Untitled Document
Untitled Document


Sempre Clarice

A hora da estrela faz quarenta anos. Para lembrar a data redonda, a Editora Rocco preparou uma edição comemorativa. Além do texto original, contém 16 páginas com a reprodução dos manuscritos da autora. Nenhum outro livro de Clarice Lispector contribuiu mais para a popularidade da escritora junto ao grande público. Adotada em escolas, vestibulares e universidades, é a obra dela que mais vende e foi levada ao cinema em 1985 com direção de Suzana Amaral. Um pequeno milagre para um volume de pouco mais de 80 páginas, mas que consegue reunir todos os fios de uma escrita única, com a força da linguagem aliando-se a aspectos sociais, ao trágico da vida e, ao mesmo tempo, ao cômico. Uma obra de arte universal que marcou a despedida de Clarice. A apresentação da escritora Paloma Vidal é uma crônica-ensaio sobre o processo de descoberta desses esboços, anotações, bilhetes, folhas soltas que se transformariam no livro e foram escritas, com letra desenhada e nervosa, até no verso de talões de cheque. “Vejo a fascinação que exerce o registro de uma escrita que vem de repente e não pode ser contida. Do instante em que algo se cria. Além, também, do testemunho de um método, que, só mais tarde, tendo aberto mais algumas pastas, será possível enxergar melhor”, escreve Paloma. Uma rica fortuna crítica, com seis ensaios, completa o volume. Assinam os textos Nádia Battela Gotlib, biógrafa da autora, o acadêmico Eduardo Portella, a professora Clarisse Fukelman, o escritor irlandês Colm Tóibín, a crítica francesa Hélène Cixous e a pesquisadora argentina Florencia Garramuño. 


Autor de várias vertentes

A hipótese humana (Editora Record) de Alberto Mussa é o quarto romance do Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, série de romances policiais, um para cada século da história carioca, já composta pelos premiados O trono da rainha Jinga, A primeira história do mundo e O senhor do lado esquerdo. Com esta nova obra, Mussa reitera sua surpreendente habilidade em aliar historiografia, fabulação e suspense para restituir os pedaços negligenciados no imaginário sobre a cultura carioca. “A hipótese humana tem como problema central a noção ameríndia de pessoa, particularmente a dos guaranis, que confronta a visão ocidental”, afirma em entrevista para o blog da editora. “Uma mulher linda, intensa e que comanda os homens na cama. Com todas essas seduções, entretanto, não é a favorita do autor. Mas é ela que, de alguma forma, domina o livro e os leitores com seu mistério de vida e de morte. Tiros na noite e um crime. O enigma está apenas se esboçando e ele atrairá o leitor para uma trama de relações densas e duvidosas até as encruzilhadas nas quais, como em todo livro de Alberto Mussa, encontrará o Rio de Janeiro. Como ele foi, como ainda é, com os seus vivos e os seus mortos”, orelha de Miriam Leitão. Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Contista e romancista. Recriou a mitologia dos antigos tupinambás; traduziu a poesia árabe pré-islâmica; e escreveu, com Luiz Antônio Simas, uma história do samba de enredo. Além de figurar em listas de “melhores do ano” de veículos como Veja, O Globo e Folha, ganhou os prêmios Casa de Las Américas,  Academia Brasileira de Letras, entre outros.


Garças

Mergulho (leitura silenciosa para peixes) de Lasana Lukata (Livro Rápido Editora) é o mais novo lançamento do poeta nascido em São João do Meriti. Como seus últimos livros, o foco é a garça, ave ciconiforme que habita áreas próximas a rios, lagos, praias marítimas, manguezais e estuários. Na sua apresentação, Lukata destaca a garça e como a conheceu, diz: “Há 17 anos mergulhando na garça. Alguma coisa se salva. Descobri nas minhas observações que o rio Meriti-Pavuna não ficava vazio. Cinco e quarenta começavam a chegar e dezessete e quarenta, partir, e a chegar a garça-da-noite. Não, no rio Meriti-Pavuna não precisa colocar relógio de ponto para marcar a entrada e saída dos pássaros...” Oriundo de família de pedreiros, foi marinheiro de um navio contratorpedeiro que afundou nas águas de Durban a caminho da Índia ao ser rebocado para desmanche. Coincidentemente, a vida de Lukata também afundou, de servidor federal caiu para estadual, hoje é servidor público da Prefeitura de São João do Meriti como trabalhador braçal, mas se afundaram o navio e o homem de guerra, emergiu o poeta, participando da Oficina Literária ministrada pelo poeta Ferreira Gullar em 2001, na UERJ, resultando na Antologia Poética Próximas Palavras; cursou Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa, UFRJ. Obras publicadas: Meu Cartão Vermelho (Crônicas), Multifoco, 2010; Caçada ao Madrastio (Crônicas), Fábrica do Livro, 2010; Exercício de Garça (Poesias), Íthacas, 2011; Separação de Sílabas (Poesias), Virtualbooks, 2011; Urdume (Poesias), Multifoco, 2013; Homem ao Mar (Contos), Livros Ilimitados, 2014; Setênfluo (Poesias), Livros Ilimitados, 2014; Garça na janela (Poesias), Livros Ilimitados, 2015; Pássaros sem pressa (Poesias), 2016.


Fera domada

Quando a Bela domou a Fera, de Eloisa James (Editora Arqueiro) é uma deliciosa releitura de um dos contos de fadas mais adorados de todos os tempos. Piers Yelverton, o conde de Marchant, vive em um castelo no País de Gales, onde seu temperamento irascível acaba ferindo todos os que cruzam seu caminho. Além disso, segundo as más línguas, o defeito que ele tem na perna o deixou imune aos encantos de qualquer mulher. Mas Linnet não é qualquer mulher. É uma das moças mais adoráveis que já circularam pelos salões de Londres. Seu charme e sua inteligência já fizeram com que até mesmo um príncipe caísse a seus pés. Após ver seu nome envolvido em um escândalo da realeza, ela definitivamente precisa de um marido e, ao conhecer Piers, prevê que ele se apaixonará perdidamente em apenas duas semanas. No entanto, Linnet não faz ideia do perigo que seu coração corre. Afinal, o homem a quem ela o está entregando talvez nunca seja capaz de corresponder a seus sentimentos. Que preço ela estará disposta a pagar para domar o coração frio e selvagem do conde? E Piers, por sua vez, será capaz de abrir mão de suas convicções mais profundas pela mulher mais maravilhosa que já conheceu? Eloisa James escreveu seu primeiro romance depois de se formar em Harvard, mas o manuscrito foi rejeitado por todas as editoras. Depois de obter mais alguns diplomas e arranjar emprego como professora especializada em Shakespeare, ela tentou novamente, dessa vez com mais sucesso. Mais de 20 best-sellers depois, ela dá cursos sobre Shakespeare na Fordham University, em Nova York, é mãe de dois filhos e casada com um legítimo cavalheiro italiano.


A Saga

O trabalho de Drauzio Varella como médico voluntário em penitenciárias começou em 1989, na extinta Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Os anos de clínica e as histórias dos presos, dos funcionários e da própria cadeia seriam retratados nos aclamados livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012). Em 2017, Drauzio encerra sua trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro com Prisioneiras (Editora Cia das Letras). Alçando as mulheres encarceradas a protagonistas, o médico rememora os últimos onze anos de atendimento na Penitenciária Feminina da Capital, que abriga mais de duas mil detentas. São histórias de mulheres que não raro entram para o crime por conta de seus parceiros – inclusive tentando levar drogas aos companheiros nas penitenciárias masculinas em dias de visita –, mas que são esquecidas quando estão atrás das grades. As famílias conseguem tolerar um encarcerado, mas não uma mãe, irmã, filha ou esposa na cadeia. As casas de detenção femininas guardam suas particularidades – diferenças às quais o médico paulistano dedica atenção especial em sua narrativa. Desde a dinâmica dos atendimentos e a escassez de visitas até os relacionamentos entre as presas, fica nítido que a realidade das prisões escapa ao imaginário de quem vive fora delas. Prisioneiras é um relato franco, sem julgamentos morais, que não perde o senso crítico em relação às mazelas da sociedade brasileira. Nesse encerramento de ciclo, Drauzio Varella reafirma seu talento de escritor do cotidiano, retratando sua experiência e a vida dessas mulheres com a mesma disposição, coragem e sensibilidade que empreendeu ao iniciar seu trabalho nas prisões há quase três décadas.


Inexistência

“O mundo não existe”. A afirmação de Markus Gabriel, um dos principais filósofos do novo realismo, não quer dizer que estejamos em uma matrix. O que ele defende em seu novo livro, O sentido da existência (Editora Civilização Brasileira), é que a concepção de mundo definida pela ciência não abriga todos os domínios de objetos. Para ele, o correto seria pensar, então, em uma série de mundos, como o da imaginação. Aos olhos do autor, a ciência é arrogante por acreditar que apenas por meio do método científico o homem será capaz de compreender a realidade. Ele argumenta que a humanidade apenas conhece seções do infinito e que uma visão geral do todo é impossível. Neste contexto, sobram críticas para os cientistas, entre eles, Stephen Hawking, acusado por Markus de reduzir a potencialidade infinita de domínios a objetos físicos. O filósofo parte do pressuposto de que a facticidade verdadeira está no sentido e não na existência nua dos objetos: “O universo nos impressiona bastante, sendo o lugar do nosso nascimento e da nossa morte. Entretanto, isso não quer dizer que o estudo das propriedades físicas do universo tenha a ver com a ontologia. A ontologia é e continua sendo metafísica. E a metafísica, tanto quanto a física, é uma ciência, com a diferença de que trabalhamos na dimensão de uma articulação conceitual de definições, as quais possibilitam que de algum modo participemos de algo objetivo (e não de emoções puramente subjetivas, como pensava Carnap), afirma o autor que alfineta o filósofo alemão Rudolf Carnap, um dos maiores opositores da metafísica.

Untitled Document
Untitled Document

Página Principal - Quem Somos - Expediente - Editorial - Opiniões - Letras e Letras - Lançamento - Bolsa do Livro
Assinatura - Publicidade - Contato - Novo Produto

Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2005, Jornal de Letras