por
Anna Maria Oliveira Rennhack.
Mestre em educação, pedagoga, editora de livros infantis e didáticos
Você passou, Bartô!
Ele nos preparou antes, com o sofrimento causado pela doença imprevista. As limitações impostas nos constrangiam a alma. Mas ele firme, não reclamava. Bartolomeu Campos de Queirós faleceu no dia 16 de janeiro, na juventude dos 66 anos.
Tudo era proibido, a bebida apreciada nos momentos de convívio, a boa comida mineira... Ele reagia de duas maneiras: escrevendo e com o cigarrinho saboreado enfrentando Deus. “Tudo me tiraram, menos isso!”, eu pensava, tentando alcançar a grandeza daquela indisciplina. Ele seguia, transformando as dificuldades em encontros e poesia. Não parou. Era uma delícia encontrá-lo e ficar próximo mais um pouquinho, estendendo ao máximo a convivência privilegiada.
Reuni as fotos, as lembranças, o coração apertadinho e revi os nossos encontros.

Um dia, passando por uma loja, encontrei uma pequena escultura de uma bailarina que, cuidadosa, amarrava a sapatilha. Na mesma hora pensei no Bartô e na mudança para a casa nova. Depois, ele me contava que ela estava perto dele, que a olhava quando escrevia. O presente foi mais meu do que dele. Na homenagem que lhe prestou em maio de 2011 a Festa Literária de Santa Teresa – FLIST, organizada pelo Centro Educacional Anísio Teixeira, tive a felicidade de ser escolhida para lhe dizer uma mensagem. Dentre tantos amigos importantes, lá estava eu, amiga recente. No meio do texto escrevi: “Silenciosa, a bailarina olha você, olha por você e espera, pacientemente, por uma dança.” Alguns me perguntaram em que livro estaria a história dessa bailarina, mas ela era a cúmplice da nossa amizade.

Um dia, ele me prometeu um texto. Demorou. Era perfeccionista com a sua criação. Dizia que não fazia livro por encomenda. Em 2010, o encontrei no 12º. Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, ele me disse, divertido, autografando o lindo Tempo de voo (Edições SM) e lembrando da doença: “Esse tempo todo eu só pensava que não podia deixar de cumprir a minha promessa para você!” E me mostrava no pescoço, a medalhinha que veio de Assis. Contou uma história curiosa de uma apresentação que fez em uma praça, das muitas que realizou pelo Brasil a fora. Tinha acabado de ganhar a medalhinha e, quando começou a falar e contar suas histórias, um cachorro de rua chegou perto dele, ficou ali, deitado do lado, enquanto ele falava. Ele se lembrou, então, do santo que protegia e conversava com os animais e achou que São Francisco de Assis tinha enviado o cãozinho para ouvi-lo.
A promessa foi muito bem cumprida com um texto lindo, livro inédito que sairá pela Record, em março. Em O fio da palavra, Bartô compara a criação de um texto e o desenho dos sinais no papel com o delicado trabalho da aranha ao fiar a sua teia. Salmo Dansa ilustrou e o resultado é um livro diferente, bem cuidado e Bartolomeu, em sua última mensagem, disse à editora: “Ana Lima. Gostei bastante do livro. As ilustrações conversam bem com o texto. Muito obrigado pelos cuidados. Bartolomeu.” Isso foi em 6 de dezembro...
O impacto causado pelo livro Vermelho amargo (Cosac Naify) mostrou que a infância foi bem mais dolorosa do que a contada em cada linha e nas entrelinhas de toda a sua obra.
Nosso último encontro foi na casa da Beth Serra, em setembro de 2011. Confraternizávamos com a presença da bibliotecária e especialista em literatura infantil e juvenil, a colombiana Silvia Castrillón, que veio ao Rio de Janeiro apresentar a palestra “Biblioteca e formação de leitores”. Saudade!
Só quem ouviu Bartolomeu pode avaliar a extensão do conhecimento, do comprometimento, da genialidade como homem do seu tempo. Fomos privilegiados por usufruirmos da companhia, do carinho, da palavra. Como consolo, sua bela obra, ensinamentos e verdades.
Que nosso querido amigo possa agora ouvir as belas canções que sua mãe cantava, mas dessa vez, sem dor, mas com a alegria por tudo que criou e como encheu as nossas almas de beleza.
Um beijo!