Maio - 2026 - Edição 312

George Sand e Gustave Flaubert, duas cabeças, um só coração

Ele foi chamado de idiota por Sartre na monumental obra de mais de três mil páginas, O Idiota da Família. Mas, chamou a si mesmo de “o pobre da família”. Ele é ninguém menos que Gustave Flaubert (1821-1881), o imenso escritor francês que reinventou o romance no século XIX, com Madame Bovary (1857), para escândalo da França conservadora da época.

Homem humilde que se contentava em viver com poucos recursos, não tinha pretensão de ganhar dinheiro com a escrita – pois se achava incompetente para tal – e não se considerava acima de ninguém; ao contrário, achava que havia escritores melhores que ele e que viviam em condições menos favoráveis; logo dizia que não podia se queixar porque possuía um teto e algum rendimento na sua vida reclusa no interior, na pequena Croisset, na região normanda à margem do rio Sena.

Assim falou o grande escritor em carta à querida amiga, e não menos importante, George Sand, pseudônimo de Aurore Dupin (1804-1876). Trata-se de livro da correspondência entre os dois escritores (ele mais jovem, com dezessete anos), que encanta e provoca a leitura já a partir do título, George Sand e Gustave Flaubert – Você ama demais a literatura, ela o matará. (France: Le Passeur, 2021), em tradução livre desta autora.

O que primeiro chama a atenção e encanta o leitor é como duas criaturas díspares puderam tornar-se tão próximas, tão amigas e admiradoras entre si! Ele, um eremita, solteirão recluso, vivendo com a mãe e a sobrinha; ela, casada, mãe de família, cercada por filhos, netos e amigos sem conta. Ele, obstinado na busca do estilo perfeito, trabalhava em ritmo de tartaruga, levando dias para aprontar uma frase. Para ele, a “sacrossanta literatura” ocupava o primeiro lugar em sua vida e reafirmava sua profissão de fé na literatura, cujo ideal é o artista nada mostrar, ocultar-se em sua obra, como Deus na natureza. “O homem não é nada, a obra é tudo”, disse.

Já George Sand escrevia absurdamente rápido produzindo livros em série, tornando-se, pelo talento, a maior escritora francesa do século XIX. Para ela, no entanto, a literatura era secundária em sua vida, pois a família vinha em primeiro lugar; disse que devemos viver para os outros. E disse ainda ao amigo: “Você ama demais a literatura, ela o matará e você não matará a tolice humana.” Aconselhou-o a casar-se (o que rejeitou, já que para ele casamento era algo na categoria do “fantástico”) e aceitar a vida como ela é. Seu nome completo, Amandine Aurore Lucile Dupin, baronesa Dudevant, revela a origem aristocrática, o que não a impediu de ser uma trabalhadora incansável da literatura, produzindo dezenas e dezenas de romances e peças de teatro de grande sucesso na cena parisiense. Foi, portanto, uma mulher de espírito que viveu à frente do seu tempo.

Estamos falando de dois seres admiráveis: ele, um gigante de quase dois metros de altura e olhos muito azuis, pesadão, um perfeito exemplar da Normandia. Ela, mulher encantadora, que no começo da carreira adotou pseudônimo masculino para ser aceita no meio literário, defensora dos direitos das mulheres e, provocadora, fumava em público – o que era inaceitável – e vestia-se com roupas masculinas; e, para mais escandalizar a sociedade, separada, teve inúmeros relacionamentos amorosos, o mais conhecido com o compositor polonês Fréderic Chopin.

A bela amizade que uniu os dois escritores incluía segredos compartilhados e oferta de dinheiro como ajuda nos momentos de dificuldades, com visitas e acolhida calorosa em suas residências. Embora frequentassem assiduamente Paris, ambos viviam no interior: ele, sempre em Croisset – onde se desesperou quando a casa foi ocupada por quarenta prussianos durante a guerra do país com a Prússia, em 1871; ela, em Nohant, residência da avó onde, órfã de pai, cresceu solitária e introspectiva. O que mais dizem as cartas? Dizem muito. Iniciadas no ano de 1866 e indo até 1876, são um testemunho da vida familiar, literária, social de ambos e ainda da vida cultural e política da França.

Verdadeiras preciosidades. Nelas vemos a profunda divergência política entre ambos: ele, conservador, mas não reacionário – ao contrário, tinha ojeriza aos burgueses, sobretudo os provincianos, que ridicularizou em Madame Bovary e no Dicionário das Ideias Feitas –, e disse que estaria sempre ao lado das minorias, dos perseguidos, como os ciganos na Europa, odiados e perseguidos por aquela classe social racista e xenófoba. Ela, republicana fervorosa e socialista, defensora do povo, da igualdade, da democracia, do sufrágio universal, da educação das pessoas, foi fiel ao Romantismo com histórias ingênuas e poéticas. Ele inaugurou a nova escola do Realismo. Ela, otimista; ele, pessimista. Mas a divergência de pontos de vista não afetou em nada a amizade dos dois, que se tornariam igualmente monumentos da literatura francesa. A última das doze cartas de George Sand, de 1876, é um belo testamento moral e intelectual, uma verdadeira profissão de fé.

Como os amigos se conheceram? George Sand viu Flaubert, pela primeira vez, em 1857, no Teatro Odéon, em Paris, e nesse ano defendeu-o dos ataques à Madame Bovary no artigo “O realismo”, publicado no “Courrier de Paris”, em julho de 1857; e, mais tarde, em janeiro de 1863, defendeu o romance Salammbô, insultado por boa parte da crítica. Mas os dois escritores só foram apresentados em 1866 por Alexandre Dumas, filho e Saint-Beuve, no lendário restaurante Magny, onde o famoso grupo de intelectuais parisienses se encontrava quinzenalmente. Daí em diante tornam-se amigos e correspondentes até a morte da amiga, em 1876, quando ele chorou amargamente. Tempos depois, declarou: “É necessário tê-la conhecido como a conheci, para saber o que havia de feminino nesse grande homem.” Da profunda diferença, surgiu a grande amizade. Vive la différence!

Por Vera Lúcia de Oliveira, da Academia de Letras do Brasil.