golpe que instalou a República e difundiu no Brasil
os princípios positivistas. Católico fervoroso, costumava destilar o sarcasmo na
defesa de suas ideias. Diz a lenda que, ao defender o criacionismo em uma aula
do Colégio Pedro II, foi questionado por um aluno: “Mas, professor, meu pai diz
que nós descendemos do macaco.” Respondeu Laet: “Não me interessam questões
particulares de sua família.”
Interessante notar que, se Mário Barreto mereceu uma rua na nobre Tijuca,
seu pai, Fausto Barreto foi brindado com uma pacata rua residencial na modesta
área da Triagem, um setor de Benfica, onde ainda hoje resistem as casas de dois
pavimentos construídas nas décadas de 1930 e 1940. Curiosamente, Fausto Barreto
e Carlos de Laet são coautores da prestigiada Antologia Nacional, texto cuja primeira
edição em 1895 trouxe em suas primeiras páginas uma renovada proposta de ensino
do português na nova ordem republicana.
Uma incursão mais aguda para o subúrbio nos levará ao Lins de
Vasconcelos, bairro vizinho ao elegante bairro do Méier. No Lins situa-se a rua
Antenor Nascentes, que à semelhança da Carlos de Laet, é uma via sem saída,
um átimo de identidade geográfica entre essas personalidades tão distintas da
filologia brasileira. Diferentemente de Laet, Nascentes viu sucumbir seu propósito de eleger-se para a Academia Brasileira de Letras (ABL) ao ser derrotado por
Adonias Filho em 1965, não obstante tenha recebido o Prêmio Francisco Alves
em 1933 e o Prêmio Machado de Assis em 1962. Também no outrora elegante
bairro do Lins situa-se a rua Heráclito Graça, filólogo cearense que mais se
notabilizou como político de carreira e, diferentemente de seu companheiro de
bairro, efetivamente elegeu-se para a ABL em 1906.
Se avançarmos mais um pouco para o subúrbio carioca, encontraremos
pelo ramal da Leopoldina a Rua Inácio Felizardo Fortes no bairro de Ramos, a
Rua Júlio Ribeiro em Bonsucesso e a Rua Amadeu Amaral em Parada de Lucas.
Mais uma vez comprova-se o coração aberto do carioca aos gramáticos de outras
plagas, já que Júlio Ribeiro, nascido em Minas Gerais, e Amadeu Amaral, natural
de São Paulo, sequer mencionam a Cidade Maravilhosa em sua obra, ao passo
que Felizardo Fortes poucas vezes ausentou-se de sua Cabo frio, onde atuou
como padre secular na primeira metade do século XIX.
Já pelo ramal da Central do Brasil poderemos chegar à Rua Maximino
Maciel em Quintino e à Rua Professor Hemetério José dos Santos no distante
bairro de Inhoaíba, um distrito de Campo Grande. Se a homenagem a Maciel
se fez em bairro equivocado, já que o gramático, médico e advogado sergipano
era bem mais conhecido no bairro de Engenho de Dentro, a lembrança ao nome
do maranhense Hemetério estaria decerto bem mais localizada em rua próxima
ao Colégio Militar do Rio de Janeiro, instituição onde trabalhou como primeiro
professor negro da histórica instituição. Infelizmente, como se não bastassem as
vicissitudes que enfrentou devido ao preconceito racial, Hemetério vê-se agora
em um lugar tão inexpressivo que sequer figura nos aplicativos de GPS ou no
Google Maps.
Por fim, vale lembrar que esta história de homenagear as pessoas como
nomes de logradouros públicos nem sempre é bem-sucedida. Informa-nos Ruy
Castro, em um de seus textos sobre Tom Jobim, que o maestro não aprovava esta
ideia e, muito provavelmente, teria dispensado a láurea de ser nome de aeroporto, até porque lhe causaria certo desconforto virar pista de pousos e decolagens.
Ainda segundo Ruy, ao saber que a Rua Montenegro passaria a ser Rua Vinicius
de Moraes, Tom observou: “agora os carros vão passar por cima do Vinícius e
os cachorros vão fazer xixi nele.”1
Com efeito, às vezes a homenagem vira pelo
avesso e o que era para ser motivo de gáudio torna-se puro constrangimento.
Imagino como se sentiria o gramático maranhense Francisco Sotero dos Reis,
patrono da cadeira 17 de sócios correspondentes da ABL, exemplo perfeito e
acabado de probidade moral, além de católico fervoroso, ao saber que a rua com
seu nome, situada na Praça da Bandeira, passaria a acolher a partir de 1996 as
meninas da Vila Mimosa devido ao projeto de reurbanização da Cidade Nova.
Hoje, quem quiser conhecer a rua nada nela verá que sugira uma gramática, mas,
afinal, nem só de gramáticas é feita a vida.
1. Veja em Castro, Ruy. O Ouvidor do Brasil: 99 Vezes Tom Jobim. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
Por Ricardo Cavaliere é membro da Academia Brasileira de Letras.